Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

O Regresso de Krug - I

    

 

 

     Konrad Krug desembarcou na Estação Central da Cidade, acompanhado pela mulher, Maria José, sem sentir qualquer emoção especial. Contudo, devia estar tomado por uma chuva de emoções, ou não acabava de chegar enfim a Dresden, a cidade que o viu nascer, a ele, aos irmãos, aos pais e avós. As suas raízes deveriam estar aí, algures enterradas, a puxar ao sentimento ou à emoção.

     Mas não, estafado por uma longa viagem num comboio ronceiro que teimava em parar um pouco por toda a parte, Krug não se entusiasmou com o aspecto lúgubre da velha estação e depois cá fora, na Praça de Viena, sentiu-se confuso. Ao telefone disseram-lhe que o Ibis era aí mesmo em frente e qual o seu espanto quando vê três hotéis iguais, todos com a mesma placa em cima. E perguntou à mulher, mas para que hotel vamos afinal? Subitamente recordou as palavras da telefonista repetidas várias vezes, - o terceiro edifício ao sair da estação, o terceiro ..... - Então é isso, telefonei para o terceiro e é para lá que vamos.

 

      A praça deserta ao sol quente de um sábado de Agosto separava-os dos hotéis na Prager Strasse, edifícios em forma de caixotes atravessados relativamente à rua pedestre que tinha uns repuxos ao fundo e muitas lojas modernas e armazéns retalhistas dos grandes grupos multinacionais que já se tinham assenhoreado do novel país integrado no pensamento único. O átrio do hotel estava transformado num misto de museu e loja de bicicletas. Algumas muito antigas ornamentavam o conjunto com outras muito modernas à espera de quem as alugasse para ir à descoberta da cidade sem poluir o ambiente. Bicicletas negras e curvas de quadros muito grossos. - Devem ter vindo da Sibéria - pensou Krug para com os seus botões, - não, talvez não, retorquiu depois para consigo, são demasiado novas para isso.

 

     Krug ficou deveras ofendido com o recepcionista que desatou a falar-lhe em francês, como se não soubesse alemão e na língua teutónica respondeu que em primeiro lugar deveria falar a língua dos nativos que era a sua também. "Ich bin hier auch ein Eingeborener". Também sou um indígena aqui. O empregado fez uma certa cara de parvo e balbuciou qualquer coisa como um pedido desculpa.

     Antes de sair à descoberta da cidade, Krug resolveu consultar a lista telefónica para encontrar alguns Krug, primos, tios ou seja o que for que lhe pudessem informar o que se passou com a sua família. Principalmente queria um relato vivido daquela noite fatídica e tão distante no tempo, a do horrível holocausto de 14 de Fevereiro de 1945 provocado pela queda de 3 mil toneladas de bombas num semicírculo restrito com pouco mais de 2 mil metros de perímetro e que provocou a morte de mais de 35 mil habitantes da cidade em vias de ser conquistada pelos soviéticos. A frente de batalha estava então a poucos quilómetros. 

 

     - Com um nome como o meu, Púcaro ou Caneca, não deve haver muita gente, disse à mulher enquanto procurava o seu apelido na lista.

     - Sim, deves ter tido um ascendente muito ligado à cerveja, com certeza, para lhe porem essa alcunha que depois terá dado em apelido, - respondeu-lhe a mulher Maria José.

     - Talvez, respondeu Krug, consultando a lista telefónica. Sabes, em português o nome alemão não quer dizer nada e acabo por me imaginar um personagem literário, o K do Kafka ou o Kurtz de Joseph Conrad, principalmente este com quem partilho o seu apelido que para mim é nome, valorizado literariamente com o K.

     - O nome não é muito comum, por isso, as pessoas com o meu apelido devem ser parentes. Tenho familiares em Dresden e não sei porque não os procurei há mais tempo, talvez porque não desejava visitar um país controlado por uns gajos que desconfiam de tudo e de todos e podem encanar seja quem for.

      Olha! Está aqui uma Marthe Krug, mora na Loschwitzer Strasse, vou telefonar.

 

     Da cidade propriamente dita, Krug não recordava quase nada, saira aos cinco anos de idade. Mas, mesmo antes, não estivera sempre em Dresden. Lembrava-se vagamento do jardim-escola, um grande pavilhão de madeira nas traseiras de uma escola primária, todo enfeitado com bandeiras vermelhas com a cruz suástica. Do jardim da escola, Krug lembra uma festa de qualquer coisa com muitos alunos a fazerem ginástica e até cavalos em provas de volteio. Também recorda a horta do Jardim Escola onde os pequenos alunos aprendiam os rudimentos da agricultura. A escola nem se situava em Dresden, mas algures nos arrabaldes, para onde foram levadas muitas crianças da urbe para evitar perecerem nalgum bombardeamento.

     Da casa paterna pouco ou nada ficara na memória de Krug, só algo da casa na aldeia e do pão preto ao pequeno-almoço. Mais do que o ambiente e as pessoas, o pão preto ficou para sempre gravado na memória. Do bombardeamento recorda apenas uma enorme nuvem de fumo vista ao longe a partir da aldeia onde vivia. Depois as senhoras da Cáritas alemã, a saída para o oeste, Frankfurt, e daí para Portugal.

     Porquê a vinda para esse país tão ocidental?

    Konrad Krug nunca conseguiu explicar. Muitos órfãos de Dresden foram levados pela Cáritas para Portugal. Provavelmente, o ditador Salazar queria germanizar um pouco o seu povo, a fim de o tornar mais obediente às suas ideias sobre autoridade e hierarquia, ou Portugal terá sido o único País do Mundo que deu guarida aos orfãos alemães em 1945. 

     Krug veio para a casa de uma família lusa que morava numa espécie de quinta próximo de Almada. Viveu aí alguns anos até ao falecimento do velho Sr. Magalhães, passando depois para um lar da Cáritas. Krug cresceu no ambiente criado por um velho fanático do nazi-fascismo que lentamente foi afastando-se daquela ideologia para adoptar um pensamento mais democrático, quase do reviralho como se dizia então. O doutor Magalhães faleceu antes mesmo do ditador cair da cadeira. Nesse dia histórico, já Krug trabalhava no escritório de uma empresa alemã em Lisboa, sem saber ao certo quem era e o que deveria fazer na vida.

     Muito a custo conseguiu a ligação e chamou a senhora Marthe Krug. Foram longas as explicações e os pedidos para desculpar o incómodo, mas queria encontrar alguém da sua família.

   - Sim, o meu apelido é Krug, nasci em 1929, os meus pais faleceram no bombardeamento, terão sido seus parentes? Martin Krug e Katja Krug, de solteira Lange-Müller. - É provável, respondeu a senhora, - sabe, eu tenho 80 anos de idade, e naquela altura, os Krug de Dresden estavam todos relacionados entre si. Mas, se quiser venha a minha casa e, entretanto, vou ver nos papéis velhos e fotos. Assim de repente, posso dizer que éramos primos, o Marthin, sim, lembro-me dele coitado, morreu tão novo. Já não tinha pernas, perdeu-as na frente oriental.

     - Mas, se quiser, podemos ir almoçar juntos, - alvitrou Krug, que não queria intrometer-se na casa da velhota que nem sabia ao certo se seria uma sua parente. Além disso, como sucede com a maior parte dos lisboetas, perdeu o hábito de contactar alguém na sua própria casa, preferindo o chamado terreno neutro, café ou restaurante.

     - Sim, respondeu-lhe Marthe Krug, nestes meus oitenta anos, resta-me o prazer de ir de vez em quando comer qualquer coisa a um restaurante ou cervejaria. - O meu local preferido é a cervejaria Paulanas situada no edifício do Hotel Kampinski. Mas, olhe, apesar da localização não é caro, não é propriamente um lugar de luxo e nada tem a ver com o hotel. Fica perto da Frauenkirche, ou antes das suas ruinas, pois o templo nunca chegou a ser reconstruído, ainda andam a juntar dinheiro para isso. Levo um casaco de malha vermelho e, talvez, vá acompanhada pelo meu cunhado, Winfried Werner, que sabe tudo sobre a cidade, até escreveu um livro e vários artigos.

     - Pois está bem, irei lá, tanto mais que é domingo, ainda não é hoje que vou começar o "trabalho" de ver a cidade, o museu Zwinger com os seus Canaletos e não sei o que mais.

 

     Krug e a mulher pediram no hotel que lhes explicassem o caminho para o tal restaurante Kampinski. Não era difícil, tudo a direito pela Praggerstrasse até à Praça do Velho Mercado, a Altmarkt, e daí em frente pela rua das galerias à Praça do Novo Mercado e pronto estava-se em frente ao Kampinski e às ruínas da velha Igreja das Senhoras, a Frauenkirche. 

    Atravessaram a pé a Praça do Velho Mercado. Krug esperava ver no real algo pintado por Canaleto no seu célebre quadro da cidade que mostrava uma das mais belas praças renascentistas de sempre, mas nada. Tudo aquilo foi destruído e, ainda hoje, não passa de um local aberto com edificações sem significado, a não ser uma igreja a um canto, um pouco reconstruída com a traça da época.

     - Razão teve o então Rei Augusto da Saxónia e Polónia, grande construtor de Dresden, quando convidou Canaleto para pintar a sua cidade. Foi como se tivesse adivinhado que aquilo tudo seria um dia reduzido a pó e cinzas, disse Krug para a mulher que retorquiu: - Espero bem ver esses célebres Canaletos de Dresden que, segundo o guia artístico de Dresden, mostram a cidade renascentista no mais pequeno detalhe como nunca antes uma cidade fora pintada.

     - Sabes? Uma vez ao ver uma reprodução do Canaleto da Praça do Mercado, lembrei-me de escrever um conto que fosse a história de uma cidade antiga que resolvera abandonar a nossa civilização tecnicista. Na parte antiga tudo o que fosse moderno seria banido, as pessoas passavam a vestir-se à antiga, andar de tipóia ou a cavalo, cozinhar com lenha ou carvão, não ter luz eléctrica, mas tão só velas ou lamparinas a óleo, fiavam e teciam os seus têxteis e só se alimentavam de alimentos orgânicos, isto é, produzidos a partir de sementes orgânica que uma vez germinadas originariam plantas hortícolas sem uso de adubos e pesticidas. Os turistas visitavam a cidade a pé e adquiriam produtos antigos e naturais à população que recusava a modernidade.

     Rapidamente, o casal Krug chegou ao edifício do Hotel Kampinski e encontrou a cervejaria Paulanas. Mas, antes ainda foram ver as ruínas da Frauenkirche. Krug apanhou uma pedra e queria guardá-la como recordação, mas resolveu atirá-la ao ar em protesto contra os bombardeamentos da cidade e todos os outros perpetrados pelas forças aéreas nas guerras do Século. As ruínas estavam rodeadas de uma cerca metálica em rede, pelo que Krug se limitou a apanhar uma pequena pedra do passeio que provavelmente nada tinha a ver com a igreja destruída e depois apanhou outra para protestar noutro local que não sabia ainda onde.

      Com a pedra na mão, Krug entrou no Paulanas e qual não foi o seu espanto. Quase metade das mesas estavam ocupadas por homens e mulheres vestidos à antiga, todos muito maquilhados e ostentando perucas à moda dos tempos de Luís XIV.

     - Estão a concretizar o meu conto sobre a cidade de Canaleto, pensou para os seus botões. A mulher disse-lhe logo: - olha, os tipos vão regressar ao passado como tinhas imaginado. - Não, não pode ser, deve ser uma trupe teatral, ou devem ser da Ópera aqui perto, não acredito que o destino possa ter adivinhado os meus pensamentos e pô-los em prática precisamente quando chego à cidade.

 

 

 

Continua em "O Regresso de Krug II e III"

Copywright: Dieter Dellinger

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publicado por DD às 17:43
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Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

O Regresso de Krug - II

      

 

 

      Entraram na cervejaria/café Kampinski, sentaram-se e esperaram pela velhota do casaco de malha vermelho.

     - Isto já parece Lisboa - disse-lhe Maria José Krug - uma data de empregados e empregadas, vê-se bem que há desemprego e que os salários nesta parte da Alemanha devem ser bem mais baixos que na antiga parte ocidental.

      - Olha, disse Krug, aí vem a velhota do casaco de malha vermelho, acompanhada pelo tipo de chapéu, deve ser o tal especialista.

       -  Vai lá cumprimentá-los. Pergunta se é a senhora Krug e dizes que também te chamas caneca. Vai, vai.

       -  Está bem! Vou, não é preciso repetir.

       -  Frau Krug, - quase gritou Konrad Krug depois de se levantar da cadeira - eu sou o tal Krug que falou consigo ao telefone.

     - Oh! Muito prazer, este senhor é o meu cunhado, Winfried Werner, um especialista da história de Dresden. Sabe, quando vim para cá estive a pensar e a recordar cada vez mais. O seu pai, Marthin Krug, era, na verdade, meu primo, sobrinho do meu pai, brincámos juntos nos bosques situados perto da minha casa, junto ao rio Elba.

      -  Bem, apresento-lhe a minha mulher, Maria José, portuguesa.

     - Bonita, que olhos grandes e negros. - Sentemo-nos pois e mandem vir cervejas e alguma coisa para comer.

    - Você, ou posso tratar-te por tu? Dada a diferença de idades e o facto de sermos primos, em segundo grau, é certo. Sim, tenho já oitenta. Vivi aqui em Dresden, raramente saía da cidade, só depois da queda do muro e de ter deixado a loja que tinha é que passei a viajar. Fui a Maiorca, Sevilha, Granada, Barcelona, Córsega, Florença, Roma e outros sítios. Sempre para o sul, onde há sol e palmeiras, que terras tão bonitas. Que pena não me ter lembrado de ir a Portugal.

     Mas como é que foste parar a Portugal?

    -  Pela Cáritas na qualidade de órfão de pai e mãe e até de tios e tias.

    - Claro, ficaste com pouca família. Naquele bombardeamento, contei trinta e sete pessoas mortas da minha família. Entre elas, os teus pais. Aqui o Winfried é que sabe o que se passou, viveu como eu, mas estudou o assunto depois. Ele e o pai e mãe, se não me engano, foram das poucas pessoas que se salvaram dum bunker. Parece-me que nem viviam muito longe dos teus pais.

    - Sim,- respondeu Winfred - o meu pai faleceu há mais de vinte anos. Lembro-me bem dele contar toda a história, que presenciei, mas que durante muito tempo esteve como que apagada do meus espírito. Infelizmente não parece que tenha citado os nomes das pessoas da família que estavam nos abrigos próximos. Pelo menos não recordo isso.

    -  Então, a prima Marthe o que fazia na sua vida activa?

   - Ah! Fui empresária, pequena burguesa, durante toda a minha vida. Mantive a quase miserável drogaria do meu pai com um pequeno balcão a servir de perfumaria privada. Sim, apesar de ser um regime comunista, mantive o negócio até à queda do muro. Depois apareceu-me um indivíduo a dizer que era o dono do prédio e que a partir daquela data tinha de pagar uma renda de dez mil marcos. Sim, dos novos. E com a abertura dos grandes supermercados do Ocidente, o negócio deixou de ser o que era, pelo que não havia a mínima possibilidade de pagar uma renda tão exorbitante. Fechei a loja, mandei duas pessoas para o desemprego.

     - Então o regime comunista da RDA não lhe nacionalizou o negócio?

    - Não, desde que pagasse os impostos e não falasse de política, estava tudo bem. De resto, deveriam achar que seria ridículo estatizar aquilo.

    - A minha cunhada tem razão, o regime não nacionalizou muitas lojas, pequenas fábricas e explorações agrícolas, sempre produziam qualquer coisa. Oposições é que eles não queriam, nem a mais pequena crítica ao poder, para não falar em eleições livres. O Partido tinha de as ganhar sempre, reservando uns lugarzitos para dois ou três partidos associados, um deles até pretendia defender a pequena burguesia, mas não, aquilo era tudo a fingir.

     Como não podia deixar de ser, a prima Marthe tirou da carteira as fotografias dos familiares directos; do marido falecido há mais de uma década, dos dois filhos e dos três netos. Falou ainda no que faziam, um dos filhos era mecânico numa terra vizinha e o outro funcionário público em Berlim.

     - Sim, tradicionalmente, uma parte importante dos servidores do Estado, em Berlim e noutros locais, eram de Dresden. Parece que tínhamos uma tendência para a burocracia, desde os velhos tempos do rei até hoje, passando por todos os regimes políticos que por cá tivemos.

     - E então, a transformação política trouxe benefícios à população, prima Marthe?

    - Fizeram-se algumas obras e há esperança no futuro. Mas, o desemprego é muito, os jovens e até muita gente de outras idades luta com dificuldade para encontrar emprego ou manter-se no que tem. Antes, a situação era, sem dúvida, melhor quanto a empregos, mas com salários mais baixos, tudo o resto foi pior e faltava a liberdade, mesmo para atravessar uma simples fronteira, para não falar em comer uma banana ou intervir politicamente. Além disso, aquela ideia de tentar criar uma nação sem raízes próprias nem verdadeira independência não tinha sentido. Só porque as tropas soviéticas pararam aqui e não mais para lá ou para cá, tinha de haver mais uma nova nação, no papel, claro. Como as dezenas de povos da União deles, desprovidos de vontade política e, por isso, se desligaram de Moscovo logo que puderam.

    - A prima percebe de política e tem opiniões, não é verdade?

    - Fomos sempre bombardeados com opiniões políticas, nos jornais, rádio e televisão. Por isso, quer queira quer não, não posso deixar de saber algo sobre o assunto. Além disso, penso que é melhor falar de política do que da vida pessoal de uns e outros. Quando se chega à minha idade, acha-se que a vida foi tão monótona e igual à de toda a gente: casa, família, trabalho e mais nada, durante sessenta anos. Todos muito ocupados com as suas actividades e sem tempo para ninguém. A guerra, claro, foi a pior das coisas e também foi monótona, anos a fio, alarmes, abrigos, faltas de quase tudo e vitórias sobre vitórias nos jornais e na rádio quando o dia-a-dia ia piorando sempre. Fomos de vitória em vitória até ao colapso total. Recordo que um dia antes das tropas soviéticas entrarem em Dresden, os jornais ainda falavam na vitória nazi que estaria cada vez mais próxima. Eu julgava que ia viver sempre em guerra, pois aquilo nunca mais acabava.

    - Então, e o meu pai, conheceu-o bem no tempo da guerra?

    - Claro, apesar de que quando telefonaste quase me não lembrava dele; depois sim, veio tudo à memória. O Marthin sofreu muito, coitado. Vocês moravam muito no centro, numa pequena e escura travessa, a Webergasse, que ligava duas ruas mais largas. Parece que o sol nunca vos entrava em casa.

    - Não sei, a idade que tinha não dá para recordar.

   - É verdade, coitado do seu pai, foi amputado das duas pernas na frente russa, depois rastejava-se nos cotos ou numa prancha com umas rodinhas. No seio da família dizia-se que teve sorte em não ser liquidado pelos médicos militares. Nessa altura praticava-se largamente a eutanásia militar, os grandes feridos recebiam uma injecção e pronto, já não eram feridos, nem nada, poupava-se uma cadeira de rodas tão difícil de obter na época. E nunca compreendi porque razão no regime de Ulbrich não se quis falar nisso, será que também os outros exércitos faziam o mesmo?

    - Quer dizer, nunca chegaram a levar algum médico militar alemão a tribunal?

    - Que eu saiba, não. Acerca do seu pai, diziam que os camaradas da companhia foram ao hospital de campanha ameaçar que matavam o médico se o Marthin morresse. Antes do bombardeamento dizia-se isso em voz muito baixinha. Depois, com a morte do Marthin e de tanta gente, ninguém da nossa família pensou mais no assunto. Ainda me lembro dele, a andar com os cotos entrapados, arrastando-se no chão. Antes da guerra não tinha tido sorte, trabalhou no serviço voluntário dos caminhos de ferro com um salário miserável e daí a pobreza da vossa casa. Conheci-o melhor quando regressou a casa, em Dresden, poucos dias antes do bombardeamento. Tinha estado numa instalação semi-hospitalar para os feridos de guerra, mas aquilo foi evacuado com o avanço dos russos. Compreendo a razão, porque os médicos do exército matavam os grandes estropiados, deviam ter recebido ordens de cima, sim, do próprio ditador que não queria espectáculos tão deploráveis. Deve ter sido ferido em 1943, mas não tenho a certeza.

    - Acho que sim, também em Portugal, o exército tratava mal os combatentes caídos na frente. Quando morriam, era sempre por acidente. Em troca do sacrifício da vida pela chamada pátria, levavam por parte dos comandos militares uma roda de estúpidos. Morto por acidente de viação ou, pior, acidente com arma branca, nunca em combate. O jornal que eu lia, o Diário de Notícias, estava sempre cheio dessas mentiras, todos os dias durante anos.

    - Mas, senhor Werner, então como foi o bombardeamento e como foi possível morrer tanta gente?

    - Antes de ele falar, deixe-me dizer que o Marthin e a mulher foram queimados vivos pelas bombas incendiárias dos ingleses no abrigo em que estavam. Ouvi dizer por outras pessoas de família que a sua mãe não quis deixar o Marthin no bunker, pois amputado como estava não podia correr pelas ruas a fugir do fogo.

    - Foi assim, senhor Werner?

   - Claro, senhor Krug, ou primo afastado Krug. A destruição de Dresden foi um dos últimos bombardeamentos civis da guerra. A nossa cidade era linda, monumental, tanto na parte antiga como na mais moderna. Foram três os grandes ataques a Dresden.

   - Mas, senhor Werner, porque razão os ingleses destruiram a cidade quando os seus aliados russos estavam em vias de entrar nela?

   Sim, não era nos bairros civis que iam travar uma batalha de resistência? Até tinham chegado à cidade milhares de feridos, vindos dos diversos centros de acolhimento dos sudetas e outros locais em vias de serem ocupados pelo exército vermelho. Como o meu pai, por exemplo.

    - Eu tenho a minha teoria, ou antes, as minhas teorias sobre todos aqueles acontecimentos, sobre a guerra mesmo.

     - O meu cunhado Werner tem sempre teorias, sabe tudo, é um intelectual, Konrad, e escreveu um livro sobre Dresden, intitulado simplesmente "Ou". Também escreve artigos e contos que publica um pouco por toda a parte. Gosta de títulos curtíssimos. Recordo que escreveu um artigo ou conto, ou uma coisa e outra, na revista "Akzente" com o título "E". Os seus contos têm sempre um título muito curto, uma conjunção.

     - A minha cunhada exagera um pouco, excepto nisto dos títulos, já utilizei a palavra "Sim" e "Não" para título e um dia escrevi algo com o título "...", aspas e três pontinhos, assim mesmo. São brincadeiras, não são verdadeiros actos de intelectual.

    - É engraçado, isso de títulos curtos, nunca pensei nisso. Mas, afinal, o que sabe do bombardeamento e do desaparecimento da minha família?

    - Sei sim, por triste que seja, não vou deixar de lhe contar tudo como foi. De qualquer modo, ao fim de tantos anos, espero que esteja habituado à triste verdade e não o emocione muito.

     -  Não, nem sou pessoa emocional, pode dizer tudo.

    - Óptimo! Mas, primeiro e em resposta à sua pergunta sobre as razões do bombardeamento. São óbvias, os ingleses não queriam que os soviéticos encontrassem uma cidade alemã intacta. Não queriam que os russos se enchessem ainda mais de jactância, dizendo que eles sozinhos tinham ganho a guerra. O objectivo Dresden era irrelevante para o fim da guerra. E sabe-se hoje que a seguir ao bombardeamento de Dresden, os "Lancaster" ingleses chegaram mesmo às proximidades de Praga para arrasarem também a capital checa. Só que, os russos já estavam dentro da cidade. Há documentos dos antigos arquivos soviéticos que dizem o contrário. Estaline pediu muitas vezes aos aliados para bombardearem todas as cidades e vilas junto à frente em que lutava. Provavelmente para reduzir a capacidade de luta do inimigo nazi e também para que os seus soldados não vissem cidades intactas e não pudessem fazer comparações.

 

Autor: Dieter Dellinger

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Domingo, 27 de Dezembro de 2009

O Regresso de Krug - III

 

     Dresden foi destruída em três bombardeamentos que decorreram de 13 a 14 de Fevereiro de 1945. O primeiro começou às 22.13 da noite de 13. O grosso da força de ataque foi constituído por 244 bombardeiros Lancaster, acompanhados por bimotores Mosquitos de caça e ataque nocturno. Ao mesmo tempo, outros bombardeiros atacavam Nuremberg, Leipzig, Bonn, Dortmund, Magdeburg e outros pontos para não permitir aos alemães a identificação do verdadeiro objectivo a atingir pelos aliados.

     O grande estádio de Dresden foi o ponto de referência; sobre ele, os bombardeiros marcadores largaram bombas de fumos vermelhos, depois de receberem a ordem do "Masterbomber". De acordo com o ataque previsto, deveria ser destruído um quarto de círculo com um ponto de intersecção dos raios no estádio.

     - Eu não acredito - disse Marthe Krug - que o único objectivo dos britânicos tivesse sido mostrar aos russos que não tinham ganho a guerra sozinhos. Não, aqui a velha Marthe acredita que houve um desígnio global na última guerra com um quase acordo entre os militares das potências em luta, ou antes, dos responsáveis pelas forças aéreas. Matar a população civil, enfraquecer, para não dizer destruir, as sociedades civis. Os militares quiseram vingar-se da I. Guerra Mundial em que eram eles só a morrer nas trincheiras, ou antes, eram predominantemente os jovens civis transformados apressadamente em militares, após uma sumária recruta. Digo isto, porque foi o meu marido que muito em surdina me expôs esta teoria. Ele dizia sempre que as forças aéreas não se preocupavam em atingir objectivos militares, queriam era sacrificar a população civil. Começaram em Madrid e Guernica e acabaram em Dresden, Hiroshima e Nagasaki. Repare, a guerra tem como objectivo matar pessoas. Para isso é que os militares foram ensinados e treinados, tal como o médico o é para curar as doenças.

     - Talvez a prima tenha razão, nunca vi a questão por este prisma, mas tem algo de verdade e faz-me lembrar alguns dos escritos do sociólogo Gaston Bouthoul em "O Fenómeno Guerra". Ele via na guerra mais uma questão demográfica e populacional que a simples continuação da política por outros meios, como escreveu Klausewitz. E repare prima, a última guerra foi, sem dúvida, a maior de todas as guerras tribais de sempre, mas não a última, certamente.

     - Mas, continuando, e desculpem por interromper os vossos interessantes raciocínios. A técnica do ataque às cidades tinha evoluído muito. Os aliados lançavam, primeiro, bombas altamente explosivas para rebentar portas, janelas e telhados e depois faziam explodir as temíveis bombas incendiárias de petróleo e de fósforo que deveriam lançar fogo ao recheio das casas e com os incêndios queimar ou asfixiar as pessoas que se abrigaram nas caves e depois voltavam a lançar bombas explosivas para matar os bombeiros e o pessoal dos serviços de protecção civil. No meio disso, lançavam minas aéreas para explodirem depois e nos intervalos ainda lançavam folhinhas de fósforo que se prendiam às pessoas para as queimarem vivas. Aqui em Dresden, como noutras cidades alemãs, as incendiárias provocaram uma temível tempestade de fogo que abrangeu uma área superior à atingida directamente pelos impactos explosivos. A zona alvo englobou a parte antiga com os monumentos e museus, tudo sem significado militar, além de muitos bairros residenciais. E foi tudo estudado cientificamente, sabe.

     Os americanos chegaram a construir durante a guerra uma cópia das típicas cidades operárias alemãs com os seus edifícios em tijolo e telhados assentes em estruturas de madeira. Depois bombardearam essa mesma cidade que foi várias vezes reconstruída. Pretendiam assim estudar a melhor bomba incendiária para melhor queimarem vivas as populações operárias. Fizeram-no no Estado do Utah, próximo de Salt Lake City. O arquitecto foi mesmo o Erich Mendelsohn que se notabilizou com a sua célebre Torre de Einstein e que tinha um conhecimento profundo da forma como os alemães construíam as suas cidades, já que foi uma estrela da arquitectura alemã durante a época da República de Weimar.  

     Como tal, foi o arquitecto daquilo a que os aliados denominaram "dehousing", tirar a casa.

     - O Werner não quis dizer, mas em 1945 namorava já a minha irmã e moravam mesmo junto à casa dos seus pais, na Wildsruffer Strasse, e safou-se bem do abrigo, era um rapazinho muito novo, corria bem. Foi isso que o salvou.

     - Então, Senhor Werner, conte lá o que se passou consigo e o que sabe dos meus pais.

     - Hoje, passado este tempo todo já posso falar. Nestas coisas andei mais de vinte anos a esquecer e outros tantos a relembrar.

      -  Então, tire lá dos neurónios o que sabe.

     - Olhe!< Não é muito, mas trágico! Hoje parece-me tudo irreal, como um sonho, ou mesmo um filme visto há muito tempo no cinema ou na televisão. Parece que uma parte do meu cérebro teima em esquecer, enquanto outra pretende recordar.

      -  Então o que recorda em concreto? Diga lá, se isso não causar um certo aborrecimento.

     - Não, não causa mais qualquer transtorno, pois já contei e escrevi a história muitas vezes, mesmo no livro  "ou Dresden".

     - Depois dos alarmes fomos para a cave do nosso prédio. Fui com o meu pai, mas não nos sentíamos nada seguros aí. Eu preferi ir para uma entrada junto à cave, aquilo tinha um tecto abaulado que dava a ideia de ser mais sólido. As bombas começaram a cair e a explodir com estrondos ensurdecedores. Os meus vizinhos choravam e gritavam, as explosivas deviam cair aí perto e serem bem potentes. Os ingleses queriam rebentar os monumentos em pedra e, por isso, escolheram o material mais pesado. Parece que ficámos todos atordoados e quase desprovidos de audição depois do estrépito de uma bomba que fez ruir a parte superior do nosso prédio. Quando cessou o ruído continuámos na cave, estávamos todos tontos como se tivéssemos ingerido uma bebida muito forte e esperámos por algo, que ninguém sabia o quê.

     -  Mas ficaram assim muito tempo, senhor Werner?

     - Para dizer a verdade, não sei, mas talvez não fosse muito tempo. Recordo que fui com o meu pai ver o nosso apartamento. Estava meio destruído e uma bomba incendiária ficou presa na janela da casa de banho. Sabe? Era uma pequena bomba de fósforo do tipo das que chamavam então morcego destinadas a queimar vivas as pessoas e eram lançadas em nuvens de milhares para cima dos edifícios previamente destruídos pelas bombas explosivas. Meu pai queria tirar a bomba para fora, enquanto a minha mãe gritava para não lhe mexer, acabou por a colocar na banheira cheia de água. Pelas janelas partidas víamos os clarões dos incêndios das casas nas redondezas. Pensámos em salvar alguns pertences e sair dali, sabíamos que os bombeiros não seriam capazes de apagar aqueles incêndios todos. Metemos comida em sacos e alguma roupa e saímos para o exterior, envoltos em panos encharcados e chapéus molhados e óculos de protecção, pois queríamos evitar a cegueira instantânea produzida pelas feridas do temível fósforo. O meu pai levava um velho capacete de aço, previamente untado com um óleo e molhado. Os vizinhos fizeram o mesmo e recordo que a jovem viúva de guerra do primeiro andar levou uma pequena gaiola com um pássaro e uma senhora idosa com um sobretudo por cima da camisa de noite transportava um penico cheio de areia.

     De alguma forma, a primeira fase do bombardeamento fez-nos enlouquecer um pouco, apesar de ninguém ter perdido uma certa calma. Na rua parecíamos um cortejo de loucos, todos com as caras envoltas em toalhas de banho molhadas com aberturas muito pequenas para os olhos. Muitos levavam garrafas e outros recipientes de água que iam despejando por cima da cabeça para manter o corpo fresco e evitar as queimaduras. - E foram para onde?

     - Fomos primeiro para a rua e qual foi o nosso espanto quando vimos que subitamente o nosso prédio estava a arder. Se lá tivéssemos ficado, ardíamos também. Pegámos nos carrinhos de mão que tínhamos guardado para esta eventualidade e fomos rua acima com quase tudo em chamas à nossa volta. O asfalto parecia ferver e de repente até um dos carrinhos de mão começou a arder por via do fósforo que caíra nas roupas. Olhámos para cima e vimos as folhinhas brilhantes a caírem lentamente, pareciam restos de um gigantesco fogo de artifício.

     - Andámos de um lado para outro, procurando as ruas mais largas e as praças sem ver mais que os incêndios. Fazíamos o que podíamos para fugir às torturantes e mortíferas folhinhas de fósforo. Repentinamente, apareceram vários homens da protecção civil a gritar que estava tudo a começar de novo. Não tínhamos ouvido ruídos de sirenes ou aviões, só alguns minutos depois é que ouvimos de novo os estrondos das bombas.

      -   E ficaram por ali parados?

    - Não, estávamos perto da Câmara Municipal, encontrámos um abrigo nas caves protegidas do edifício que eram das melhores da cidade. Havia ali água de reserva, depósitos de areia e material para combater os incêndios. Mas, estava tudo cheio de gente e parece que já não ouvi mais as bombas, só as pessoas a contarem uns aos outros o que foi a primeira fase do bombardeamento. Muitas pessoas tinham roupas rotas e queimadas, muitas estavam feridas, ajudavam-se umas às outras a fazer pensos e arranjar as poucas roupas que restavam. Umas tiravam camisolas para outras que não tinham, dos sacos de roupa saíram peças para uns e outros.

    Palavra que é verdade, parecíamos pertencer todos a uma única família, dei alguma da minha roupa a um rapaz que tinha a mesma altura que eu. Recordo a mãe dele, muito bonita, a agradecer com os olhos húmidos. A um canto, puseram os mortos e a outro, os que tinham sido queimados pelo fósforo e que morriam no meio de um sofrimento indescritível, gritando e apelando por socorro. Nada havia para os salvar, o fósforo é a mais insidiosa arma para matar lentamente na mais dolorosa das torturas que se possa imaginar, pior mesmo que as fogueiras do Santo Ofício. Mas, a dada altura, a terra voltou a estremecer, parecia um tremor de terra entre o ruído de silvos e zumbidos. O ar tornou-se quase irrespirável e cheio de fumo, alguns companheiros de infortúnio começaram a intoxicar-se e a vomitar, os moribundos apressavam-se a morrer. Alguém abriu uma porta e começámos a sair, mas fomos impedidos de o fazer, as paredes da Câmara ruíram e ficámos quase soterrados no entulho, o pessoal ficou paralisado, do exterior vinha um calor insuportável. Um indivíduo mais entendido dizia que lá fora estava a passar um ciclone de fogo provocado pelas bombas incendiárias e que a Câmara toda construída em pedra era a nossa salvação, mesmo reduzida a destroços. Ninguém sabia o que fazer, mas fomos remexendo o entulho para encontrar algumas aberturas para o exterior. Completamente esgotados, começámos a entrar em pânico; acabámos por ficar horas deitados por ali à espera de algo que não sabíamos o que poderia ser. O calor era imenso e sem o dizer acreditávamos que iríamos morrer asfixiados, mas o tempo passou e só os feridos morreram, além de alguns outros, mas aqueles que estavam indemnes acabaram por sair com vida.

     - E da minha família chegou a saber alguma coisa?

    - Não, infelizmente, só sabia o que se passava imediatamente à minha volta e, salvo um ou outro vizinho, as pessoas que estavam connosco na Câmara eram-me completamente desconhecidas e por aquilo que vimos não ficou nenhuma vontade de perguntar ou falar seja do que for.

     -  Então o que aconteceu a seguir?

    - Saímos quando estávamos com a boca seca e o ar não melhorava. Abrimos um caminho pelos escombros e chegámos enfim à rua. Não pode imaginar o que vimos. Ainda ardia quase tudo à nossa volta e o que vale é que a Câmara tinha à sua frente uma praça relativamente ampla. De um dos prédios saíram três pessoas a arder, atrás corriam alguns trabalhadores do serviço de protecção com recipientes de água, as pessoas gritavam e os trabalhadores pediam calma para as poderem salvar. Só passado algum tempo é que percebi que eram mulheres. A dada altura assustei-me de verdade porque as chamas percorriam as ruas estreitas como se tivessem vida, fossem uma espécie de serpente a rastejar pelas artérias da cidade. Ficámos paralisados, não sabíamos se deveríamos voltar ao abrigo sobre os escombros ou procurar outro local. A torrente de fogo trazia consigo pessoas a arder, saltavam como tochas a gritar e ninguém as podia acudir. Os homens da protecção corriam para todos os lados com cordas, mangueiras e baldes de areia mas também não podiam chegar junto das ruas mais estreitas, o calor era infernal, apesar de estarmos no inverno. Deixámos passar mais de uma hora até as chamas acalmarem bastante e tentámos então ir à nossa rua. É impressionante o barulho enérgico e ruidoso das chamas a consumirem estruturas dos telhados, soalhos e tetos, bem como mobília e gente. O fogo provocado pelo fósforo dos morcegos e das folhinhas é profundamente autoritário, não discute, não se apresenta aos soluços, é um todo contínuo aparentemente inesgotável. É a incarnação da autoridade violenta e criminosa por excelência ou a expressão de um deus odiento que detesta a espécie humana que teria criado. Acredito hoje, que a autoridade nasceu nas sociedades humanas com a descoberta do fogo e que a guerra é a prova da inexistência de Deus.

    O que vimos no trajecto quase não pode ser explicado por palavras. A morte por toda a parte numa incrível multiplicidade de formas, milhares de pessoas mortas nas ruas e muitas outras nos abrigos. Na rua, cada um tinha morrido à sua maneira, totalmente queimados, semi-queimados, asfixiados com a boca aberta, mães com filhos, raparigas jovens, homens velhos, uns queimados outros vitimados pelas explosões com os corpos despedaçados e sei lá como? Fiquei com a impressão que quase toda a população de Dresden morrera ali e no meio da tristeza senti-me forte, pela primeira vez forte, não tinha morrido, teria uma eternidade à minha frente, se não morrera ali não podia morrer mais. Sim, não é ficção, é o que senti e que levei anos a perceber e a encontrar palavras para exprimir. Senti a consciência pesada por ter tal sentimento em vez de pena e piedade por aquelas vítimas que eram parte da minha pessoa enquanto vizinhos e conterrâneos. Um psiquiatra disse-me uma vez que foi essa sensação que me salvou de uma terrível depressão que me poderia ter afectado a vida inteira.

    -  E da casa dos meus pais o que ficou?

   - Se bem me lembro, terá ficado o mesmo que da minha, ou seja, nada, um pouco de parede junto ao chão. Naquela rua ficou tudo despedaçado, algumas paredes do exterior e nada no miolo dos prédios, nem sequer havia barulhos oriundos das caves, as pessoas que lá ficaram morreram todas. Foi horrível, os seu familiares morreram num sofrimento atroz, porque toda a táctica do marechal britânico  Bomber Harris era matar a população sim, mas com o máximo dos sofrimentos.

     Em 1945 foi Dresden e mais de meio século depois é a Sérvia, o Kosovo e a Tchetchénia. São sempre os humildes os grandes ofendidos e vítimas do desentendimento político e militar. Depois daquele holocausto, fomos para os arredores, mas o meu pai, apesar de inapto para trabalhos violentos, ferido com dois estilhaços no coração que não puderam ser retirados, foi mobilizado para os trabalhos de combate aos incêndios e remoção de cadáveres. Contou mais tarde, que na maior parte dos abrigos toda a gente morrera, principalmente nas ruas mais pobres e estreitas onde moravam os trabalhadores mais velhos e as viúvas dos muitos maridos mortos nas frentes. O meu pai trabalhou semanas para enterrar tantos cadáveres, muitos dos quais foram queimados novamente em gigantescas pilhas antes de enterradas as cinzas. Tornou-se ele num pacifista convicto que passou, tal como eu, a odiar todo o tipo de guerra, militarismos e ditaduras. Não podia ver fotografias de generais e chefes de Estado fardados com os peitos cobertos de medalhas, orgulhosos do seu estúpido ofício de matar.

     - O meu cunhado Werner descreveu isto num interessante livrinho repleto de fotografias, vou dar-te um exemplar para recordares com tristeza aquilo que se passou com a tua família. Sei que ficaram todos no ciclone de fogo, asfixiados ou queimados sem direito a campa, foram para a vala comum ou para a pilha de incineração como grande parte da população desta cidade que ainda hoje não se recompôs de tamanha tragédia. Se acreditasse em Deus rezava pelas suas almas, mas não acredito que tenha ficado algo deles, a não ser a tua pessoa. E depois disto a que Deus deveria eu rezar?

 

Copywright: Dieter Dellinger

Autorizada a cópia para outros blogs ou qualquer impressão desde que respeitado o nome do autor, o qual agradece a informação sobre o facto.

publicado por DD às 17:08
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