Domingo, 15 de Junho de 2008

Um Tipo Peculiar

 

 

 

 

            Conheci o Dr. Correia no Jazz Café. Foi o Dr. José Viana, o professor de filosofia reformado, que mo apresentou, dizendo que o Correia tem três licenciaturas, ou seja, Engenharia Mecânica do IST, História da Faculdade de Letra e Direito da respectiva faculdade. Comecei logo por achar estranho, tantas e tão diversificadas licenciaturas numa só cabeça. O Viana ainda alertou para o perigo que representa contactar comigo, pois costumo escreve umas coisitas, mas sem grande ficção, sou pois um tipo que reproduz as histórias que me são contadas, apesar de me ter visto já a ler um Manual de Escrita Criativa.

            Enfim, não liguei ao que disse o meu amigo Viana que gosta de contar histórias, principalmente de Macau onde fez duas comissões de serviço como alferes miliciano, “bem agradáveis” no seu dizer, pois estava com a mulher, também professora de filosofia e que dava aulas na escola portuguesa. Por isso, nunca teve pressa em regressar à Metrópole. Poucos meses antes de terminar a comissão, o alferes de caçadores Mendes, um mulato de Angola, pediu-lhe para o substituir, pois tinha requerido a transferência para Angola, já que não tinha conseguido ter relações sexuais com nenhuma chinesa. Elas, mesmo as prostitutas, punham logo a mão no nariz antes de ele se aproximar e nada queria com o bem parecido mestiço. “Mas era assim”, dizia o Viana, as chinesas são racistas até dizer basta. “Só aceitam brancos ou chineses e, por isso, o Mendes preferiu o combate no mato àquela pasmaceira macaense”.

            O Viana já me tinha falado no Correia e até emprestado uns papéis fotocopiados de uma obra intitulada “Os Sábio do Sião”, dos quais só li a primeira página e que descreve aquilo que seria a conspiração mundial dos judeus para dominarem o Mundo. “

O Correia”, disse o Viana, “tem a ideia que os judeus comandam isto tudo e estão atrás de todas as manobras do imperialismo americano e não só; é uma fobia aos judeus, provavelmente sem conhecer algum, mas isso é só uma das suas manias”.

            Estivemos a falar os três de coisas sem importância; discutimos alguns assuntos políticos do momento, até aparecer a mulher do Viana que mandou vir um chá e umas torradas. O Correia disse que já era tarde e tinha de fazer umas compras no supermercado.

            Quando saiu, a mulher do Viana, diz-nos: “então estavam a falar com um misógamo e, talvez, também misógin, ou seja, que do horror ao casamento pode ter passado ao horror às relações com mulhres.

            “O Correia”, explicou-me o Viana, “nunca casou e tem já 51 anos, pois anda sempre atrás das mulheres e raparigas, mas tem a mania que o querem explorar e extorquir-lhe o seu dinheiro. Nunca foi mesmo capaz de se apaixonar por alguma, ou talvez não tenha sido correspondido por quem ele se apaixonara, mas enfim ele conta sempre as histórias mais descabidas sobre mulheres; acontecimentos fantásticos e quase inverosímeis, mas que na boca deles parecem coisas verdadeiras”.

            Sim, respondi-lhe, então qual a história mais fantástica do Correia sobre mulheres?

            “Antes de mais devo dizer que ele foi meu colega no Camões onde dava aulas, mas isso há uns dez anos atrás e agora venho a encontrá-lo porque passou a morar perto do meu prédio. Ele dava aulas de história e agora dá aulas no Instituto Superior; imagine lá? Economia política. Qualquer dia tira também um curso de economia para completar o ramalhete, mas o melhor é ser ele a contar, outro dia que o veja comece a falar na Maçonaria que ele lhe conta uma bela história. Pergunte se a Maçonaria tem algo a ver com os judeus e ele desbobina logo, mas, entretanto, vá apontando alguma boazona que passe para o levar a ligar mulheres com a Maçonaria”.

            Está bem, respondi-lhe, mas perguntei o que faz ele concretamente agora?

            “É advogado de dois sindicatos que nunca me disse quais são e tem uma avença da Sociedade dos Autores ou dos Escritores, nunca percebi bem. Ele também nunca me explicou qual a diferença entre autores e escritores. Parece que uns fazem música e outros escrevem; ele é muito secreto no que faz. É capaz de ter alguns bens de família e, por isso, chegou muito tarde ao mundo do trabalho depois de tirar tantos cursos”.

            A Drª Suzete, mulher do Viana, ainda me queria contar alguma coisa do Correia, mas eu já não tinha tempo, tive de sair.

            Passados uns dias voltei a encontrar o Viana e o Correia sentados à mesma mesa do Jazz Café. Lá fiz o sacrifício de ficar na esplanada, porque estava frio, mas o Viana fuma desalmadamente, pelo que não pode ficar lá dentro. Fechei bem o blusão até ao pescoço e lá aguentei.

            Começámos a falar de política e o Correia diz logo que isto está tudo tomado pela alta finança e atrás dela está o mundo judeu. Não mostrei admiração nem interesse por tanta asneira, mas perguntei: - Então e a Maçonaria faz parte desse Mundo, é sionista ou não?

            “Claro que é”, respondeu o Correia, “aquilo é um ninho de víboras e uma fábrica de poder, eles é que mandam no Bloco Central de interesses em Portugal e quem entra na Maçonaria tem o futuro assegurado”.

            Falámos mais umas baboseiras e o Correia entrou num tema predilecto dele que são as mulheres. Por um lado sente-se atraído e por outro rejeitado, pois as raparigas de vinte e tal anos não olham para ele.

            Por fim falou-me na Adriana, uma jovem estagiária de advocacia num advogado velho e com pouca clientela. “Sim”, diz o Correia, “a Drª Adriana queria subir na vida a qualquer preço. Quando estudava veio ter comigo para ver se eu tinha influência junto de alguns professores da Faculdade de Direito que foram meus colegas de curso. Na verdade, ainda mexi alguns cordelinhos para ela passar em duas cadeiras, claro, a troco de relações sexuais”.

            “Mas, a dada altura ela queria entrar na Maçonaria e conheceu dois advogados que lhe disseram que pertenciam à Maçonaria e com um terceiro convidaram-na a entrar, mas teria de passar uma prova secreta, da qual deveria manter o segredo absoluto. Um rito iniciático muito íntimo, dissera-lhe.”

            “Ela sujeitou-se, continuou o Correia. Levaram-na para o Hotel dos Restauradores e aí colocaram-lhe um capuz lilás e despiram-na toda. Depois, cada um dos três advogados teve relações com ela. Uma vez satisfeitos, retiraram-se apressadamente e foi então que ela se viu ludibriada e no dia seguinte foi ter comigo a dizer que fora violada por três membros da maçonaria”.

            “E sabes quem foram, perguntei-lhe. Sei sim, e eram grandes os membros. Mais ou menos respondeu ela.

            Bem, queres apresentar uma queixa ou ir ao Grão-Mestre queixar-te? Perguntei-lhe porque acreditava que em tribunal isso não daria nada

            Prefiro queixar-me ao Grão-Mestre. Pois sim, vais ter com o Arnaud em Coimbra ou telefonas-lhe”.

            Esse socialista já não é o Grão-Mestre, disse eu.

            “Pois não é, mas na altura nem sabíamos ao certo quem era o Grão-Mestre”.

            Ainda disse ao Correia  que conhecia o António Arnaud e que foi na garagem dele que decidimos fundar o PS, isto numa reunião dos militantes da Acção Socialista Portuguesa do Norte, Aveiro, Coimbra e Lisboa.

            “Ela telefonou ao Arnaud e ele respondeu-lhe logo que já não era o Grão-Mestre e nada podia fazer, pois está reformado até da advocacia”, continuou o Correia, “e ela resolveu contactar o António Reis e até foi ter com ele à Maçonaria, mas não foi recebida, pois disseram-lhe que não estava lá. Por fim, depois de muita insistência telefónica, conseguiu falar com o António Reis que lhe respondeu que isso era um assunto da Maçonaria das Mulheres, mas que não podia dar os contactos da Grã-Mestre sem a autorização dela e prometeu que ia falar com a senhora.

            Passados dias, a Adriana contactou novamente o António Reis ele disse que a Grã-Mestre não a podia atender, mas deu o telefone de uma substituta, para quem telefonou várias vezes e que invariavelmente lhe dizia que ia informar a Grã-Mestre.

            Passados mais de uma dezena de telefonemas, a dita substituta disse que a Grã-Mestre queria saber os nomes dos tais advogados, pois acreditava que não eram maçons, mas apenas uns aldrabões que lhe enfiaram o barrete, mas não o da maçonaria.

            A Adriana deu os nomes e passada uma semana a dita substituta disse-lhe que, efectivamente, não se tratavam de maçons. "Se o fossem não poderia confirmar, mas não sendo posso bem dizer que não constam dos ficheiros do GOL (Grande Oriente Lusitano)"; ainda disse que talvez fossem da outra loja maçónica, a de Cascais e asseverou que um comportamento desses não é próprio de maçons, mas sim de delinquentes comuns.

               Enfim, disse-me o Correia; acabei por convencê-la a não fazer nada porque em tribunal não daria nada, a não ser para chacota de toda a gente.

            O Correia costumava contar muitas histórias fantásticas, sempre relacionadas com mulheres e um dia contou qualquer coisa acerca de uma vizinha de todos. O assunto foi tão escabroso que não acreditámos e acabámos enfim por chegar à conclusão que o Correia sofre de um certo delírio, uma espécie de esquizofrenia em que se sente ameaçado por dois grupos humanos, os judeus e as mulheres e as histórias que conta são pura ficção que podem, entretanto, entrado na mente dele como verdadeiras.

            É isso mesmo – disse eu. A mente humana é assim, mente que se farta, até quando julga estar a tratar de realidades.

           

Texto de Dieter Dellinger

 

publicado por DD às 17:48
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Que tenho a ver com o dr. Sousa Martins?

 

                        Acordei pelas quatro da madrugada, fiquei deitado a tentar colher algum ruído que me indicasse que algo se passava à minha volta; não ouvi nada, a vizinha do lado foi-se deitar, sem dúvida, pensei para comigo. Já não se ouve a música que enche quase todo o imóvel de oito andares. Também não ouço o carro do lixo: já passou, com certeza. Ainda pensei, às vezes parece-me que durmo mal, mas afinal nunca ouço o carro do lixo. E bem ruidosa é aquela viatura com os seus braços automáticos para descarregar os contentores do lixo no seu bojo.

Depois pensei no que se tinha passado umas horas antes, não que me preocupasse o assunto em discussão na reunião dos condóminos. Tinha feito a minha obrigação e pronto, nada mais havia para pensar, apesar de ter tomado a posição da minha mulher que propôs algo com outras vizinhas que não foi do agrado de parte da vizinhança. De qualquer maneira, não é nada de importante para mim e quem não gostou que assumisse o encargo em vez de se refugiar no criticismo. Fomos a votos e perderam, eles, frente a elas. Mas não, o importante não foi aquilo, não vale a pena de pensar, nem ficar contente ou descontente.

            Não, o que me desagradou foi ver aqueles velhos todos a refilarem, uns mais reformados que outros, todos terrivelmente envelhecidos, papudos, decrépitos. Todos, quase como eu, não inteiramente mas quase e poucos anos devem faltar para isso, calculo. Sim, como eu, e isso sim é que chateia. Já tinha reparado que me vejo nas outras pessoas quase sempre ao espelho. Situo-me nos outros, invento uma história para cada um.

            O meu prédio está velho e assim estão muitos dos seus habitantes, por isso não querem renovar as fachadas nem pintar os interiores. Talvez tenham medo que o prédio venha a ter um aspecto mais jovem que eles, ou que fiquem em desvantagem, assim velhos num prédio com ar de novo. Talvez, talvez, mas que estupidez. De qualquer modo, o prédio é mais novo que a maioria de nós. Quando os reformados de hoje nasceram, aquilo ainda não era a cidade, não passava de hortas e jardins de algumas casas apalaçadas. O pessoal vinha da cidade velha refrescar-se nas zonas sombreadas depois de percorrer as velhas e sonolentas azinhagas que não perderam ainda o nome mas foram transformadas em ruas de trânsito buliçoso.

            Lembrei-me subitamente do meu vizinho Mesquita do andar de baixo. Teria sonhado ou ele contou-me mesmo que foi à consulta do doutor Sousa Martins, defunto desde o início do Século XX.

            Como assim? Tinha perguntado.

- Sabe – terá ele dito -, levei muito tempo a conseguir a consulta, aquilo tem uma fila de espera tremenda, o doutor está sempre disponível, mas o problema é o médium. Ali só havia um, por isso levei muito tempo a ser atendido, sim, esperei cinco semanas.

            Marcaram-me para as três horas. Ainda esperei uma hora e, pelas conversas que ouvi, havia ali gente que veio da província à consulta e lamentavam-se que o Serviço Nacional de Saúde não participe no preço das consultas. Um senhor disse-me que lá fora havia uma comparticipação para este tipo de consultas, aqui não, nem a ADSE dá algum. “Somo mesmo um país rasca”, disse um senhor todo engravatado.

            Recordo que me mostrei céptico, o que ofendeu o Mesquita. Muito sério disse que aquilo não era brincadeira nenhuma e que os resultados são muitos mesmo. Ele sofre de uma dor incerta no peito. O Doutor Sousa Martins receitou umas compressas de água quente e uma infusão de umas folhas que eles lá vendem, além de outros medicamentos.

- A Sala do consultório é muito simples, a uma mesa lisa está sentado o médium com um ar absorto, mal cumprimenta com o cabelo todo penteado com brilhantina. Faz-me sentar e pede para entrar em comunicação. Digo o que sinto, enquanto ele contempla o tecto como que a perguntar se o defunto o ouve.

Depois, passado um longo silêncio em que terá ouvido o conselho do doutor, diz-me o que devo fazer, fazendo de imediato sinal para a porta.

Era um rapaz novo o médium. Dizem que numa das últimas encarnações trabalhou com o doutor Sousa Martins.

Será que o doutor Sousa Martins pode tratar de casos de obesidade crónica como o da nossa vizinha do sexto? Perguntei ao Mesquita.

-         Porque não? Diga-lhe que marque uma consulta.

Na verdade, entre os diferentes tipos psico-sociais de indivíduos que habitam o prédio, a extrema obesidade da Francisca provocava uma profunda impressão nos meus circuitos emocionais, apesar de não ser um tipo demasiado emotivo e preocupado com a linha das pessoas, inclusive de mim mesmo. É que há exageros, e a senhora vive como que profundamente dominada por um único evento, o acto de comer, o que não cessa de se agravar, tanto mais que foi reformada do ensino.

Não há meio de amanhecer para me levantar, não consigo dormir a esta hora adiantada da madrugada, reparo que estou destapado e tenho frio nos pés. Volto-me e desligo os pensamentos. Fico novamente a sonhar acordado.

Recordo depois o sonho da morte. Penso; um tipo está vivo, um gajo magro e curvado para a frente, sabe línguas, leu muitos livros, andou anos na escola e na universidade, trabalhou durante mais de quatro décadas e, de repente, apagaram-se os neurónios, desapareceu tudo, fica massa cinzenta de lixo para ser comida por milhões de bactérias da putrefacção. Horas antes, o desconhecimento da hora da morte dava-lhe a ideia de uma certa eternidade. Depois pronto, acabou.

A vida limitou-se a um instante na história do desconhecido.

Parece que adormeci de novo a pensar em coisas tristes; horas depois regresso aos pensamentos anteriores, mas é tarde, levanto-me que o dia é de trabalho. Vou para a cozinha comer qualquer coisa e vem à minha mente os 130 quilos da vizinha do lado.

Não, não quero ser assim, nem posso ser, claro, estou muito longe disso, mas o melhor é tomar o café sem açúcar e comer uma torrada com rodelas de maçã e deve chegar até ao almoço, a meia dose mais a sobremesa.

O dia é para ser igual aos outros, não muito longe da estátua do Sousa Martins.

Ao passar por lá penso no Mesquita. Então o gajo culto e não sei o quê mais acredita no defunto?

Sim! E não é só ele, aquilo dá origem a um negócio de velas e de placas de agradecimento por curas milagrosas. O gajo, o Sousa Martins, deve ser um santo laico. Existe isso? Claro, no espírito ou mente das pessoas existe tudo, até um santo que se suicidou. As pessoas acreditam em tudo como os leitores do Código da Vinci de Dan Brown que vão Paris e Londres encontrar os lugares descritos pelo autor. Por sinal, todos trocados, mas não faz mal.

Porra, digo para mim, será que os putos acreditam que o Harry Potter existe?

Bem, que eu me lembre, nunca coloquei a mim mesmo a questão de saber se o Sandokan e o Gastão dos livros do Emílio Salgari existiam ou não, quando os lia com doze a treza anos. Foram os meus heróis e o que interessava verdadeiramente era aquela Ásia insular capaz de receber todos os aventureiros europeus.

Mas, afinal, o que tenho a ver com o dr. Sousa Martins? Nada, absolutamente nada, o defunto é já só esqueleto.

 

Texto de Dieter Dellinger

            

 

publicado por DD às 09:17
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