Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

O Conto como Género Literário

 

As editoras, sejam portuguesas ou não, raramente gostam do Conto, da "Short Story" como dizem os americanos ou do "Cuento" ou "Novela de Curto Plazo" no dizer dos sul-americanos. Por isso, não publicam esse "género menor", salvo nos casos em que o autor paga a edição ou quando uma "alta autoridade da televisão" lança o nome do autor, mesmo que seja em actividade completamente desgarrada da literatura.

No meu caso, tanto o conto como a novela curta fascinam-me e publico-as num blog com a consciência de nem serem lidas. Podem ser curtas e lidas em cinco a dez minutos, mas isso hoje acaba por ser uma eternidade. Quem tem paciência para mais de dez linhas ou mais de 30 segundos na Televisão? As televisões habituaram-nos a concentrar a atenção sobre algo durante segundos e, em casos mesmo excepcionais, minutos. Contudo, há países onde escritores se notabilizaram no conto, e são essencialmente sul-americanos de fala hispânica. Garcia Marques, Cortazar, Borges, Juan Rulfo, Mario Benedetti e tanto outros notabilizaram-se no conto, apesar de alguns terem também sido grandes romancistas.

No conto, o autor não tem a pretensão nem a arrogância de criar um mundo como sucede no romance, mas tão só contar uma peripécia em que, eventualmente entre mais que um personagem com capacidade para dialogarem entre si. Mas, a peripécia traduz sempre um momento da vida das pessoas e do ambiente que as rodeia, daí poder buscar um Século inteiro para contar algo de maior ou menor significado em dados momentos históricos. Mesmo um Século chato porque passou e deixou pouco para além do computador e de umas mecânicas. O Século XX foi o da morte das ideias. A inteligência humana parece que se passou lentamente para as maquinas. Sem elas já não somos nada, nem escrever sabemos sem o portátil.

 O conto sul-americano teve, sem dúvida, um grande desenvolvimento e não foi por acaso que o um prémio Nobel foi concedido a um contista puro. Refiro-me a Jorge Luís Borges, o autor que me fez um apaixonado por esse género literário, seguindo-se depois Raymond Carver, o inolvidável escritor das "short stories" e da escrita criativa. Carver foi um Tchekov americano, sendo que Tchekov foi o maior contista russo, e talvez do Mundo, de todos os tempos. A simplicidade de Carver e a forma como transmite nos seus escritos o tédio materialista de uma grande parte da sociedade americana que tem tudo, mas não tem nada ao mesmo tempo, finge ser feliz e é profundamente infeliz. Come hamburgers a julgar que participa na sociedade democrática e, sem saber, é totalmente dominada por esse "Big Brother" chamado televisão.

 Raymond Carver, como nenhum outro, é um fotógrafo por palavras e mostra as traseiras, a roupa estendida, as fraldas descartáveis e a monotonia que se apoderou de uma sociedade já globalizada a nível mundial neste aspecto. Carver é genial a descrever as vidas paradas e essas são praticamente todas. A peripécia em Carver é a chatice, ninguém pode ser político nos EUA, a não ser que seja milionário ou filho de presidente. Cada um tem a sua vidinha e nada mais. Mesmo assim, ainda não foi Raymond Carver quem teve a coragem de chegar ao âmago da realidade. À monotonia verdadeira, ao desencanto total da vida velha, ao apagar triste de cada ser humano na lenta degradação neuronal ou ambiental. Os humanos são trapos a morrer e vivem como trapos mais ou menos animados.

A literatura, tanto no conto como na novela, é uma fuga à realidade. A peripécia pode ter sido um acontecimento, mas é sempre fortuito, não é a realidade no seu todo. Essa, ninguém tem coragem para a descrever. Claro, eu muito menos. Mas qualquer dia alguém terá de o fazer. Não podemos ser apenas um Mundo de sete mil milhões de fingidores.

Arundati Roy em "Um Deus das Pequenas Coisas" aproximou-se bastante, tal como Robert Musil em "O Homem sem Qualidades" andou por perto da realidade, mas também não atravessou a última fronteira. A realidade é a consciência que todos temos e fingimos não saber da sua existência de que a vida não é ideal e nada de espantoso vai acontecer no tempo de cada um. Mesmo os acontecimentos cheios de grande intensidade como as revoluções ou guerras tornam-se incrivelmente monótonos e gastos logo ao terceiro dia. A tragédia da morte diária é o mais inconcebível dos acontecimentos e muito pior que o mesmo café tomado todas as manhãs ao longo de muitas décadas de vida. Enfim, resta-nos contemplar o azul do céu e as ondas do mar. O sol e a água podem encher-nos sempre de alegria. Fomos feitos disso, é a nossa matéria-prima essencial.

 

publicado por DD às 00:27
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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

As Memórias de Kant

 

 

                    

           Queres ler as memórias de Kant, um grande “compañero” anarquista da Brigada Thaelman – perguntou-me Josep Herrera, ainda no meio dos girassóis da Andaluzia Ocidental, depois de contar a sua movimentada história de anarquista na Guerra Civil, da qual se salvou por ter vestido uma camisa da Falange, passando no final da guerra por um vitorioso “falangista”.

            Como? Perguntei admirado, então o filósofo alemão do Século XVIII, o autor da “Paz Perpétua” ressuscitou e andou contigo aos tiros?

            -Sim, sim, era um filósofo, também o chamávamos assim por causa dos seus óculos redondos sem aros e do ar distraído. Kant era a sua alcunha e Kurt o nome de guerra oficial.

            - Mas onde o conheceste?

            - Foi num domingo, precisamente a 20 de Julho de 1936; um dia que não me esqueço, mesmo que viva mais de cem anos. Ele apareceu junto ao nosso grupo quando tentávamos desalojar os artilheiros revoltados do coronel López Amor, postado na Praça da Catalunha, no centro de Barcelona. Com um caderninho não mão, Kant balbuciou num mau espanhol o seu desejo de integrar a milícia “roja y negra” dos anarquistas da FAI/CNT. Não tínhamos armas suficientes, mas Kant ou Kurt ficou connosco até lhe passarmos uma velha “Tercerola Mauser” de um dos companheiros caído em combate. Assustado, parecia não saber manejar a arma; num vão de escada ainda lhe demos algumas explicações. Depois, deixou-se contagiar pela valentia das massas proletárias ligadas ao anarco-sindicalismo e portou-se tão bem como cada um de nós.

            Ainda passou algum tempo com as nossas milícias na frente do Aragão; posteriormente foi integrado na centúria Thaelman, organizada em Barcelona com os primeiros voluntários alemães, ingleses e nórdicos. Não sei o que lhe aconteceu no fim da guerra civil; deixou-me um caderno de apontamentos escrito em alemão que nunca cheguei a perceber, mas que empresto para fotocopiares e, eventualmente, traduzires, nem que seja para português.

            Fui assim à casa de Herrera, ali perto do campo experimental dos girassóis híbridos. Uma pequena casa branca encimada por uma platibanda que não deixava reconhecer a natureza do remate: terraço ou telhado; uma casa típica de jornaleiro agrícola andaluz, apenas um pouco melhor que as que se construíam nos caminhos do gado, as “cañadas”, para evitar a expulsão por parte dos grandes latifundiários da região. Casa térrea, caiada e protegida com os típicos mosquiteiros nas portas e janelas, envolvida por aquela quente atmosfera bucólica do Sul da Península. No meio de gatos e outros animais porcelânicos, Herrera encontrou os cadernos Kurt ou Kant.

            - Ele deve falar de mim, estes papéis são os únicos que comprovam a minha presença nas milícias anarquistas, primeiro, e na 26ª Divisão do Exército Republicano, depois. Toda a minha documentação oficial foi destruída e desapareceu na cadeia de Montjuich. Por isso, guardei durante todos estes anos os papéis do Kurt.

            Herrera contou-me que esteve com Kurt na frente de Aragão, mais propriamente na tentativa da tomada de Saragoça. Tal como Herrera, o alemão integrou uma das primeiras “colunas infernales” que, pelas 10 da manhã de 24 de Agosto de 1936, se concentraram no Passeo de Garcia em Barcelona.

            - Com a sua “tercerola”, o já apelidado de Kant estava lá. Ele mostrava um falso ar marcial num “mono” azul; até arranjou um pequeno bivaque militar que lhe conferia o aspecto quase ridículo de um pacifista armado. Sim, ele mais um pacifista que um belicoso guerreiro ou soldado, mas sempre disposto a sacrificar-se por uma causa que considerava justa.

            Sob o comando de Durruti e Perez Farras, partimos em direcção a Saragoça nos camiões que o “Comité de Milícias” organizou quase por milagre; sempre julgámos ter de ir a pé, tal era a falta de meios ao nosso dispor. Fomos até Tardienta, onde, pela primeira vez, enfrentámos o fogo inimigo em campo aberto, sem para tal estarmos minimamente preparados. Mesmo assim aguentámos bem as balas do exército franquista.

            Poucos dias depois, surgiu ali a Centúria Thaelman, a primeira unidade internacionalista formada com anti-fascistas alemães e comandada por Hans Beimler, ex-deputado ao “Reichstag”.

            - Claro que o camarada Kurt, como bom anarquista que era, não se integrou imediatamente naquela unidade dos seus conterrâneos comunistas, - acrescentei ainda.

            - Nessa altura, – disse ainda Herrera – o Kurt já falava um espanhol que se entendia, não muito bem, mas quase, ou antes, um misto do castelhano e do catalão que lhe tínhamos ensinado. Era o que mais faltava à unidade alemã, eles não falavam uma palavra das nossas línguas. Kurt foi um achado precioso e logo o convidaram a ir para lá. Muito a contragosto, o rapaz despediu-se de nós, pois, efectivamente, não nutria uma grande simpatia pelos comunistas alemães, já que os seus ideais se orientavam mais para o anti-autoritarismo.

            - E voltaste a ver o Kurt, depois de ele se integrar na unidade que veio a tornar-se na XI Brigada Internacional?

            - Tempos passados, encontrei Kurt em Barcelona. Contou-me então que tinha ficado fascinado pela personalidade irradiante de Hans Beimler, o ex-espartaquista da Baviera e seguidor da linha comunista de Rosa Luxemburg e Karl Liebknecht que se entrou depois no Partido Comunista Alemão, seguidor da linha mais ortodoxa do marxismo-leninismo. Mas, naqueles tempos, nada disso interessava para nós, o importante era evitar a vitória do fascismo em Espanha. O melhor é leres o seu diário, até porque pouco mais sei de Kurt. E foi então que me deu a guardar os seus cadernos e mais uns livros que tinha deixado numa pensão e que preferia que estivessem em mãos amigas como me disse. Acrescente-se que eu tinha casa em Vich, perto de Barcelona, pois tinha emigrado há muito da minha Andaluzia natal e estava casado.

                            

Aprender Espanhol com os Poetas Andaluzes

 

            Levei as fotocópias dos diários de Kurt e cuidadosamente comecei a ler a sua difícil letra manuscrita a mostrar as condições adversas em que teria sido escrita.

            Kurt escreve pouco sobre a sua pessoa, não divulgando em parte alguma o seu verdadeiro nome, dado que o Kurt não deveria ser mais que um nome de guerra, pois toda a gente então disfarçava a sua verdadeira identidade. Fica assim como um soldado desconhecido da guerra civil espanhola, eventualmente caído e sepultado num qualquer recanto queimado ou destruído pela fúria de homens à conquista do Poder, quem sabe?

            Num dos primeiros papéis, Kurt revela os seus ideais anarquistas, escrevendo que aderiu muito novo, aos quinze anos de idade, a uma organização juvenil da “Freier Arbeiter Union”

(União dos Trabalhadores Livres), inspirada nas tendências anarquistas de Landau, Stirner e John Henry Mckay, mas muito próxima da ala esquerda do SPD dos anos vinte e trinta até à instalação da ditadura hitleriana na Alemanha.

            O anarquismo de Landau era fundamentalmente pacifista e romântico. Com a subida de Hitler ao poder absoluto, a FAU foi logo dissolvida e os seus activistas principais metidos nos primeiros campos de concentração. Kurt ainda foi obrigado a participar numa brigada juvenil de trabalho, devendo posteriormente passar pelo exército nazi. Preferiu fugir para França, escrevendo que trabalhou em quintas como trabalhador auxiliar. O seu maior desejo foi sempre a aprendizagem de línguas estrangeiras, pelo que estudava sempre a gramática da língua do respectivo país e com dicionários e pessoas que contactava procurava aprender o máximo da língua respectiva. Kurt escreveu que o conhecimento de várias línguas estrangeiras podia permitir encontrar bons empregos na Alemanha ou noutro país qualquer, principalmente no âmbito dos negócios internacionais. Kurt quis entrar como aprendiz num escritório de comércio com o estrangeiro, mas a sua saída precipitada para França levou-o a não conseguir o seu objectivo, até porque quando se candidatava perguntavam-lhe logo que línguas estrangeiras falava e escrevia. Na verdade Kurt aprendeu na escola apenas um pouco de inglês e de francês.

            A França, contudo, não o atraiu muito, como nos revela nas opiniões algo malévolas sobre o nacionalismo cultural e político dos franceses. Por isso, pouco depois da vitória eleitoral da Frente Popular espanhola, em 1936, decide ir para Espanha. O seu grande objectivo passou a ser a aprendizagem do castelhano para, eventualmente, emigrar para a América Latina.

            Kurt escreve que desenvolveu uma técnica de aprendizagem de línguas na base do estudo e decoração de poemas, além da leitura de novelas ou pequenos romances com muitos diálogos. Ele escreveu que a rima facilita a memorização, principalmente, quando acompanhada do respectivo significado. Daí que muitos dos seus papéis estejam repletos de poemas espanhóis com particular incidência nas rimas do grande poeta andaluz Gustavo Adolfo Becquer, sem esquecer outros sevilhanos ilustres como os dois irmãos poetas António e Manuel Machado.

            Não posso pois deixar de reproduzir uma das estrofes de Becquer que Kurt tão gostosamente copia para os seus diários sem lhes acrescentar qualquer tradução:

 

           Asomada a sus ojos una lágrima

           y a mi labio una frase de perdón:

          habló el orgullo y se enjugó su llanto

          y la frase en mis labios expiró.

         Yo voy por un camino, ella por otro,

         Pero al pensar en nuestro mutuo amor,

         Yo digo aún: Porque callé aquel día ?

         Y ella dirá; porque no lloré yo?

           

Kart traduz a trigésima rima de Becquer, acrescentando que desejaria traduzir todos os seus poemas para alemão e escrever uma biografia do infeliz poeta andaluz do século dezanove, falecido ainda em plena juventude. Para ele, não obstante a ascendência germano-flamenga de Becquer, trata-se de um poeta que soube revelar como ninguém o arrebatamento romântico da alma andaluza que tanto fascinou Kurt. Até porque o anarquismo ibérico foi acima de tudo andaluz.

Para além da sua admiração por Becquer, Kurt apaixonou-se pela poesia de Manuel Machado, tendo transcrito para algumas páginas dos seus diários uma parte do “El mal poema”:

 

Yo poeta decadente

español del siglo veinte

que los toros he elogiado

y cantado

Las golfas y el aguardiente

y la noche de Madrid,

y los rincones más oscuros

de estos bisnietos del Cid.

 

Kart descreve as ruas hispânicas ao fim da tarde, sobre as quais jorra um mar de gente em permanente romaria, inundando bares, tabernas e esplanadas: - A alegria transbordante dos povos ibéricos eram em si mesmo uma série encadeada de poemas, - escreveu num dos seus cadernos diários.

O seu périplo hispânico foi curto, já que do porto francês de Le Havre seguiu para Cádis de barco, passando para Sevilha, onde permaneceu alguns semanas. Pretendia escutar a alma andaluza nos seus cantares e poemas e escrever sobre o seu espírito anarquista. Kurt escreve num dos seus diários que lhe interessava conhecer as organizações secretas anarquistas da Península, nomeadamente a FAI, cujo carácter secreto poderia ser uma primeira pedra para a construção de uma maçonaria anarquista universal capaz de minar de uma forma decisiva os autoritarismos ditatoriais de direita e esquerda.

Mais de duas horas levou o comboio a percorrer a planície andaluza no trajecto que vai de Cádis a Sevilha. Kurt contemplou admirado a paisagem que começou com a geometria perfeita das pirâmides de sal logo à saída de Cádis.

Ao chegar a Sevilha, à cidade-jardim como a denominou e de se instalar numa pensão barata que lhe tinham indicado no comboio, Kurt transcreveu para o seu diário mais uma estrofe de Becquer que tinha decorado:

 

Hojas de los azahares

Van alfombrando el jardín;

Quieren que las pises tú

Y se desprenden por ti.

 

Nas suas notas sobre a poesia de Bécquer, Kurt insurge-se contra o pseudo-utilitarismo revolucionário que conheceu na Alemanha e França entre muitos homens de esquerda, afirmando que a qualidade, seja na arte ou em qualquer outra actividade, nunca é contra-revolucionária.

“Inimigos do progresso,” escreve Kurt, “são aqueles que recusam as melhores obras do espírito humano, substituindo-as, por vezes, por uma vulgar propaganda desprovida da mais elementar qualidade, pois nada há mais contra-revolucionário que a ignorância e a incompetência anti-cultural”.

Em Sevilha, o jovem alemão queria investigar algo sobre a história do movimento anarquista andaluz, nomeadamente a partir do Congresso dos Trabalhadores da Região Espanhola que teve lugar em Sevilha no ano de 1882, do qual saiu o primeiro grupo anarco-terrorista, “Los Desherdados”, de carácter tão secreto que levou a guarda civil a inventar um nome para a organização secreta, “La Mano Negra”, para catalogar as acções dos “Los Desherdados”, chegando a apontar crimes que nunca tinham cometido. Foram agentes provocadores de organizações da burguesia espanhola que cometeram a maior parte dos crimes atribuídos aos homens de “La Mano Negra”, organização que, afinal, nunca existiu.

Mas, as dificuldades foram muitas para Kurt que pensava encontrar trabalho para se manter durante o período das suas investigações; os empregos eram escassos e os salários de autêntica miséria. Num bar, Kurt conheceu Ramón, sobrinho do proprietário de uma fábrica de rolhas de cortiça situada entre a “Puerta de Córdoba” e a “Puerta de Macarena”, a nordeste de Sevilha. A troco de algumas pesetas diárias foi trabalhar na escolha de rolas.

“Sentados em cadeiras de vime, junto a umas mesas baixas, escolhíamos as rolhas, enchendo uns grandes recipientes de vime conforme as respectivas qualidades”.

“De um lado trabalhavam os homens, essencialmente velhos e adolescentes; do outro, separado por um forte reposteiro de serapilheira, trabalhavam as mulheres, quase todas lindas operárias sevilhanas. Ouvíamos os seus risos e dichotes, mas estávamos proibidos de entrar em comunicação com elas. Nem depois do trabalho, pois eram sempre esperadas à porta da fábrica pelas gordíssimas matronas, suas mães ou tias.”

“Mesmo assim,” continua Kurt, “quando a atenção do contramestre era menor, choviam os dichotes através do reposteiro, frequentemente dirigido a uma ou outra pois sabíamos bem os seus nomes, principalmente das mais bonitas, outras vezes em no geral:

“Mujer hermosa, loca y presuntosa”, diziam os homens de um lado, “me descalzo de riso”, respondiam do outro lado. “Moza galana, calabaza vana”, continuávamos; “cuidado que está el toro en el tendido”, respondían ellas, acrescentando: “qué botarate? quê tio más fresco? Dale ajo, ajo. Pides peras al olmo”, respondia um dos colegas mais engraçado, enquanto o outro cantava:

“Yo quisiera ser el Aire

para mezclarme en tu aliento

y hacer mi nido en tus labios,

y dormir con mis besos”.

 

A cantar em coro, as moças respondiam:

 

“Al garrotín al garrotán,

A la vera, vera, verita van.

Me ha dicho que no me quieres.

Me importa tres caracoles,

Más arriba, más abajo,

Me están queriendo a montones,

Al garrotín, al garrotán,

A la vera, vera, verita van.

 

Olé, olé, olé! Graciosa, oléee! Viva tu madre! Terminávamos em uníssono.”

 

Escrupulosamente, Kurt reproduz nos seus cadernos as chufas mais jocosas da Sevilha daqueles anos, não tão distantes dos actuais, mas muito diferentes quanto ao modo de vida das sociedades, acentuando que o proletariado andaluz, mesmo quando sujeito à mais miserável exploração, nunca perde a alegria e a sua prodigiosa imaginação poética.

As escassas pesetas diárias não davam para o sustento de Kurt, mesmo morando num pequeníssimo quarto numa casa proletária do bairro La Macarena. Daí não ter permanecido muito tempo em Sevilha, tanto mais que o acesso a arquivos antigos era difícil. As diversas fases de repressão do anarquismo andaluz conduzira à destruição de muito do seu historial.

“Em 1936”, escreveu Kurt, “a CNT de Sevilha era muito reduzida pois preponderava aí a UGT. Era nas pequenas aldeias perdidas dos campos andaluzes que dominava a federação anarco-sindicalista CNT. Desprovida de funcionários ou verbas de apoio a grevistas, as suas acções eram combatidas por excelência; na memória de todos, permaneciam as cenas dos duros combates travados anos antes contra os sicários dos latifundiários e a guarda civil nos tempos da ditadura do general Primo de Rivera. O trágico episódio de “Casas Viejas” estava ainda muito vivo na memória colectiva dos anarquistas andaluzes. Mas, em 1936, depois da vitória da Frente Popular, os anarquistas estavam altamente empenhados em ocupar as terras dos grandes proprietários de terras.

Por falta de meios, Kurt não conseguiu acompanhar o processo, partindo para Barcelona, onde esperava encontrar trabalho mais remunerado que permitisse a sobrevivência e regressar depois à Andaluzia para continuar os seus estudos sobre o anarquismo rural.

 

As Primeiras Batalhas

 

Utilizando o comboio e vários autocarros de carreira, Kurt viajou para Barcelona e descreveu muito do que viu e as conversas que teve em numerosas páginas dos seus diários, cuja transcrição só teria cabimento num volumoso livro, não num texto assaz longo para um blog.

Em Barcelona, arranjou emprego numa empresa de comércio internacional como correspondente, mas a sua permanência aí foi curta. Passadas poucas semanas, Kurt lutava voluntariamente nas milícias “roja y negra”

No seu diário escreveu: “A confusão foi total naquele domingo, fui levado pelo contágio, ao ver aquele proletariado fazer frente às armas pesadas do exército em rebelião contra o poder democrático. Ainda cheguei a pegar numa arma e dar os últimos tiros da vitória anarquista de Barcelona.

Não fui valente nem cobarde. Tive medo, mas os camaradas ajudaram-me muito. Conheci pela primeira vez aquele espírito solidário e amigo do proletariado espanhol. Não estava só, éramos irmãos na luta, no sofrimento e depois na vitória.

Como miliciano, passei a receber as 10 pesetas diárias e fui aboletado no quartel Karl Marx, junto ao jardim zoológico da capital catalã onde recebi uma sumária instrução militar e parti para Tardienta.

Aí, acabei por ser incorporado na primeira unidade, centúria, daquilo que foi depois o Batalhão Thaelman, composto por anti-fascistas alemães e de outras nacionalidades norte-europeias. O comandante era Hans Beimler, um notável militante comunista que esteve preso no campo de Dachau, de onde conseguiu fugir, depois de estrangular um guarda SS e vestir o seu uniforme.

Ainda no tempo da República de Weimar, Beimler foi condenado a dois anos de prisão por ter feito parte do governo revolucionário soviético da Baviera em 1919. Durante a I. Guerra Mundial, fez parte da Marinha Imperial Alemã e participou activamente no levantamento revolucionário dos marinheiros contra a guerra e o poder do Kaiser.

“Hans Beimler fez-me ver a necessidade da união de todas as forças anti-fascistas para evitar o avanço do fascismo em Espanha e para levar ao derrube do nazismo na Alemanha.

Assim, das milícias revolucionárias anarquistas, eu, que sou um pacifista anarquista, passei a incorporar uma unidade mais disciplinada, mas não desprovida de ardor militante. Troquei o fato-macaco azul por uma nova farda, bem pouco militar, por sinal. Deram-me umas imensas calças de  bombazina preta que tive de cortar e uns plainitos minúsculos, além de duas camisas quase  militares; depois com a reorganização da unidade e formação das divisões internacionais é que vieram fardas a sério.

O nosso armamento era confuso ainda; continuei a usar a velha “tercerola” sem baioneta. Era a “Mauser” mais curta e, por isso, a mais leve e manejável, se bem que de menor alcance. De resto, com a minha miopia não interessavam os grandes alcances.

Entrámos pela primeira vez em acção junto ao canal de Tardienta com o nosso blindado à frente, um camião protegido por umas chapas de aço que Franz Raab comandava a preceito. O condutor não via nada; do lado de fora ia sempre alguém a dizer por onde deveria guiar aquela barulhenta máquina. O nome da jovem Lina Ordena estava pintado no flanco do nosso “blindado”, em homenagem à dirigente das Juventudes tombada frente a Huesca.

A missão era dinamitar o canal daquela cidade para inundar as linhas fascistas. Durante dias travámos uma furiosa batalha; sempre que nos aproximávamos do canal, os fascistas disparavam a torto e a direito, pelo que nunca chegámos a abrir uma brecha suficientemente ampla nos respectivos diques. O que conseguíamos era molharmo-nos constantemente, até porque os fascistas fecharam as comportas do canal e a nossa frente ficou extremamente cheio de água. Depois lutámos para conquistar uma pequena porção de terreno com algumas casas, denominado “La Ermitã”. A luta foi violenta, muitos dos nossos camaradas caíram ali mesmo.

Beimler era um militante notável e valente, mas conhecia pouco as tácticas militares; juntava-nos sempre em grupos cerrados, o que provocava muitas baixas, pois quando os fascistas disparavam mesmo a mais de quinhentos metros acertavam sempre em alguém, até que o escritor pacifista alemão Ludwig Renn lhe deu umas indicações sobre a dispersão dos homens na linha de fogo e sobre a manutenção de uma linha de reserva um pouco mais atrás. As nossas operações passaram a ter mais êxito e já no fim de Outubro regressámos a Barcelona, esgotados e a carregar numerosos feridos e deixando numerosas campas com os corpos dos nossos camaradas.

 Eu sobrevivi àqueles dois meses de combate,” continuou Kurt, de alcunha o Kant, a escrever nos diários que li com uma imensa curiosidade.

“Em Barcelona”, escreve Kurt, "assisti à entrega da bandeira de honra da unidade pelos membros do governo catalão, a Generalitat. Receberam-na os três irmãos Nielsen, os valorosos dinamarqueses que tanto se distinguiram nas primeiras lutas”.

 

 

 

 

“No Passarán” em Madrid e Morte de Beimler

 

“Tivemos um período de descanso e recomposição, partindo depois para Madrid. Já não éramos uma simples centúria, mas uma brigada com vários batalhões, entre os quais o batalhão Edgar André, nome de um comunista germânico mandado fuzilar por Hitler, e o batalhão Thalman, ao qual eu continuava a pertencer no 2º Zug (Companhia). Passámos a ser a XII Brigada Internacional, comandada pelo general húngaro Lukacz. A 7 de Novembro de 1936 entrámos em acção na defea de Madrid, em plena batalha pela “Casa del Campo”. O nosso grito de guerra era “no passarán”. Além das metralhadoras e da canhonada fascista acompanhada pela tanquetas italianas que arrumávamos com granadas de mão lançadas por cima, enfrentámos a aviação nazi que reduziu grande número de quarteirões de Madrid a cinzas, mas que não frente de batalha pouco incomodava, já que não acertava em nada que estivesse camuflado e tinham medo das nossas poucas metralhadoras anti-aéreas.

A “Casa del Campo” que era um grande jardim no limite da cidade, onde os madrilenos iam fazer picnics aos domingos. Depois de derrotarmos o avanço dos fascistas e de termos deixados muitos deles no terreno, fomos em socorro da Cidade Universitária, na qual travámos combates sem fim. A minha companhia entrincheirou-se numa das faculdades. Chegámos a expulsar com granadas de mão a tropa fascista que entrara pela porta principal da faculdade. Depois fomos cavar uma linha defensiva de trincheiras que fomos guarnecendo ao mesmo tempo que trocávamos um intenso tiroteio com o inimigo.

No dia 1 de Dezembro, Beimler que comandava ainda a minha companhia, apesar de estar destinado ao comando de um batalhão, ouviu os gritos de um ferido na terra de ninguém, gritava em alemão. Hans Beimler saltou imediatamente da trincheira para ir socorrer o camarada e foi acompanhado por Ludwig Fischer e Richard; eu ainda o quis acompanhar, mas ele ordenou que ficasse na trincheira e o procurasse cobrir com o meu fogo e dos restantes camaradas, enquanto procurava trazer o ferido para a nossa linha. Quando Beimler já tinha colocado o ferido na maca e tinha-se levantado, o inimigo abriu fogo e acertou em cheio no valoroso militante. Hans Beimler tombava com a mão no coração, dizendo; vão para a frente.

Foi um choque terrível para todos nós. Acompanhei-o no enterro e vi homens endurecidos por dezenas de combates a chorarem compulsivamente quando o caixão desceu à terra, ao mesmo tempo que o poeta espanhol Emílio Prados declamava:

 

“Nasciste lejos, Hermano,

pêro la muerte, en España,

te hizo nacer en su tierra

para ganarte a su patria ….”

 

Antes de ir para o cemitério, o caixão esteve exposto no cinema Royalty. Na homenagem que então lhe prestámos, o general Miaja fez um discurso emotivo, terminando com a frase, “os vossos mortos são também os nossos mortos”.

“Na verdade,” escreveu ainda Kurt, “desde que em Agosto integrei a centúria Thaelman, mais de metade dos voluntários de então caíram em combate. Estávamos a pagar um preço excessivamente elevado pelos nossos ideais, mas continuávamos.”

 

Termina aqui um dos cadernos de Kurt, o Kant. Obviamente que aproveitou o funeral de Hans Beimler para verter para o papel as emoções que acabava de viver. A exiguidade do espaço da revista “Seara Nova” não permite ir mais além, obrigando-me a deixar para outros números a continuação das memórias do anónimo Kurt, o Kant de alcunha.

 

 

Publicado por DieterDellinger na Revista Seara Nova.   

 

 

                               

publicado por DD às 19:40
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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007

O "Voluntário"

 

     Carlos Santos, o moço do Ferreira, foi mais uma vez levar uma compra à senhora do quarto direito do número 8. Já lá tinha ido duas vezes nesse dia. Não é que ficasse cansado, mas chateado, aquilo não era vida para ele.

     Ao chegar à porta do 8 tocou, mas como de costume ninguém apareceu, só depois de muita insistência é que a velha chegou à janela para ver quem era. Carlos não tinha pressa, estava de serviço. A dada altura, olhou para trás e viu um senhor de fato negro e chapéu igualmente negro, bem posto, mas algo estranho que lhe perguntou:

      - Para onde vais com a saca de lenha? - Como? O Senhor está a falar comigo? - Sim, estou pá. - Vou ali à cliente do quarto andar entregar a lenha. Parece que a gaja está com frio, ou então precisa de lenha para o fogão da cozinha.

      - Físico tens, mas respeito pouco. Quanto é que o patrão te paga? - Sei lá, senhor. No fim do mês dá qualquer coisa, raramente mais do que uns dois mil reis.

      - Isso é mesmo pouco, porra. Devias arranjar outro patrão que dê mais dinheiro, sim "Plata", em Espanha. Não queres ir trabalhar para Espanha?

     - Porquê em Espanha, não está lá tudo em guerra civil? E não se fuzila por dá cá aquela palha?

     - Não, pázinho! Não é ir para a guerra, é para trabalhar num hotel com boa paga e uma bela farda de graça. Pá! Os gajos estão em guerra, falta lá pessoal para os hotéis. Por isso, a malta do Hotel Vitória, sabes na Avenida da Liberdade, está a recrutar pessoal para todo o serviço em hotéis, restaurantes, etc.

     - Então, e quanto pagam?

     - Pelo menos cinco pesetas diárias e fatiota completa, além da comidinha e as gorjetas, pá! Como vês, isso dá uma porrada de Escudos.

     - Não me parece mau, não, talvez até fosse bom aqui para o rapaz. Sabe, nada tenho a perder, nem tenho um fato completo. Nunca vou à missa ou a um baile porque nada tenho de jeito para vestir.

      - E se vais à missa és cá dos nossos, da malta da cruzada cristã, vão gostar de ti nos hotéis nacionalistas em Espanha.

      - Então, decides-te ou não? Vais lá, assinas o papel e levo-te de camioneta a Talavera de La Reina. Sim, e tudo à conta do Hotel. Não vais precisar de dinheiro no início. - É para já, vamos a isso.

      - Mas, é melhor levares lá acima a saca de lenha e entregares depois o dinheiro ao patrão.

      - Não, a saca fica já aqui no passeio. Quem quiser que a leve. E que se lixe o patrão. O gajo, além de me obrigar a trabalhar o dia inteiro, põe-me na casa dele, à noite, a esfregar soalhos e lavar a louça da cozinha.

    - Bem, vamos ao Hotel Vitória. Perguntamos pela oficina de Dom José Comim e tudo ficará "arreglado".

     - Não percebo, oficina de quê num Hotel?

     - Não tenhas medo rapaz! Oficina é escritório em espanhol. E como é que te chamas?

     - Carlos Santos.

    - Está bem Carlitos, eu sou o "Bandeirin de Enganche". Por isso, podes chamar-me Bandeira, ou antes, Senhor Bandeira.

    - Muito bem, senhor Bandeira, mas de quê? Não percebi bem o seu apelido.

    - Deixa lá, não é apelido, é do trabalho. Vamos depressa ao Hotel Vitória. Talvez arranjem a camioneta já para amanhã.

   Carlos foi com o "Bandeirim" ao Hotel Vitória, onde estava instalado o centro operacional de Lisboa dos rebeldes franquistas espanhóis que, meses antes, se tinham revoltado contra o regime democrático. Os Tércios ou Legião Estrangeira Espanhola tinham lá um oficial de alistamento, o major Comim. Logo à entrada, o Bandeira perguntou se o pessoal do 204 estava de serviço. O porteiro respondeu pela afirmativa.

    - Pronto pá! Vamos lá acima para assinares a papelada. Podes estar contente, os gajos vão aceitar a tua candidatura ao lugar num Hotel em Madrid. Mas, não tenhas medo, eu vou contigo até Badajoz, pelo menos. Quando subiam as escadas, Carlos ainda disse ao "Bandeirim" ou Bandeira: - Até podia ficar já a trabalhar neste Hotel, sempre era mais perto de casa e em Lisboa já conheço as ruas.

    - Não, pázinho! Aqui está tudo tomado. Em Espanha sim, há lá muito lugar vago e não te esqueças de dizeres que tens dezoito anos. A porta estava aberta, entraram logo. O major Comin olhou com um ar desconfiado para o recruta e perguntou a idade: - Dezoito anos.

    - Sim, "por supuesto", daqui a um ou dois anos. Mas não há problema. Assina aqui ao fim da folha e pronto. Toma este papel, é para dormires na Pensão Isabel, ali à Rua da Mãe de Água. E espera um pouco para eu preencher o teu carnet provisório. Mas, o melhor é arranjares um nome um pouco mais espanhol, mesmo que seja de origem duvidosa em termos de região. No cartão não fica a nacionalidade de origem. Olha, assina Carlos Inglesias de Los Santos, é melhor, se fores apanhado dizes que és galego ou seja o que for e não és logo fuzilado. Leva lá o cartão e nunca o percas, principalmente em Espanha.

    - Como vês foi rápido. Amanhã levantas-te às seis da manhã. Pelas sete e meia temos de estar em Cacilhas para apanhar a camioneta que nos vai levar a Badajoz. Vamos com mais malta portuguesa, tudo gajos fixes, cá dos nossos, mas não vamos todos juntos para não dar muito nas vistas, a polícia pode julgar que vamos fazer uma revolução. Descemos a Praça da Alegria, apanhamos o eléctrico para o Cais do Sodré e pronto.

    - Porra! - exclamou o Carlos Santos a olhar para uma espécie de caderneta que lhe deram. - Agora sou o Carlos Inglesias de Los Santos, não posso ir trabalhar num hotel espanhol com o meu nome, meteram-lhe Inglesias, será por ser Santos? Já agora seria Inglesia de Todos os Santos.

Carlos foi com o Bandeira à pensão e depois a uma tasca na Travessa do Rosário. Já lá estavam outros recrutas. Um foi apresentado como sendo o Benito e outro o Adolfo, e ainda o Manuel e o António. Carlos não estranhou, estava cheio de fome, apresentou-se só como o Inglesias. Trouxeram-lhe uma económica com camarão e tudo e depois um bacalhau com grão-de-bico que o deixou esfuziante de alegria. Gostava mesmo do grão-de-bico, bem rugoso e grado, parecia que tinha vindo da sua terra, das pequeníssimas leiras do pai, talvez. O vinho não prestava, mas sempre dava para molhar o pão e limpar a garganta do pó. Cheio de fome, Carlos mal olhou para os seus companheiros, ambos de porte artificialmente esticado e de queixo elevado, armados em tesos. O Benito olhou desconfiado para o Carlos e saudou-o: - Salve César, camarada de uma morte heróica e garantida.

    - Garantida sim, porra, mas não para já e César não sou, Carlos, sim!

    - Todos aqui somos Césares, senhores do Império do Futuro, vamos conquistá-lo com o nosso sangue nas províncias béticas.

    - Está bem, deixa-me comer o bacalhau e vai gritar pela morte da tua avózinha, não pela minha. Já cansado, o novel recruta Carlos Inglesias, foi dormir na pensão. Num quarto minúsculo, caiu na cama como uma pedra, só tirou a camisa e as calças. Nem pensou no luxo de quase pela primeira vez na vida poder dormir só num quarto, sem pais, irmão ou gatos. No dia seguinte, acordou lentamente, deixou-se estar com os olhos fechados como se nada mais tivesse que fazer, até ouvir alguém a bater-lhe à porta.

    - Então pá, adormeceste ou morreste de medo?  Levanta-te. A camioneta não espera. Já não tens tempo para o pequeno-almoço.

Carlos levantou-se apressadamente e saiu quase sem se lavar. Já estavam todos na travessa. Esperavam pelo Carlos. Quando chegou viraram-se para ele e saudaram-no de braço estendido e palma da mão ligeiramente para cima. Salve, gritaram em uníssono, Salve Viriato, voluntário dos Lusitanos. Carlos não percebeu a razão de tal cumprimento e respondeu simplesmente bom-dia, bom-dia a todos.

   - Come lá este pão e depois tomas o café, não tempos tempo a perder, - disse-lhe o Benito.

    Carlos olhou para ele e agradeceu. O Bandeira já lá estava a organizar a ida a Cacilhas, em pequenos grupos, para não dar nas vistas. Os voluntários que Carlos já conhecia e alguns outros que pernoitaram em pensões da Praça da Alegria.

    - Cinco gajos no máximo, e tu, Benito, comandas este grupo com o Carlos, o Adolfo, o António e o Manuel. Saiam uns cinco minutos depois do primeiro grupo. Não te esqueças, pá, encontramo-nos à saída do cacilheiro, no outro lado do rio e tenta falar em código. O pessoal aí das ruas não precisa de saber ao que vamos.

 

    Seguiram assim em pequenos grupos pela Mãe de Água abaixo até à Praça da Alegria e daí para a Avenida onde apanharam o eléctrico para o Terreiro do Paço. Depois foi a espera pelo cacilheiro. Quando chegou deixaram sair o pessoal e entraram. O Benito era decidido, adorava comandar, só tinha pena de não o poder fazer com o exame da quarta classe. Por isso, ofereceu-se para o combate, esperava sair com uma patente militar e sentiu que a decisão do Bandeira de lhe conferir o comando era um prenúncio do que lhe esperava no futuro. Passou a gostar mais dos companheiros que agora eram os seus subordinados. Esperava incutir-lhes o seu ódio à democracia e a admiração pela hierarquia e pela ideia de que as sociedades só devem ser conduzidas por personalidades com grandes capacidades de comando e liderança, nunca pelo voto popular.

    - O povo é feito para obedecer, não para mandar - costumava dizer.

Frente aos subordinados, endireitou ainda mais as costas, ergueu os queixos para cima e ligeiramente de lado para o interlocutor, imitava o seu herói preferido, Benito Mussolini, o "Duce" da Itália. Atravessado o rio, encontraram ao largo de Cacilhas outro grupo de voluntários, entre as camionetas, carroças e equídeos. Estes comiam palha pachorrentamente enquanto os donos descarregavam as lombardas e tronchudas da Caparica. Cumprimentaram-se todos com o braço timidamente estendido e logo recolhido para não dar muito nas vistas. D. José Nunez Comim, o major, apareceu vestido à civil e passou revista, apesar de não estarem em formação militar. Estendeu-lhes a mão e desejou-lhes "buena suerte" com um sorriso meio simpático meio amargo nos lábios. A hora matutina e fresca com um pouco de nevoeiro no rio não parecia inspirar muito os heróis que demandavam as Espanhas do Império com que sonhavam.

    Antes de entrarem para a camioneta, o major organizou o pessoal em duas "secciones de enlaces" e, mais uma vez, Benito foi contemplado com um comando. O Bandeira segredou ao major que aquele gajo todo direito era o indicado para um dos comandos pois é um verdadeiro fascista. A camioneta arrancou para a longa viagem de mais de seis horas a percorrer a interminável estrada ladeada de sobreiros e oliveiras. De vez em quando, passavam alguns veículos em direcção à fronteira, oficialmente fechada. As camponesas alentejanas com os seus lenços e chapéus dedicavam-se aos últimos trabalhos campestres antes de se recolherem ao longo Inverno do desemprego e da fome.

     - Por vezes comem bolota ao Natal devido ao desemprego e à miserável jorna que recebem quando trabalham. Não dá mesmo para aforrar o suficiente para o Inverno - disse o Carlos, deixando escandalizados os que o ouviam, mas o Benito até concordou, ou não fosse um alentejano de gema. Só o Adolfo é que o olhou com uma cara colérica de profunda desaprovação.

    Sem problemas, a camioneta atravessou a fronteira já perto das três da tarde e seguiu directamente para Badajoz, passando por longas ruas de casas térreas cor de areia. Pararam perto da Praça de Touros, onde foram recebidos por um sargento dos Tércios e por dois cabos. Indicaram-lhes com modos rudes uma antiga cantina sindical para almoçarem. Carlos e o restante pessoal vinham cheios de fome e a avaliar pelo local pensaram primeiro que a comida deveria ser intragável. Não foi assim; todos gostaram da entrada de tomates cortados ao meios com salsa a acompanhar botifarras negras, umas salsichas fritas muito curtas e quase saborosas. Faziam mesmo lembrar umas botas dos tempos das guerras da Flandres, as do "Gran Capitan". Depois veio um pouco de "carne a la jardinera" e uma "ensalada". O vinho não prestava, mas em tempo de guerra não podia ser tudo bom. Depois do almoço, o Bandeira disse ao Carlos e aos dois outros "hoteleiros" que tinham de ir a Talavera de La Reina antes de seguirem para Madrid onde estão os hotéis. Ninguém estranhou que a capital da República Espanhola não estivesse na posse dos nacionalistas. Esperava-se que, a qualquer momento, o general Mola fosse tomar um café numa esplanada da Castellana, eventualmente acompanhado por Franco que ainda não se tinha autopromovido a generalíssimo.

    Carlos e os amigos não duvidaram de nada nem colocaram quaisquer problemas. Não sabiam ao certo para onde iam. Numa camioneta espanhola seguiram todos para Talavera. Ao chegar, o Bandeira disse que iriam pernoitar na sede da companhia de depósito e instrução da Legião, pois não havia hotéis abertos e acrescentou que seria melhor fazerem todos um pequeno "entrenamiento" militar, pois o Hotel pode ser atacado e o pessoal tem de saber defender-se. Já tinha anoitecido quando a camioneta espanhola chegou ao depósito. Foram para a messe jantar e Carlos admirou-se ao ler no pendão daquela unidade militar "El Christo y la Virgen". Perguntou ao Bandeira a razão de um nome tão santo numa unidade militar que se destina a matar outros seres humanos. -

     - É assim pá. Os militares espanhóis mostraram a sua devoção católica ao darem este nome à 4ª Bandeira da sua Legião Estrangeira, cujo depósito está provisoriamente situado aqui. A sede original é em Riffien no Marrocos Espanhol. Para aqui hão de vir os portugueses voluntários que integrarão eventualmente uma ou mais companhias denominadas Viriatos. Também está em organização uma companhia de franceses que vai receber o nome de "Jean d'Arc". Esta guerra, pá, é uma cruzada santa, tem a bênção do cardeal Segura. E se tiveres dúvidas, o cura da companhia explica-te tudo e diz-te que as balas estão ao serviço da cristandade, são as verdadeiras hóstias agora.

 

 

    - Pá! As seis "Banderas" da Legião participaram no "comboio da vitória" que saiu do Marrocos e agora está às portas de Madrid pronto a entrar e derrotar de vez a República. Carlos acenou com a cabeça, mas não percebia nada, nem o que tinha ele a ver com uma unidade de militares profissionais que ostentava o nome "El Christo y la Virgen".

     - Vamos jantar, - ordenou o Benito - e levantem-se quando aparecer o capitão Saavedra. Ele virá aqui saudar-nos. Quando chegou o capitão, todos se levantaram e começaram a berrar "Arriba Espanha", "Viva la Muerte" e "Viva Milan Astray". Saavedra fez uma vibrante alocução. Falou da reconquista da Lei, da Ordem e da Paz. Acrescentou que a vitória da Frente Popular nas eleições de Janeiro foi uma fraude com votos comprados pelos partidos dos operários. Só assim puderam derrotar as forças da Ordem e do Respeito.

    - Porra! Disse para consigo mesmo o Carlos Santos, não tenho nada a ver com isto. Só queria ganhar as cinco pesetas diárias que o sacana do Bandeira prometeu. Agora até tenho de vestir a farda da legião destes gajos, mas começa a arrefecer e lá para Novembro ou Dezembro vou necessitar de mais trapos, se não fico lixado. Efectivamente, no dia seguinte, muito cedo pela manhã, levantaram-se e o cabo da camarata ordenou que fossem buscar o fardamento. Os menos entendidos no castelhano do cabo recebiam uma chuva de palavrões e alguns pontapés bem elucidativos. Carlos recebeu duas calças e duas camisas de cole aberto, além de uma "guerrera" de cor caqui para vestir por cima das camisas e um gorro com berloque vermelho pendurado. Também receberam a bota alpargata do exército espanhol e as polainas de lona.

    Depois veio o treino com o pessoal organizado em "secciones" comandadas por um cabo e pelotões dirigidas por um sargento adjunto de um tenente. Formação e marchas com o velho fuzil Mauser de 7 mm, modelo 1893. Marchas e gritos, os instrutores não tinham paciência para nada e enraiveciam-se com os portugueses. Na carreira praticava-se o tiro. Para atingir um alvo a mil metros de distância, a Mauser parecia um canhão e dava um esticão que deixava qualquer ombro todo vermelho.. Depois veio o treino de assalto com o lançamento das célebres "bombas de mano" da Legião e baioneta calada a espetar umas sacas de areia a fingir de inimigos na trincheira. Os recrutas ainda aprenderam sob a gritaria de cabos e sargentos a disparar as velhas metralhadoras Hotchkiss de 7 mm. Montados em selins de bicicleta disparavam uma salva de alguns segundos para ver como era e aprendiam uns rudimentos de montagem e desmontagem da Hotchkiss. Carlos só lentamente se foi habituando à língua castelhana. Estava por isso sempre sob o alvo do sargento Quevedo, um autêntico tirano. Benito sentia-se mais à vontade e de vez em quando traduzia. Uma vez chegou a dizer: - Estes subalternos da Legião devem estar feitos com os gajos do outro lado. Por isso tratam-nos tão mal e parece que têm raiva aos portugueses. Dá a impressão que não gostaram que tivéssemos vindo a Espanha pôr as nossas vidas em risco. Três semanas depois, a recruta termina inopinadamente. Era o dia 5 de Novembro de 1936, a ofensiva nacionalista contra Madrid ia começar.

Foi também um dia de folga para o pessoal ver Talavera de La Reina, que pouco ou nada tinha para ver. Naqueles dias, Talavera estava cheia de gente fardada. Falangistas, requetés, legionários, regulares, mouros, alemães de camisa castanha ou cinzenta militar. Quem aparecesse num café sem farda e ainda jovem de idade podia ser alvo de um insulto por parte dos falangistas que punham na cabeça do insultado uma pequena camisa de senhora recortada em papel e gritavam "maricón", "maricón". O insultado não se atrevia a responder pois lá fora espreitavam falangistas armados de espingarda e baioneta. Mas, um indivíduo revoltou-se contra o insulto, pois já não era tão novo assim. Começou por dizer que tinha 39 anos de idade e atirou com a camisa de papel para o chão. Um dos falangistas deu-lhe um murro, o homem respondeu com um pontapé nos testículos do agressor que berrou de dor, depois pegou numa cadeira e recuou em posição defensiva, enquanto três outros falangistas queriam atirar-se a ele, mas estavam com medo. Subitamente, o insultado leva um tiro no peito. Caiu a vomitar sangue com a camisa toda vermelha e um buraco aberto no peito. Carlos ficou lívido, nunca tinha visto alguém ser assassinado e sentiu um nojo de vómitos pela imensa cobardia dos falangistas. Estava então com Benito que lhe disse para não ligar aos sucedido, acrescentando: - O gajo tinha mesmo cara de socialista, levou o que merecia.

    No dia seguinte, às primeiras horas da manhã, todo o pessoal da "Christo y la Virgen" foi acordado. Os sargentos e oficiais estavam muito nervosos, davam toda a espécie de ordens. Carlos ouviu dizer para se despachar e arrumar os pertences na mochila. Apressadamente tomaram uma espécie de café e foram ao armeiro receber as Mausers e os cartuchos. Benito e Adolfo estavam entusiasmados, a rir disseram ao Carlos que iam todos para Madrid.

     - Pá! Vamos depois dar cabo daqueles sacanas. Vai ser o fim deles.

     - Só tivemos três semanas de treino, Carlos, mas chega pois somos valentes.

    - Mas, eu não vou combater, pois fui recrutado para trabalhar num hotel. Talvez haja que combater um pouco se os gajos nos atacarem.

   - Pois é, pá. Para abrir o caminho até ao hotel há que dar muita porrada nos "rojos". O sargento aproximou-se do pequeno grupo de portugueses e ordenou-lhes rispidamente para tomarem lugar nos camiões. A viagem foi lenta por estradas poeirentas, quase sempre em mau estado com pontes meio destruídas até aos arredores da capital. Quando pararam, viram que havia por lá muita tropa, preparava-se o assalto final com mouros de albornoz, regulares, legionários e outros ainda que ninguém conhecia. "A Madrid, a Madrid", gritavam uns aos outros quando camiões e apeados se cruzavam. Ao mesmo tempo começava a ouvir-se o ensurdecedor ruído dos canhões. Bivacaram à beira da estrada, num local onde havia um terreiro livres para as tendas.

 

    Na manhã do dia 10 de Novembro, o pessoal recebeu ordens para ir para a frente. Carlos ainda quis protestar e disse ao sargento que fora contratado para um hotel, não para uma guerra tão barulhenta.

    - Hotel no, no, guerra, guerra, - respondeu o sargento com um sorriso trocista.

    - Pá! Ouve, - disse-lhe o Benito - isto é mesmo guerra, se fores para trás apanhas um tiro da polícia militar e na tua frente tudo depende de ti. Se vires um sacana a mexer, ou despachas o gajo, ou és despachado. Carlos queria chorar, mas teve vergonha. Marcharam para uma colina coberta de estevas e azevinhos, iam substituir os homens que no Cerro Garabitas, no extremo do Parque denominado Casa del Campo, aguentavam com dificuldade as contra-ofensivas dos milicianos madrilenos. Do cimo da colina, o cabo Juan Gomez explicou que à esquerda via-se a massa informe do Quartel de La Montaña, mais à direita a alta silhueta do Teatro da Ópera e depois o gigantesco Palácio Real. Passaram pelas trincheiras dos milicianos que não recuaram, ficaram lá todos mortos, às dezenas, já com um cheiro pestilento. A linha nacionalista e a retaguarda contígua estavam a ser assoladas por granadas de morteiro e de artilharia dos republicanos.

 

       O odioso sargento Martinez seguia a uns dez metros atrás do Carlos. Subitamente um silvo agudo e uma explosão, Carlos atirou-se ao chão depois de se virar para trás e viu ainda o sargento ir pelos ares e estatelar-se no que restava de uma árvore sem copa. O sargento ficou pendurado com a cabeça para baixo e os olhos muito abertos. Um dos braços tinha sido decepado rente. Carlos correu para o homem na tentativa de o salvar, mas nada poderia fazer. A cara do sargento era uma massa informe e vermelha, enquanto do local onde esteve o braço e a omoplata viu só um buraco profundo, Carlos não deixou de admirar-se com o aspecto vazio do interior daquele corpo humano. "Porra, somos assim tão ocos?", perguntou Carlos a si mesmo, quando logo a seguir Benito gritou-lhe para se atirar ao chão e não deixar de rastejar. -

        - Os gajos estão a disparar com pontaria certeira - disse.

      Efectivamente, as balas vinham de toda a parte e muitos dos legionários já estavam caídos. Mas, era preciso chegar à improvisada trincheira de pedras e dos restos de um muro para se abrigarem. O cabo Gomez berrava como um doido, estava histérico, enquanto Carlos chorava de raiva por se ter metido naquela porcaria de onde aparentemente não sairia vivo. O Adolfo parecia que tinha perdido o seu ar frio e penetrante para adquirir um esgar de medo e cobardia, atirou-se ao chão e não queria levantar-se, gritava que ia suicidar-se com o cão que deixara na terra, enquanto que os outros chegavam ao parapeito do muro que servia de trincheira.

 

    Muito atrás ficara o capitão Saavedra a dirigir o tiro a partir de um resguardo de sacos de areia. Espreitava de vez em quando para se abrigar logo de seguida. Ordenou ao cabo Vicente para informar o tenente Delgado que deveria agrupar os homens da sua companhia para descerem do cerro, ladearem o lago artificial e cruzarem o Manzanares.

     - Seremos os primeiros a chegar à Praça de Espanha - acrescentou.

Muito a custo, Vicente avançou entre árvores e arbustos até ao muro e informou o tenente, Carlos a seu lado tinha recebido ordens para se postar no parapeito e atirar com pontaria certeira ao atacante mais chegado e depois ao seguinte e assim sucessivamente. O tenente respondeu com fúria ao capitão Saavedra, afirmando: - Só com blindados podemos chegar ao Manzanares e atravessá-lo. "Coño", fomos enganados, disseram-nos que os gajos não tinham exército e que as milícias iriam comportar-se aqui como o fizeram ao longo de todo o nosso avanço desde Sevilha. Mas, não, eles têm lá uns gajos de capacete de aço, "cojones", estão a combater e a contra-atacar e nós estamos a morrer, porra! Como é que uma República com ministros anarquistas e milícias femininas arranja um exército? Saavedra, lá atrás, recebeu de novo o cabo Vicente e deu razão ao tenente. Pediu pelo telefone de campanha ao coronel Juan Yagüe para mandar blindados. Disseram-lhe que Yagüe adoecera, fora substituído pelo coronel Garcia-Escámez. O seu oficial de ligação informou que os tanques estavam a vir. Carlos viu aparecer sucessivamente mais e mais infantaria sem saber que as três principais colunas do ataque à capital da República estavam a agrupar-se ali naquele local, em pleno parque da Casa del Campo, para atravessarem o Manzanares.

      Foi tudo muito rápido, o pelotão com a pequena secção dos Viriatos portugueses recebeu um novo sargento, o Ribera, muito nervoso e aterrorizado com a perspectiva de morrer, apesar do seu apego legionário à morte. Ali, debaixo do fogo constante do inimigo, Gomez não gritava "Viva La Muerte", imitando Milan Astray, o fundador dos Tércios da Legião. Carlos, Benito e Adolfo, mais os restantes lusitanos, passaram também a ser comandados pelo cabo Juan Cuerpo, um tipo baixito e gordo que procurava sempre compensar a sua inferioridade física com uma bem alardeada valentia. Mas ali naquela situação, o homem tornara-se mais prudente. Esperaram cerca de duas horas pela vinda dos tanques e tanquetas.

     Os metralhadores das Hotchkiss postadas nos muros de pedra receberam ordens para fazer fogo cruzado sobre as linhas republicanas, enquanto o pessoal da companhia de Saavedra com as coronhas das espingardas demoliam parte do muro para deixar passar os tanques. Com grande ruído, as maquinetas chegaram e foram-se ao Manzanares seguidas pela infantaria. A distância era mínima, menos de cem metros, mas sempre batida pelo fogo inimigo. Soldados de capacete de aço atiravam a matar, do outro lado do rio. De vez em quando caíam granadas de morteiro. Muitas não explodiam, mas as outras faziam ali uma carnificina terrível.

     Os tanques "Negrillos" e as tanquetas Fiat Ansaldo chegaram ao Manzanares e tentaram atravessá-lo. Carlos aterrorizado, viu as máquinas patinarem na lama e o pessoal saltar para fora em estertor final sob a chuva das granadas. A infantaria tentava chegar ao rio, mas os primeiros a molharem os pés ficaram logo a boiar inertes e só não iam para o fundo porque não tinham capacetes de aço e a profundidade era pouca. A noite chegou sem que Carlos e o restante pessoal nacionalista conseguisse atravessar o riacho. A guerra foi a descanso e no dia seguinte, muito cedo, pela manhã. recomeçou com um ritmo primeiro lento de tiro parado para de seguida recomeçar a ofensiva nacionalista. Carlos e Benito dormiram junto ao muro, enquanto os outros abrigaram-se mais para trás sob o arvoredo do parque. Os tanques já eram em menor número e voltaram a ficar no riacho, a nova ofensiva ainda foi mais débil, mas deixou mais mortes e feridos no talude.

     O próprio coronel Castejón, o comandante da coluna, resolveu inspeccionar a zona logo abaixo do Cerro das Gabaritas e levou um tiro num pulmão. Carlos chorava de medo e raiva, enquanto Benito e Adolfo, pálidos, tinham as calças todas sujas por dentro, o sargento Gomez ordenou que avançassem mais e à sua frente, procurando abrigar-se atrás dos corpos dos lusitanos. Subitamente, Benito leva um tiro quase no coração e fica estatelado, enquanto Adolfo recebe uma chuva de estilhaços de uma granada de mão e cai agarrado ao peito. António ficou com um enorme buraco na testa e olhos revirados para cima, enquanto o Manuel apanhava um bala no estômago e outra nos intestinos que começaram a sair para fora. Carlos não vê mais nada na sua frente, sentiu um impacto na cabeça, a escuridão apoderou-se das suas retinas, o dia deixou de existir. - Porra, morro que nem um porco sem ver mais nada - disse por fim. Morreram sós e cada um à sua maneira, havia ali uma morte para cada um.

 

 

Conto publicado pela Editora Lua Nova no Livro de Contos de Dieter Dellinger: A Morte de Cristo em Verdun.

Lua Nova: Av. Dr. José Pontes Nº 15 - r/c Dto / 2720-203Amadora

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publicado por DD às 18:33
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