Sábado, 14 de Maio de 2011

Os Memes de Abel

 

 

 

 

 

Abel Abelardo saltou para cima da mesa sem mesmo descalçar os sapatos, na estupefacção geral, e gritou Eureka, Eureka, Eureka, descobri finalmente o segredo que esteve à vista de todos durante séculos sem que alguém o visse. Começou a dançar no topo da mesa até escorregar e ser agarrado por alguns dos companheiros de reunião que não estavam mesmo a perceber o que se passava. ´

 

O velho neo-construtivista Casper Johansen perguntava em alemão o que ele tinha, acrescentando: “ist er wahnsinnig”? Está louco?

 

- Não, - responderam-lhe. Ele descobriu qualquer coisa e quer compartilhar conosco a sua felicidade.

 

- Então diga-lhe que se explique, mesmo que seja numa língua que eu não conheça.

 

A reunião do Grupo Neo-Filosofia Ad Hoc entrava numa fase de caos depois da inesperada atitude de Abel Abelardo, geralmente tão pouco expansivo e cordato. O nome do grupo não exprimia bem a sua essência, já que não pretendia ser propriamente uma associação de filósofos, mas tão só e modestamente um grupo de leitores de filosofia em que cada um se integrava na sua escola de pensamento para discutir com a máxima tolerância com todos os que não partilhavam as suas ideias.

 

Assim, naquela reunião de férias, em Vila Nova de Cacela, estiveram presentes neo-positivistas, neo-construtivistas, neo-empiristas, neo-marxistas, neo-fenomenologistas e até neo-existencialistas, tantos porque alguns consideravam-se adeptos de duas ou mais escolas filosóficas, ou gangs do pensa-mento no dizer mordaz de Luís Meyer.

 

- Abel! Afinal o que descobriste? –Gritaram-lhe de todos os cantos.

 

- Descobri que Abelardo, o meu patrono de nome, o meu heterónimo, o marido secreto da bela Heloísa, filha do cónego Fulbert da Catedral de Notre-Dame, não morreu totalmente em 1142. Os memes, os seus genes cerebrais, registados no notável livro "Sic et Non" perduram até hoje. Para além de neo-positivista que sempre fui, sou também um neo-conceptualista e nominalista abelardiano que descobriu em Richard Dawkins e Susan Blackmore a chave do enigma milenário da filosofia, porque do pensamento.

 

Frederico Witt tentava traduzir para o quase centenário Johansen aquilo que Abelardo dizia em português. Este tinha lido Abelardo há mais de setenta anos atrás, mas nada tinha esquecido da obra dquele que no seu tempo foi uma espécie de Apolo do pensamento filosófico.

 

- O filósofo medieval Abelardo, - meus amigos, - afirmava que os universais existem no pensamento e são corpóreos enquanto nomes e palavras, mas não quanto ao sentido, referem coisas sensíveis e não sensíveis, podem deixar de existir como nomes que indicam indivíduos se estes deixarem de existir, mas subsistirão como significados. Amigos, companheiros de leituras, tertúlia e farras, os universais de Abelardo mais não são que os memes de  Dawkins em "O Gene Egoísta" e Susan Blackmore em "The Meme Machine".

 

O nosso cérebro não passa de um biótopo húmido destinado ao segundo replicante da natureza, o meme, termo analógico de gene, mas desmaterializado em a ideia, a unidade cultural, cerebrelizada, replicada para passar de mente para mente como se tivesse vida própria. Os memes dão vida ao nosso espírito, são as peças fundamentais do nosso raciocínio, da nossa percepção, amigos e são, eles mesmo, a nossa consciência e o nosso eu. Sem os memes, o nosso cérebro não passaria de uma massa cinzenta animal, um primata, ou qualquer mamífero, um mecanismo reflexo para comer, defecar e fornicar. Os memes passaram a dirigir a evolução do Homo sapiens, provocando, sem dúvido, o aparecimento do neo-córtex. Reparem, a mais bela parisiense do Ano de 1110, Heloísa, apaixona-se pelo espírito mais brilhante da cidade, o filósofo Abelardo. Quantas Heloísas não preferiram a sagacidade e a retórica afinada de um jovem inteligente ao poder musculado de um estúpido. Mesmos nas cavernas de Cro-Magnon.

 

Será que o pintor dos bisontes e o escultor da Vénus das cavernas não teria tido mais êxito que o simples caçador, permitindo uma maior replicação de genes, por um lado, e de memes nas pinturas e, provavelmente, na oratória do dia-a-dia, por outro? Não terão os pais das Heloísas mais juvenis dado a preferência aos mais belos Homo ergaster e sapiens arcaicos em detrimento do bruto neandertaliense?

 

Johansen, o neo-construtivista, depois de perceber o que Abelardo disse, fazia oscilar a cabeça da esquerda para a direita. Não estava de acordo, pediu a palavra e disse: - Companheiros, o nosso pensamento e a nossa memória são construções do espírito. "Scheisse", gritou irado. Os nossos cérebros não são máquinas fotocopiadoras, apesar de que é verdade que o nosso poder de imitação não tem par na natureza, principalmente nas idades mais infantis e o poder de imaginação, o que é? Construímos sempre, mesmo as recordações do passado. Kinder, meninos, somos mais seres anemófilos, amantes de anemos, vento em grego, que adeptos de Kronos, o deus do passado sem futuro, o dos cronistas.

 

- É verdade, - repondeu Abelardo, - anemófilos de vento, para quê? Para transportar os memes, as mensagens ideográficas que saltam de cérebro para cérebro, replicando-se com fidelidade, perenidade e beleza.

 

Os genes, meus senhores, são instruções celulares para a produção de proteínas estruturantes dos seres vidos. Os memes são instruções mentais implantadas nos cérebros humanos e replicadas de cérebro para cérebro, frequentemente através de suportes intermédios como livros, revistas, obras de arte, artefactos e, naturalmente agora, através da internet. Exprimem-se de uma forma digital desde que o género Homo descobriu a linguagem primeiro, a escrita e depois o computador. Os vírus da internet são já semi-memes com vida própria que circulam livremente nos circuitos de internet com efeitos perniciosos, tal como os memes do nazismo de tão nefastas consequências. Os memes determinam o nosso comportamento, regem o nosso raciocínio, permitem que tenhamos a ideia de estar a construir raciocínios quando pen-samos e reconstruímos o passado. E nada têm a ver com a verdade; os memes são verdadeiros porque existem enquanto memes, não porque exprimam verdades, são anteriores ao conhecimento objectivo.

 

Friedrich Ussner, o desconstrutivista adepto das ideias de Jacques Derrida e federado aos multiculturalistas e aos teóricos discursistas, recebeu a mensagem com apreensão e disse: Talvez haja algo de verdade nisso, sinto que estou numa espécie de caldo primitivo, não de genes do pré-câmbrico, mas talvez de memes como dizes tu. Tenho de confessar que não li Richard Dawkins nem Susan Blackmore, mas li Ludwig Wittgenstein.

 

- Sim Friedrich, podemos ler aqui em voz alta o "Tractatus Logico-Philosophicus" que Wittgenstein publicou em 1921, agora à luz da teoria mémica. Reparem que o Tractatus de Wittgenstein apresenta uma teoria afirmativa no sentido que Aristoteles lhe deu, quando dizia que a linguagem é aquilo que é”. Wittgenstein definia essa realidade como sendo “um conjunto de acontecimentos sem relações recíprocas e desprovidos de necessidade de existência, mas determinantes das manifestações linguísticas. A única necessidade para o grande filósofo austríaco é constituída pelas proposições da lógica. O mundo para Wittgenstein é causalidade, não é necessidade.

 

Meyer, o neo-marxista e neo-realista com alguma simpatia pelo neo-positivismo anglo-saxónico, gritou: - Não, não, não é verdade. Vocês são uns idealistas, querem os memes para fugir à realidade material da luta de classes. As duras experiências da vida moldam o nosso carácter, dão-nos consciência de classe, não essa coisa que agora chamam memes. Os memes são lixo intelectual. Abelardo sorriu, o tom da retórica era o habitual nestas reuniões, a abrangência ideológica incluia naturalmente uma certa terminologia mais popular.

 

E perguntou: - Como pode haver consciência de classe se a consciência não existe? Aquilo a que chamas consciência, Meyer, são memes que se exprimem como uma voz interna e originam um modelo mémico que pode ser a tradução de uma realidade digital a que denominamos classe social construída com ideias atomistas que mais não são do que memes replicados para os nossos ou deles cérebros.

 

A classe operária tradicional é portadora dos seus memes e a consciência mais não é que a avaliação do modelo mémico em relação a factores externos ou mesmo a um modelo padronizado e replicado para o córtex cerebral. Reparem; a má consciência de um indivíduo tem a ver com a divergência do seu comportamento relativamento ao memplex, conjunto de memes que formaram um modelo interiorizado na infância ou em qualquer outra idade.

 

- Mas, Wittgenstein já sabia dos memes? Perguntou ironicamente Frederico Witt.

 

- De alguma forma, Wittgenstein foi um precursor da memética, sem disso ter a consciência, no âmbito da sua Teoria da Linguagem, –respondeu-lhe Abelardo, continuando: - Repara no que Wittgenstein escreveu no seu Tratado: "A multiplicidade das linguagens não pode ser estabelecida de uma vez por todas; novos tipos de linguagem, novos jogos linguísticos nascem continuamente, enquanto que outros caiem em desuso e são esquecidos". E não é só Wittgenstein que pode ser relido na base da teoria dos memes, em que estes são as proposições de Wittgenstein e de outros filósofos do chamado Círculo de Viena, constituído por neo-empiristas de grande craveira como Moritz Schlick, Neurath, Carnap e Reichenbach dos anos trinta. Todos foram obrigados a fugir à Revolução dos Estúpidos e Maus que foi o Nazismo para se refugiarem nos EUA, à excepção do fundador do círculo, Moritz Schlick, assassinado por um nazi austríaco na escadaria da Universidade de Viena. A imprensa nazi da época exaltou o assassino como o homem que impediu o desenvolvimento de uma filosofia viciosa. Schlick escreveu que o novo empirismo é uma análise das expressões em geral, ao contrário do velho empirismo que pretendia ser uma análise das faculdades humanas. Schlick definiu as expressões como sendo as proposições, linguagens, sistemas de símbolos e mesmo filosofias que devem saber exprimir algo. Não são pois memes estas expressões?

 

- Abelardo! Coloca aí na mesa um meme, dá-nos um exemplo para a gente perceber?

 

- Um "genoma" mémico pode ser tão só um conjunto de instruções dadas a um miúdo para fazer um barquinho de papel que o adulto recebeu do seu pai, o qual também recebeu de outra pessoa quando era criança.

 

Mas, vejamos esta frase, proposição ou expressão verbal de um juízo: O céu é azul. É quase uma tautologia, o céu é sempre azul e é utilizada como exemplo de evidência singular. Contudo, a sua relação com a realidade é precária ou só limitadamente tem algum conteúdo. O artigo definido o é necessário por uma questão de estilo. O céu, bem, o céu não existe cientificamente. Coloquialmente é apenas aquilo que vemos quando levantamos os olhos para cima em dia sem nuvens. Mas, na verdade não há céu, há atmosfera e há espaço. A atmosfera absorve todas as cores do espectro luminoso, refletindo apenas o azul. Por isso, a verbalização do ser em é não corresponde a algo e seria dispensável, já que o meme podia ser apenas céu azul, ou só céu. Por outro lado, já numa perspectiva metafisicante, o céu como morada de deuses ou de um deus únco tem um valor mémico apenas, já que as religiões e os deuses assassinados pelo judeo-cristianismo ou o deus mortalmente atingido por Friederich Nietzsche formam um verdadeiro "memplex" ou "genoma mémico", estrutura de memes com vida própria, definidores de uma realidade transcendente, ou seja, mémica apenas.

 

As ideias religiosas replicam-se continuamente com uma notável fidelidade e longevidade, dando, por vezes, origem a algumas mutações que pretendem mais não ser que regressos ao passado, à pureza da fé. E reparem, se não existissem memes, as culturas mais antigas não teriam desenvolvido a ideia de que há uma alma separada do corpo, um espirito incorpóreo que passa de cá para lá. A alma é um meme que induz em erro as pessoas que a julgam parte do seu eu que mais não é que um modelo mémico extremamente fecundo , resultante de replicações do passado e que se vai replicando quase que infinitamente nas mentes humanas. Os memes religiosos traduzem ideias bizarras como a de um deus invisível e omnipotente e uma virgem que deu à luz um indivíduo que morreu por causa dos nossos pecados quando ainda não tínhamos nascido. Choramos a sua morte e alegramo-nos por ter renascido ao terceiro dia.

 

Deus salva-nos por milagre. Em 1917 salvou um soldado alemão que confraterniza na trincheira com os seus camaradas e sentindo necessidade de defecar saiu daquele local para uns segundos depois cair uma granada inimiga que matou os companheiros. Depois, o mesmo homem é salvo miraculosamente numa saraivada de tiros que mata os companheios à sua esquerda e direita e deixa-o incólume. Depois ainda, explode uma bomba no local em que estava numa cervejaria. Tivera de abreviar um discurso que estava a pronunciar para ir defecar. Ainda se salvou por milagre de uma queda de avião e de outra bomba que foi posta debaixo de uma mesa de reuniões.

 

Enfim, quem era o homem que um deus fazia defecar tão milagrosamente? Adolfo Hitler, o maior de todos os assassinos da História com seis milhões de judeus mortos, dois milhões de ciganos, mais de um milhão de socialistas, comunistas e presos diversos, um a dois milhões de tuberculosos dos sanatórios, doentes mentais e soldados dos seus exêrcitos para evitar amputações e mais de 50 milhões de vítimas mortais da guerra que desencadeou.

 

É evidente que deus é um meme com óptimas características de replicação e que provoca vidas de nobre altruísmo em muitas pessoas para acelerar ainda mais a replicação mémica, apesar de que provávelmente nada tem a ver com verdade. O instrumento mais eficaz para a replicação dos memes é, sem dúvida, o idealismo generoso traduzido em actos e formas de vida exemplares e a beleza consubstanciada em catedrais, bandeiras, hinos, músicas celestiais, paradas multicolores, cartazes e mais instrumentos de propaganda, isto é, propagação de memes. A realidade, a verdade, a objectividade, não são os instrumentos ideais, simplesmente porque a realidade no seu todo nunca se apresenta com a beleza e a pureza da imaginação, nem sequer com uma estrutura homogénea.

 

No fundo, os memes detestam a realidade. Enfim, de memes estão as nossas cabeças cheias e são eles que lutam entre si e nos fazem lutar uns contra os outros, desde que aceitemos nas nossas mentes aqueles memes de bloqueio que uma vez instalados dominam-nos e impedem a penetração de outros memes mais consentâneos com uma ética universal e uma generosidade sem limites rácicos ou ideológicos. Abel Abelardo terminou a sua exposição com um longo silêncio. Os circunstantes não tugiram nem mugiram, deixaram simplesmente que aqueles memes circulassem aí e se fossem instalando nos seus córtex cerebrais. Num silêncio absoluto, os novos memes instalaram-se ou entraram em conflito com outros memes que não querem ceder os neurónios e as redes axónicas que ocupam. Ninguém quis dizer algo mais. O jantar estava marcado e decorreu quase em silêncio.

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publicado por DD às 09:48
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