Quarta-feira, 20 de Setembro de 2006

A FETWA

            La illah el Allah ,(não existe outro Deus senão Alá) e Maomé é o seu profeta, costumava dizer Abdul-Rahman quando descarregava da sua carroça umas caixas misteriosas e todas cobertas na loja do seu jovem sobrinho Abdullah, filho do seu falecido irmão Afzal.

 

            A mercadoria era sempre entregue pouco antes do Muezin da Mesquita ao lado chamar o povo piedoso de Alá às orações. Uma vez arrumadas as caixas no interior da loja, numa espécie de quarto em que Abdullah costumava dormir a sesta e fumar o narguilé ricamente ornamentado que herdara do pai com a loja; tio e sobrinho quase corriam para a Mesquita onde rezavam com intensidade e batiam frequentemente com força a testa no chão. Eram tidos como crentes e piedosos a quem Alá concedeu todas as graças, incluindo bons rendimentos e ninguém na aldeia de Akilah sabia explicar como é que a  bênção divina lhes chegava aos bolsos.

 

            Abdul-Rahman era horticultor com pouco êxito. Aquela terra à volta de Akilah era agreste e seca. É certo, ele tinha conseguido com muito trabalho juntar uns dirahns para mandar fazer um furo e colocar lá uma bomba. Tinha água quase todo o ano, mesmo que barrenta e castanha, mas dava para irrigar, só que o tempo seco e o sol muito quente secava quase sempre as suas plantas, além de que as noites eram frias e o próprio Inverno não era muito quente.

 

            Um dia Abdul foi à cidade para ver se comprava outras sementes para produzir produtos hortícolas mais capazes. Na loja disseram que podia ganhar mais dinheiro com uma estufa como as que os israelitas fazem; uma armação simples de madeira tratada com um produto conservante e plástico; sim, polietileno. A água não deixaria de faltar, pois do tecto da estufa à noite, Alá faria chover e as plantas voltariam a beber uma água nova e pura. - Não se esqueça”, disse-lhe o Afzal (superior) da casa das sementes que Alá gratifica bem quem se esforça e é piedoso e pode pagar a esmola mensal -. Mas, muito em segredo aconselhou-o a semear sementes de Satanás e segredou-lhe que Alá não estava a ouvir. Sim, sementes de pepinos de casca lisa, beringelas reluzentes de cor violeta escura e meloas redondinhas de casca amarela reticulada.

 

            - Mas, porque me dizes Afzal que são de Satanás, que Alá tenha piedade da minha alma ao referir-me ao demónio?

 

            - Bem, digo-te em segredo, mas não deves revelar a ninguém. São sementes israelitas, a embalagem é holandesa. Mas tu não sabes de nada; os israelitas é que inventaram estas meloas, as Galias e os pepinos, as beringelas e os tomates de longa vida, mas ninguém sabe disso aqui. Dão frutos hortícolas que não apodrecem rapidamente e mantêm-se frescos mesmo no calor.

 

            Abdullah prometeu não revelar a ninguém e comprou o plástico, os paus, as sementes e recebeu de oferta uns desenhos de como fazer uma estufa.

 

            Com a ajuda do sobrinho Abdullah e do irmão mais novo Anwar conseguiram construir a estufa, fazer uns regos para onde faziam correr a água do furo e semearam pepinos grossos híbridos das marcas Bali e Bangkok e umas beringelas longas de cor violeta e ligeiramente curvas. Escolheram-nas pelo catálogo. Ainda semearam uma fila de meloas Gália para experimentar. Mas, seriam os pepinos e as beringelas que mais se iriam vender.

 

            - Nos tempos do meu pai Alim, o sabedor, que Alá tenha a sua alma no paraíso, sempre que o distribuidor vinha com pepinos e beringelas, as aliyahs de Akilah apressavam-se a comprar. Que Alá faça as suas amani (desejos).

 

            Meses depois e com muitos cuidados e trabalhos, Abdullah conseguiu colheitas magníficas. A água barrenta era um dom de Alá, apesar de também ter utilizado uns adubos líquidos. Abdullah acredita que a sua água é especial e, por isso, nunca falou dela, manteve sempre em segredo e pediu perdão a Alá de não a ter dado aos vizinhos. Alá, o Grande, perdoou-lhe, até porque um vizinho ao ver a sua água disse que aquilo não prestava; era barro com muita água, não daria para nada. Foi o Assim, o protector.

 

            Os belos pepinos e as reluzentes beringelas passaram a fazer a inveja de todos os que passavam pela loja de Abdullah.

 

            As senhoras de Akilah, todas cobertas com as suas haiks e djalabas negras e os véus a deixarem apenas uns olhos negros muito grandes à vista compravam sempre aquelas duas iguarias. Pelo andar e baloiçar das ancas, o filho de Afazal, como lhe costumavam chamar, sabia quais as jovens e quais as mais maduras ou velhas.

 

            Abdullah ainda tinha dezassete anos, mas, mesmo assim, dizia das suas e quando recebia os dirahns agradecia com a sua frase do costume: “Que Alá guarde a tua beleza, Ya sitti (minha menina).

 

            As vendas corriam bem e as clientes não regateavam os preços, mas o trabalho para produzir na estufa era duro e as sementes e adubos custavam muito dinheiro, pelo que o lucro era relativo, nem muito nem pouco.

 

            Mas, um dia, com grande espanto de Abdullah e do seu tio, o Muezin emitiu do alto do minarete uma Fetwa para ser aplicada imediatamente: “Em Nome de Alá, O Todo Poderoso, o Criador, e de Maomé, o Seu Profeta, declaro proibida a venda pepinos e beringelas em Akilah e em todos os seus arredores. Fica também proibido trazer os frutos de Satanás para a nossa terra.

 

            Abdullah saiu da Mesquita e não teve alternativa; pegou nas caixas com os belos pepinos e as brilhantes beringelas e escondeu-as no interior da loja, naquele pequeno compartimento coberto de tapetes com o narguilé e umas almofadas onde costumava descansar.

 

            No dia seguinte, ainda cedo, mas já depois de as mulheres terem ido ao poço de Akilah encher os baldes com água, passou pela sua loja a Ya sitti Aqila, também conhecida por Aqil por ser baixinha e magrinha. Perguntou-lhe pelos pepinos e pelas beringelas.

 

            Abdullah disse que o Muezin emitiu uma Fetwa que proibia a venda dos frutos do diabo, que Alá me perdoe. Mas eram ali, sublimes, respondeu Ya sitti. Alá perdoa também aos bahadours, os que não têm medo, e mostram os pepinos e as beringelas. Sei que os escondeste nos fundos da loja. Pago só para os ver durante algum tempo.

 

            O filho de Afazal não era muito ganancioso e disse que sim sem sequer falar no preço, deixando Aqil entrar, fechar a cortina e ficar lá a ver os pepinos e as beringelas.

 

            Recebeu dois dirahns; enquanto agradecia a Ya sitti, ela disse-lhe para ser amin, pessoa de confiança. Abdullah não percebeu, mas não tinha a pretensão de perceber tudo. Pelo sim pelo não, Abdullah manteve-se amin e nada disse a quem quer que seja.

            Pouco tempo depois, voltou a ver Aqil. Ele conhecia-a sempre por ser muito pequena e vinha com outra sitti que disse ser Amira e perguntou se seria amna, seguro, ver os pepinos e as beringelas no interior da loja. Tão amna como Alá ser o Mais Poderoso, respondeu o sobrinho de Abdul-Rahman.

 

            A freguesia para visitar os pepinos e as beringelas passou a ser cada vez maior e Abdullah resolveu não aceitar apenas os poucos dirahns que lhe davam, passou a exigir mais: cinco dirahns por visita.

 

            Elas vinham sempre aos pares ou em grupos de três ou quatro. Os fundos da loja passaram a estar sempre ocupados e ninguém à frente desconfiava. Abdullah passou a ter alfaces e os meloas Galias a encherem a entrada da sua loja.

 

            O negócio corria bem, o jovem Abdullah passou a reparar que os pepinos e as beringelas se gastavam com as visitas e passou a pedir de vez em quando que o tio mandasse uma caixa ou duas de novos frutos e nunca lhe disse que se estragavam ao serem vistas. Abdul-Rahman também nada lhe perguntou; limitava-se a entregar as caixas bem cobertas com os sacos vazios das sementes ditas holandesas. O lucro era enorme para Abdullah que, por isso, pagava sempre ao tio o dobro do preço que ele lhe pedia; os mesmos frutos rendiam imenso para serem apenas vistos.

 

            Tanto vinham à loja as donas de djalaba e haki como as de burkas. Abdullah ficava louco de desejo sempre que via umas mãos finas com unhas bem pintadas e muitos anéis nos dedos e tentava tocar-lhes sempre que recebia os dirahns. Imaginava belezas só vistas nos filmes indianos de Bollywood, mas sabia que as mulheres de Akilah não são como as de Mumbai; têm a pele muito branca. Para lhes ver a cara, Abdullah cortava as meloas em fatias e dava sempre uma a provar. Às vezes via uns lábios pintados, mas raramente, pois elas voltavam-se de costas para o pobre Abdullah.

 

Pobre de mulheres, mas rico de dirahns, já que vendia por muitos dirahns os seus pepinos e beringelas só para serem vistos sem perceber porque razão queriam todas as sitti de Akilah ver os frutos proibidos pela Fatwa do Muezin.

 

 

publicado por DD às 23:20
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