Segunda-feira, 30 de Outubro de 2017

A Minha Família na Revolução Bolchevique

 Novatcherkass em 1917

 

 

Há 100 anos, o meu pai com 9 anos de idade contemplou da varanda do terceiro andar do apartamento em que vivia em Novatcherkass, no sul da Rússia, a passagem de um desfile militar sem que ele ou a minha avó percebessem o que se estava a passar. Foi a 28 de Outubro de 1917.

Os homens vinham uns fardados e outros à civil e diziam os vizinhos que iam conquistar a vizinha cidade de Rostov. Eram voluntários do primeiro exército branco que se tinha revoltado sob o comando do general Kornilov contra o governo democrático provisório que depois de derrotado em Petrogrado por forças democráticas comandadas por Kerensky se tinham refugiado na região de Kuban a leste do rio Don que banha as duas cidades vizinhas, Novatcherkass e Rostov.

Ali, muito longe da capital, ninguém sabia algo dos bolcheviques apesar de existirem agrupamentos espalhados por toda a Rússia com especial incidência na Crimeia entre os marinheiros da base de Sebastopol.

Iam todos armados com a famosa espingarda russa Mozin-Nagat 1891 mais conhecida pela 3-Lineyaya Vintovka devido às estrias que tinha no interior do cano para dar uma rotação à bala. No fundo era o equivalente da Kalashnikov de hoje.

Os bolcheviques a 26 de Outubro ainda lutavam para conquistar as 1.500 salas e salões do Palácio de Inverno com Vladimir Ilitch já sentado à secretária do deposto Alexander Kerensky, quando não estava no Instituto Smolny, o quartel-general do soviete partidário de Petrogrado de onde partiu a organização da revolução.

A tropa não politizada tinha fugido, incluindo o célebre batalhão feminino que se prontificara a defender a democracia. Enquanto se disparava no interior do Palácio, na cidade decorria a vida normal e poucas pessoas sabiam do se passava. As forças ao serviço de Lev Davidovitch tinham-se esquecido de cortar as linhas telefónicas, pelo que as autoridades provinciais sabiam do que se estava a passar.

A luta dos voluntários brancos recrutados por Serge Obolenski foi dura e só a 2 de Dezembro conquistaram Rostov, combatendo de rua em rua. Havia muita dificuldade em distinguir os brancos dos vermelhos porque utilizavam o mesmo uniforme do exército russo e alguns andavam à civil. A dada altura, os vermelhos passaram a usar uma faixa que dizia “morte aos burzhúi (burgueses)”.

Durante uns dois anos, Novatcherkass esteve uns tempos largos na mão dos brancos e depois mudava de mão quase todas as semanas e o meu pai que tinha um relógio cronómetro contava os segundos entre o primeiro tiro de um canhão e a explosão da bala, calculando assim a distância pela velocidade do som como lhe tinha ensinado o meu avô.

A região chegou a ser ocupada pelas tropas alemãs já depois da assinatura do tratado de Paz de Brest-Litovsk e dois oficiais alemães chegaram a instalar-se em casa do meu pai, enquanto do meu avô ninguém sabia de nada. Os oficiais alemães aconselharam a minha família a sair da Rússia com as forças alemãs que não se metiam na guerra entre brancos e vermelhos quando de repente o meu avô aparece meio fardado de aspirante russo e de soldado austríaco, pois para fugir da Sibéria apoderou-se de uns papéis de um anarquista falecido e quando pediu um novo passaporte russo foi logo incorporado no exército russo.

A 2 de Dezembro de 1917, Liev Davidovitsch Bronstein, formou oficialmente o exército vermelho e, curiosamente, quando o meu avô tomou conhecimento do nome do chefe militar da Revolução ficou descansado. É que era amigo d pai de Liev, David Bronstein, o proprietário de uma fábrica de moagem de cereais no sul da Ucrânia ali muito perto de Novatcherkass e o meu avô como engenheiro técnico mecânico e representante dum fabricante alemão das modernas máquinas de moagem e ia de vez em quando à fábrica do senhor Bronstein com ajudantes reparar qualquer avaria.

O irmão mais novo da minha avó frequentava uma Escola de Engenheiros em Moscovo e quando tinha o curso quase acabado em meados de 1916 foi mobilizado para a aviação russa, a primeiro que construiu e utilizou bombardeiros de quatro motores, dado terem um génio da engenharia aeronáutica, o Sikorsky, que durante a revolução fugiu para os EUA onde inventou o helicóptero e fundou a fábrica que ainda tem o nome dele. Aí o meu tio-avô aprendeu a pilotar e a reparar aviões, mas a guerra acabou quando ia começar a entrar em combate.

Depois da formação do exército vermelho, contava a minha avó, o irmão Félix foi mobilizado pelo exército vermelho como “voenspets” (perito militar) dado que os bolcheviques não tinham oficiais ou especialistas do seu lado porque todos emigraram para a Alemanha, França e EUA. Tal como o Félix, muitos especialistas burgueses eram de esquerda, mas os bolcheviques assustavam-nos e a dada altura toda a classe média russa quis ir para a América, tida como o paraíso de todas as oportunidades, seguindo as pisadas da nobreza que ficou mais em França a guiar táxis e servir em restaurantes de luxo porque não sabiam fazer quase nada.

A estadia desse meu tio-avô na força aérea vermelha não durou muito. Ele era muito conhecedor e intelectual, só que sofria um pouco de miopia e uma dia num voo de observação na Ucrânia viu qualquer coisa que lhe pareceu serem tropas inimigas e regressou à base para informar os comandantes. Uma companhia vermelha foi imediatamente ao encontro dessa tropa e viu apenas uma quantidade de animais de pasto, talvez bois, a pastarem pacificamente na estepe ucraniana. Expulsaram-no da aviação e queriam-no fuzilar, mas a miopia salvou-o e foi combater para a artilharia, avançando até Odessa e daí passou com as forças vermelhas para a região cossaca onde tinha sido instaurada uma República Democrática Cossaca que foi rapidamente derrotada, mas o exército branco do general Anton Denikin obrigou os vermelhos a recuarem quase até Moscovo. Antes disso, quando da retirada das tropas alemãs, já em 1918, o meu tio-avô contactou os alemães e viu que estavam dispostos a vender as suas armas, o meu tio Félix negociou com eles e passou a comprar para o exército vermelho uma Mauser por um marco e uma peça de artilharia com um lote de munições por 150 marcos. Tudo mais uns tantos sacos de farinhas, carnes e outros alimentos porque havia muita falta de comida.

A família em Novatcherkass foi-se aguentando porque a irmã mais velha do meu pai namorava um russo que era apicultor com o respetivo pai e arranjava mel que fornecia muitas calorias à família e é muito saudável. Ao contrário dos outros russos, a família do meu pai conseguia manter um ar saudável. Contudo, tinham sido expulsos do apartamento em que viviam 5 pessoas para ser ocupado por um comissário bolchevique mais a sua mulher e dois filhos. O meu pai e família foram viver numa pequena casa térrea de um amigo alemão em que sete pessoas dividiam entre si dois quartos e uma pequena sala com lareira. A casa estava situada mesmo em frente ao anterior prédio em que habitavam, pelo que o meu pai via os filhos do comissário brincarem com os seus brinquedos e vestirem algumas das suas roupas, já que o comissário só deixou levarem a roupa que vestiam mais qualquer coisa de muito pouco.

Félix terá passado depois à vida civil, mas a minha família nunca mais soube dele. Talvez tenha sido fuzilado pela Tcheka dirigida por Dzerjinski, o chefe da polícia política, que liquidou centenas de milhares de burgueses e oficiais do antigo exército russo ou não. Pelo menos um irmão do meu avô ficou na Rússia e parece que fez carreira como tradutor e funcionário de vários serviços do Estado. Um dos seus filhos ou neto trabalhava no Instituto de Relações Internacionais e não o conheci porque quando frequentei um seminário nesse Instituto porque um tal Dellinger estava de férias.

Na altura em que visitei Moscovo, nos tempos de Brejnew, explicaram que a condição para a sobrevivência nos tempos de Iossif Djugashvili era ser fiel ao partido, mas evitar mostrar muita inteligência ou capacidade para subir a algum cargo mais ou menos superior. Como na tropa, não dar nas vistas, já que a renovação dos quadros era sempre feita frente a pelotões de fuzilamento ou em longas estadias “turísticas” na Sibéria.

O meu pai, o irmão e a irmã mais a minha avó ficaram em Novatcherkass convencidos que a influência de David Bronstein servia de proteção e assim aconteceu até 1925, apesar de que o meu avô tinha nascido num cidade ex-alemã que ficou integrada na República Tcheco-Eslovaca e é sabido que o exército branco russo foi formado a partir das tropas checas que tinham desertado do exército austríaco e resolveram lutar contra os bolcheviques, mas quando se formou a sua nação, abandonaram a luta para ajudarem o exército vermelho com a promessa de irem para o seu país e em 1925 ou 1926, o meu avô arranjou passaportes checo para poder sair da já União Soviética que queria manter boas relações com todos os países com populações eslavas e a conselho de amigos, pois a zanga de Iossif Djugashvili contra Liev Bronstein foi mortal e todos os judeus e amigos de judeus foram expulsos do partido e muitos fuzilados ou obrigados a irem trabalhar para a Sibéria ou nos campos ao longo dos rios Don e Volga. Foi nesses campos que os nazis os apanharam na II. Guerra Mundial e os mataram, apesarem de serem pessoas cortadas de todas as informações vindas do exterior e que nada tinha a ver com alemães ou outras nacionalidades. Curiosamente, salvaram-se aqueles que Djugashvili tinha deportado para a Sibéria pouco antes da chegada dos nazis que avançaram tão depressa que não permitiram aos órgãos policiais fazerem a deportação de todos. O meio judeu Hitler estava convencido que o chamado bolchevismo ou comunismo era judaico, apesar das perseguições de Iossif Djugashvili e este julgava que aqueles judeus mais os chamados alemães do Volga e do Don que cultivam as terras desde os tempos da Catarina a Grande iriam juntar-se aos alemães para lutarem contra o seu regime.

A família do meu pai pôde assim sair da Rússia com a roupa que vestia e umas pequenas maletas e nem as alianças de casamento puderam levar e foram instalar-se em Dresden até ao dia 13 de Fevereiro de 1945 em que os ingleses queimaram vivos todos os meus familiares menos o meu pai que estava numa frente de batalha na Finlândia e a minha avó que cuidava das crianças de uma aldeia de refúgio numa floresta perto da cidade.

 

 

publicado por DD às 19:39
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