Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

O Regresso de Krug - II

      

 

 

      Entraram na cervejaria/café Kampinski, sentaram-se e esperaram pela velhota do casaco de malha vermelho.

     - Isto já parece Lisboa - disse-lhe Maria José Krug - uma data de empregados e empregadas, vê-se bem que há desemprego e que os salários nesta parte da Alemanha devem ser bem mais baixos que na antiga parte ocidental.

      - Olha, disse Krug, aí vem a velhota do casaco de malha vermelho, acompanhada pelo tipo de chapéu, deve ser o tal especialista.

       -  Vai lá cumprimentá-los. Pergunta se é a senhora Krug e dizes que também te chamas caneca. Vai, vai.

       -  Está bem! Vou, não é preciso repetir.

       -  Frau Krug, - quase gritou Konrad Krug depois de se levantar da cadeira - eu sou o tal Krug que falou consigo ao telefone.

     - Oh! Muito prazer, este senhor é o meu cunhado, Winfried Werner, um especialista da história de Dresden. Sabe, quando vim para cá estive a pensar e a recordar cada vez mais. O seu pai, Marthin Krug, era, na verdade, meu primo, sobrinho do meu pai, brincámos juntos nos bosques situados perto da minha casa, junto ao rio Elba.

      -  Bem, apresento-lhe a minha mulher, Maria José, portuguesa.

     - Bonita, que olhos grandes e negros. - Sentemo-nos pois e mandem vir cervejas e alguma coisa para comer.

    - Você, ou posso tratar-te por tu? Dada a diferença de idades e o facto de sermos primos, em segundo grau, é certo. Sim, tenho já oitenta. Vivi aqui em Dresden, raramente saía da cidade, só depois da queda do muro e de ter deixado a loja que tinha é que passei a viajar. Fui a Maiorca, Sevilha, Granada, Barcelona, Córsega, Florença, Roma e outros sítios. Sempre para o sul, onde há sol e palmeiras, que terras tão bonitas. Que pena não me ter lembrado de ir a Portugal.

     Mas como é que foste parar a Portugal?

    -  Pela Cáritas na qualidade de órfão de pai e mãe e até de tios e tias.

    - Claro, ficaste com pouca família. Naquele bombardeamento, contei trinta e sete pessoas mortas da minha família. Entre elas, os teus pais. Aqui o Winfried é que sabe o que se passou, viveu como eu, mas estudou o assunto depois. Ele e o pai e mãe, se não me engano, foram das poucas pessoas que se salvaram dum bunker. Parece-me que nem viviam muito longe dos teus pais.

    - Sim,- respondeu Winfred - o meu pai faleceu há mais de vinte anos. Lembro-me bem dele contar toda a história, que presenciei, mas que durante muito tempo esteve como que apagada do meus espírito. Infelizmente não parece que tenha citado os nomes das pessoas da família que estavam nos abrigos próximos. Pelo menos não recordo isso.

    -  Então, a prima Marthe o que fazia na sua vida activa?

   - Ah! Fui empresária, pequena burguesa, durante toda a minha vida. Mantive a quase miserável drogaria do meu pai com um pequeno balcão a servir de perfumaria privada. Sim, apesar de ser um regime comunista, mantive o negócio até à queda do muro. Depois apareceu-me um indivíduo a dizer que era o dono do prédio e que a partir daquela data tinha de pagar uma renda de dez mil marcos. Sim, dos novos. E com a abertura dos grandes supermercados do Ocidente, o negócio deixou de ser o que era, pelo que não havia a mínima possibilidade de pagar uma renda tão exorbitante. Fechei a loja, mandei duas pessoas para o desemprego.

     - Então o regime comunista da RDA não lhe nacionalizou o negócio?

    - Não, desde que pagasse os impostos e não falasse de política, estava tudo bem. De resto, deveriam achar que seria ridículo estatizar aquilo.

    - A minha cunhada tem razão, o regime não nacionalizou muitas lojas, pequenas fábricas e explorações agrícolas, sempre produziam qualquer coisa. Oposições é que eles não queriam, nem a mais pequena crítica ao poder, para não falar em eleições livres. O Partido tinha de as ganhar sempre, reservando uns lugarzitos para dois ou três partidos associados, um deles até pretendia defender a pequena burguesia, mas não, aquilo era tudo a fingir.

     Como não podia deixar de ser, a prima Marthe tirou da carteira as fotografias dos familiares directos; do marido falecido há mais de uma década, dos dois filhos e dos três netos. Falou ainda no que faziam, um dos filhos era mecânico numa terra vizinha e o outro funcionário público em Berlim.

     - Sim, tradicionalmente, uma parte importante dos servidores do Estado, em Berlim e noutros locais, eram de Dresden. Parece que tínhamos uma tendência para a burocracia, desde os velhos tempos do rei até hoje, passando por todos os regimes políticos que por cá tivemos.

     - E então, a transformação política trouxe benefícios à população, prima Marthe?

    - Fizeram-se algumas obras e há esperança no futuro. Mas, o desemprego é muito, os jovens e até muita gente de outras idades luta com dificuldade para encontrar emprego ou manter-se no que tem. Antes, a situação era, sem dúvida, melhor quanto a empregos, mas com salários mais baixos, tudo o resto foi pior e faltava a liberdade, mesmo para atravessar uma simples fronteira, para não falar em comer uma banana ou intervir politicamente. Além disso, aquela ideia de tentar criar uma nação sem raízes próprias nem verdadeira independência não tinha sentido. Só porque as tropas soviéticas pararam aqui e não mais para lá ou para cá, tinha de haver mais uma nova nação, no papel, claro. Como as dezenas de povos da União deles, desprovidos de vontade política e, por isso, se desligaram de Moscovo logo que puderam.

    - A prima percebe de política e tem opiniões, não é verdade?

    - Fomos sempre bombardeados com opiniões políticas, nos jornais, rádio e televisão. Por isso, quer queira quer não, não posso deixar de saber algo sobre o assunto. Além disso, penso que é melhor falar de política do que da vida pessoal de uns e outros. Quando se chega à minha idade, acha-se que a vida foi tão monótona e igual à de toda a gente: casa, família, trabalho e mais nada, durante sessenta anos. Todos muito ocupados com as suas actividades e sem tempo para ninguém. A guerra, claro, foi a pior das coisas e também foi monótona, anos a fio, alarmes, abrigos, faltas de quase tudo e vitórias sobre vitórias nos jornais e na rádio quando o dia-a-dia ia piorando sempre. Fomos de vitória em vitória até ao colapso total. Recordo que um dia antes das tropas soviéticas entrarem em Dresden, os jornais ainda falavam na vitória nazi que estaria cada vez mais próxima. Eu julgava que ia viver sempre em guerra, pois aquilo nunca mais acabava.

    - Então, e o meu pai, conheceu-o bem no tempo da guerra?

    - Claro, apesar de que quando telefonaste quase me não lembrava dele; depois sim, veio tudo à memória. O Marthin sofreu muito, coitado. Vocês moravam muito no centro, numa pequena e escura travessa, a Webergasse, que ligava duas ruas mais largas. Parece que o sol nunca vos entrava em casa.

    - Não sei, a idade que tinha não dá para recordar.

   - É verdade, coitado do seu pai, foi amputado das duas pernas na frente russa, depois rastejava-se nos cotos ou numa prancha com umas rodinhas. No seio da família dizia-se que teve sorte em não ser liquidado pelos médicos militares. Nessa altura praticava-se largamente a eutanásia militar, os grandes feridos recebiam uma injecção e pronto, já não eram feridos, nem nada, poupava-se uma cadeira de rodas tão difícil de obter na época. E nunca compreendi porque razão no regime de Ulbrich não se quis falar nisso, será que também os outros exércitos faziam o mesmo?

    - Quer dizer, nunca chegaram a levar algum médico militar alemão a tribunal?

    - Que eu saiba, não. Acerca do seu pai, diziam que os camaradas da companhia foram ao hospital de campanha ameaçar que matavam o médico se o Marthin morresse. Antes do bombardeamento dizia-se isso em voz muito baixinha. Depois, com a morte do Marthin e de tanta gente, ninguém da nossa família pensou mais no assunto. Ainda me lembro dele, a andar com os cotos entrapados, arrastando-se no chão. Antes da guerra não tinha tido sorte, trabalhou no serviço voluntário dos caminhos de ferro com um salário miserável e daí a pobreza da vossa casa. Conheci-o melhor quando regressou a casa, em Dresden, poucos dias antes do bombardeamento. Tinha estado numa instalação semi-hospitalar para os feridos de guerra, mas aquilo foi evacuado com o avanço dos russos. Compreendo a razão, porque os médicos do exército matavam os grandes estropiados, deviam ter recebido ordens de cima, sim, do próprio ditador que não queria espectáculos tão deploráveis. Deve ter sido ferido em 1943, mas não tenho a certeza.

    - Acho que sim, também em Portugal, o exército tratava mal os combatentes caídos na frente. Quando morriam, era sempre por acidente. Em troca do sacrifício da vida pela chamada pátria, levavam por parte dos comandos militares uma roda de estúpidos. Morto por acidente de viação ou, pior, acidente com arma branca, nunca em combate. O jornal que eu lia, o Diário de Notícias, estava sempre cheio dessas mentiras, todos os dias durante anos.

    - Mas, senhor Werner, então como foi o bombardeamento e como foi possível morrer tanta gente?

    - Antes de ele falar, deixe-me dizer que o Marthin e a mulher foram queimados vivos pelas bombas incendiárias dos ingleses no abrigo em que estavam. Ouvi dizer por outras pessoas de família que a sua mãe não quis deixar o Marthin no bunker, pois amputado como estava não podia correr pelas ruas a fugir do fogo.

    - Foi assim, senhor Werner?

   - Claro, senhor Krug, ou primo afastado Krug. A destruição de Dresden foi um dos últimos bombardeamentos civis da guerra. A nossa cidade era linda, monumental, tanto na parte antiga como na mais moderna. Foram três os grandes ataques a Dresden.

   - Mas, senhor Werner, porque razão os ingleses destruiram a cidade quando os seus aliados russos estavam em vias de entrar nela?

   Sim, não era nos bairros civis que iam travar uma batalha de resistência? Até tinham chegado à cidade milhares de feridos, vindos dos diversos centros de acolhimento dos sudetas e outros locais em vias de serem ocupados pelo exército vermelho. Como o meu pai, por exemplo.

    - Eu tenho a minha teoria, ou antes, as minhas teorias sobre todos aqueles acontecimentos, sobre a guerra mesmo.

     - O meu cunhado Werner tem sempre teorias, sabe tudo, é um intelectual, Konrad, e escreveu um livro sobre Dresden, intitulado simplesmente "Ou". Também escreve artigos e contos que publica um pouco por toda a parte. Gosta de títulos curtíssimos. Recordo que escreveu um artigo ou conto, ou uma coisa e outra, na revista "Akzente" com o título "E". Os seus contos têm sempre um título muito curto, uma conjunção.

     - A minha cunhada exagera um pouco, excepto nisto dos títulos, já utilizei a palavra "Sim" e "Não" para título e um dia escrevi algo com o título "...", aspas e três pontinhos, assim mesmo. São brincadeiras, não são verdadeiros actos de intelectual.

    - É engraçado, isso de títulos curtos, nunca pensei nisso. Mas, afinal, o que sabe do bombardeamento e do desaparecimento da minha família?

    - Sei sim, por triste que seja, não vou deixar de lhe contar tudo como foi. De qualquer modo, ao fim de tantos anos, espero que esteja habituado à triste verdade e não o emocione muito.

     -  Não, nem sou pessoa emocional, pode dizer tudo.

    - Óptimo! Mas, primeiro e em resposta à sua pergunta sobre as razões do bombardeamento. São óbvias, os ingleses não queriam que os soviéticos encontrassem uma cidade alemã intacta. Não queriam que os russos se enchessem ainda mais de jactância, dizendo que eles sozinhos tinham ganho a guerra. O objectivo Dresden era irrelevante para o fim da guerra. E sabe-se hoje que a seguir ao bombardeamento de Dresden, os "Lancaster" ingleses chegaram mesmo às proximidades de Praga para arrasarem também a capital checa. Só que, os russos já estavam dentro da cidade. Há documentos dos antigos arquivos soviéticos que dizem o contrário. Estaline pediu muitas vezes aos aliados para bombardearem todas as cidades e vilas junto à frente em que lutava. Provavelmente para reduzir a capacidade de luta do inimigo nazi e também para que os seus soldados não vissem cidades intactas e não pudessem fazer comparações.

 

Autor: Dieter Dellinger

publicado por DD às 17:23
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