Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

O Regresso de Krug - I

    

 

 

     Konrad Krug desembarcou na Estação Central da Cidade, acompanhado pela mulher, Maria José, sem sentir qualquer emoção especial. Contudo, devia estar tomado por uma chuva de emoções, ou não acabava de chegar enfim a Dresden, a cidade que o viu nascer, a ele, aos irmãos, aos pais e avós. As suas raízes deveriam estar aí, algures enterradas, a puxar ao sentimento ou à emoção.

     Mas não, estafado por uma longa viagem num comboio ronceiro que teimava em parar um pouco por toda a parte, Krug não se entusiasmou com o aspecto lúgubre da velha estação e depois cá fora, na Praça de Viena, sentiu-se confuso. Ao telefone disseram-lhe que o Ibis era aí mesmo em frente e qual o seu espanto quando vê três hotéis iguais, todos com a mesma placa em cima. E perguntou à mulher, mas para que hotel vamos afinal? Subitamente recordou as palavras da telefonista repetidas várias vezes, - o terceiro edifício ao sair da estação, o terceiro ..... - Então é isso, telefonei para o terceiro e é para lá que vamos.

 

      A praça deserta ao sol quente de um sábado de Agosto separava-os dos hotéis na Prager Strasse, edifícios em forma de caixotes atravessados relativamente à rua pedestre que tinha uns repuxos ao fundo e muitas lojas modernas e armazéns retalhistas dos grandes grupos multinacionais que já se tinham assenhoreado do novel país integrado no pensamento único. O átrio do hotel estava transformado num misto de museu e loja de bicicletas. Algumas muito antigas ornamentavam o conjunto com outras muito modernas à espera de quem as alugasse para ir à descoberta da cidade sem poluir o ambiente. Bicicletas negras e curvas de quadros muito grossos. - Devem ter vindo da Sibéria - pensou Krug para com os seus botões, - não, talvez não, retorquiu depois para consigo, são demasiado novas para isso.

 

     Krug ficou deveras ofendido com o recepcionista que desatou a falar-lhe em francês, como se não soubesse alemão e na língua teutónica respondeu que em primeiro lugar deveria falar a língua dos nativos que era a sua também. "Ich bin hier auch ein Eingeborener". Também sou um indígena aqui. O empregado fez uma certa cara de parvo e balbuciou qualquer coisa como um pedido desculpa.

     Antes de sair à descoberta da cidade, Krug resolveu consultar a lista telefónica para encontrar alguns Krug, primos, tios ou seja o que for que lhe pudessem informar o que se passou com a sua família. Principalmente queria um relato vivido daquela noite fatídica e tão distante no tempo, a do horrível holocausto de 14 de Fevereiro de 1945 provocado pela queda de 3 mil toneladas de bombas num semicírculo restrito com pouco mais de 2 mil metros de perímetro e que provocou a morte de mais de 35 mil habitantes da cidade em vias de ser conquistada pelos soviéticos. A frente de batalha estava então a poucos quilómetros. 

 

     - Com um nome como o meu, Púcaro ou Caneca, não deve haver muita gente, disse à mulher enquanto procurava o seu apelido na lista.

     - Sim, deves ter tido um ascendente muito ligado à cerveja, com certeza, para lhe porem essa alcunha que depois terá dado em apelido, - respondeu-lhe a mulher Maria José.

     - Talvez, respondeu Krug, consultando a lista telefónica. Sabes, em português o nome alemão não quer dizer nada e acabo por me imaginar um personagem literário, o K do Kafka ou o Kurtz de Joseph Conrad, principalmente este com quem partilho o seu apelido que para mim é nome, valorizado literariamente com o K.

     - O nome não é muito comum, por isso, as pessoas com o meu apelido devem ser parentes. Tenho familiares em Dresden e não sei porque não os procurei há mais tempo, talvez porque não desejava visitar um país controlado por uns gajos que desconfiam de tudo e de todos e podem encanar seja quem for.

      Olha! Está aqui uma Marthe Krug, mora na Loschwitzer Strasse, vou telefonar.

 

     Da cidade propriamente dita, Krug não recordava quase nada, saira aos cinco anos de idade. Mas, mesmo antes, não estivera sempre em Dresden. Lembrava-se vagamento do jardim-escola, um grande pavilhão de madeira nas traseiras de uma escola primária, todo enfeitado com bandeiras vermelhas com a cruz suástica. Do jardim da escola, Krug lembra uma festa de qualquer coisa com muitos alunos a fazerem ginástica e até cavalos em provas de volteio. Também recorda a horta do Jardim Escola onde os pequenos alunos aprendiam os rudimentos da agricultura. A escola nem se situava em Dresden, mas algures nos arrabaldes, para onde foram levadas muitas crianças da urbe para evitar perecerem nalgum bombardeamento.

     Da casa paterna pouco ou nada ficara na memória de Krug, só algo da casa na aldeia e do pão preto ao pequeno-almoço. Mais do que o ambiente e as pessoas, o pão preto ficou para sempre gravado na memória. Do bombardeamento recorda apenas uma enorme nuvem de fumo vista ao longe a partir da aldeia onde vivia. Depois as senhoras da Cáritas alemã, a saída para o oeste, Frankfurt, e daí para Portugal.

     Porquê a vinda para esse país tão ocidental?

    Konrad Krug nunca conseguiu explicar. Muitos órfãos de Dresden foram levados pela Cáritas para Portugal. Provavelmente, o ditador Salazar queria germanizar um pouco o seu povo, a fim de o tornar mais obediente às suas ideias sobre autoridade e hierarquia, ou Portugal terá sido o único País do Mundo que deu guarida aos orfãos alemães em 1945. 

     Krug veio para a casa de uma família lusa que morava numa espécie de quinta próximo de Almada. Viveu aí alguns anos até ao falecimento do velho Sr. Magalhães, passando depois para um lar da Cáritas. Krug cresceu no ambiente criado por um velho fanático do nazi-fascismo que lentamente foi afastando-se daquela ideologia para adoptar um pensamento mais democrático, quase do reviralho como se dizia então. O doutor Magalhães faleceu antes mesmo do ditador cair da cadeira. Nesse dia histórico, já Krug trabalhava no escritório de uma empresa alemã em Lisboa, sem saber ao certo quem era e o que deveria fazer na vida.

     Muito a custo conseguiu a ligação e chamou a senhora Marthe Krug. Foram longas as explicações e os pedidos para desculpar o incómodo, mas queria encontrar alguém da sua família.

   - Sim, o meu apelido é Krug, nasci em 1929, os meus pais faleceram no bombardeamento, terão sido seus parentes? Martin Krug e Katja Krug, de solteira Lange-Müller. - É provável, respondeu a senhora, - sabe, eu tenho 80 anos de idade, e naquela altura, os Krug de Dresden estavam todos relacionados entre si. Mas, se quiser venha a minha casa e, entretanto, vou ver nos papéis velhos e fotos. Assim de repente, posso dizer que éramos primos, o Marthin, sim, lembro-me dele coitado, morreu tão novo. Já não tinha pernas, perdeu-as na frente oriental.

     - Mas, se quiser, podemos ir almoçar juntos, - alvitrou Krug, que não queria intrometer-se na casa da velhota que nem sabia ao certo se seria uma sua parente. Além disso, como sucede com a maior parte dos lisboetas, perdeu o hábito de contactar alguém na sua própria casa, preferindo o chamado terreno neutro, café ou restaurante.

     - Sim, respondeu-lhe Marthe Krug, nestes meus oitenta anos, resta-me o prazer de ir de vez em quando comer qualquer coisa a um restaurante ou cervejaria. - O meu local preferido é a cervejaria Paulanas situada no edifício do Hotel Kampinski. Mas, olhe, apesar da localização não é caro, não é propriamente um lugar de luxo e nada tem a ver com o hotel. Fica perto da Frauenkirche, ou antes das suas ruinas, pois o templo nunca chegou a ser reconstruído, ainda andam a juntar dinheiro para isso. Levo um casaco de malha vermelho e, talvez, vá acompanhada pelo meu cunhado, Winfried Werner, que sabe tudo sobre a cidade, até escreveu um livro e vários artigos.

     - Pois está bem, irei lá, tanto mais que é domingo, ainda não é hoje que vou começar o "trabalho" de ver a cidade, o museu Zwinger com os seus Canaletos e não sei o que mais.

 

     Krug e a mulher pediram no hotel que lhes explicassem o caminho para o tal restaurante Kampinski. Não era difícil, tudo a direito pela Praggerstrasse até à Praça do Velho Mercado, a Altmarkt, e daí em frente pela rua das galerias à Praça do Novo Mercado e pronto estava-se em frente ao Kampinski e às ruínas da velha Igreja das Senhoras, a Frauenkirche. 

    Atravessaram a pé a Praça do Velho Mercado. Krug esperava ver no real algo pintado por Canaleto no seu célebre quadro da cidade que mostrava uma das mais belas praças renascentistas de sempre, mas nada. Tudo aquilo foi destruído e, ainda hoje, não passa de um local aberto com edificações sem significado, a não ser uma igreja a um canto, um pouco reconstruída com a traça da época.

     - Razão teve o então Rei Augusto da Saxónia e Polónia, grande construtor de Dresden, quando convidou Canaleto para pintar a sua cidade. Foi como se tivesse adivinhado que aquilo tudo seria um dia reduzido a pó e cinzas, disse Krug para a mulher que retorquiu: - Espero bem ver esses célebres Canaletos de Dresden que, segundo o guia artístico de Dresden, mostram a cidade renascentista no mais pequeno detalhe como nunca antes uma cidade fora pintada.

     - Sabes? Uma vez ao ver uma reprodução do Canaleto da Praça do Mercado, lembrei-me de escrever um conto que fosse a história de uma cidade antiga que resolvera abandonar a nossa civilização tecnicista. Na parte antiga tudo o que fosse moderno seria banido, as pessoas passavam a vestir-se à antiga, andar de tipóia ou a cavalo, cozinhar com lenha ou carvão, não ter luz eléctrica, mas tão só velas ou lamparinas a óleo, fiavam e teciam os seus têxteis e só se alimentavam de alimentos orgânicos, isto é, produzidos a partir de sementes orgânica que uma vez germinadas originariam plantas hortícolas sem uso de adubos e pesticidas. Os turistas visitavam a cidade a pé e adquiriam produtos antigos e naturais à população que recusava a modernidade.

     Rapidamente, o casal Krug chegou ao edifício do Hotel Kampinski e encontrou a cervejaria Paulanas. Mas, antes ainda foram ver as ruínas da Frauenkirche. Krug apanhou uma pedra e queria guardá-la como recordação, mas resolveu atirá-la ao ar em protesto contra os bombardeamentos da cidade e todos os outros perpetrados pelas forças aéreas nas guerras do Século. As ruínas estavam rodeadas de uma cerca metálica em rede, pelo que Krug se limitou a apanhar uma pequena pedra do passeio que provavelmente nada tinha a ver com a igreja destruída e depois apanhou outra para protestar noutro local que não sabia ainda onde.

      Com a pedra na mão, Krug entrou no Paulanas e qual não foi o seu espanto. Quase metade das mesas estavam ocupadas por homens e mulheres vestidos à antiga, todos muito maquilhados e ostentando perucas à moda dos tempos de Luís XIV.

     - Estão a concretizar o meu conto sobre a cidade de Canaleto, pensou para os seus botões. A mulher disse-lhe logo: - olha, os tipos vão regressar ao passado como tinhas imaginado. - Não, não pode ser, deve ser uma trupe teatral, ou devem ser da Ópera aqui perto, não acredito que o destino possa ter adivinhado os meus pensamentos e pô-los em prática precisamente quando chego à cidade.

 

 

 

Continua em "O Regresso de Krug II e III"

Copywright: Dieter Dellinger

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publicado por DD às 17:43
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