Domingo, 8 de Fevereiro de 2004

A Pastilha Elástica




A pastilha elástica, - dizia o professor de Semiótica e coordenador dos seminários de Exegese e Hermenêutica ao seu auditório – desenvolve a inteligência e não só.


Fez uma pausa, olhou lentamente para as muitas caras que o contemplavam com um olhar quase sempre atónito, apesar de habituadas a ver no professor uma figura descontraída nos seus jeans e sapatilhas negras com a barba geralmente atrasada de alguns dias. Parece que ele fazia a barba uma vez por semana, mas ninguém se lembrava em que dia, talvez até variasse em função das contingências da vida privada do professor, um tipo característico, quase alto, um pouco careca e sempre com aquele olhar de meio míope ou algo do género que nunca alguém seria capaz de classificar ou traduzir por palavras.


O professor tentava justificar-se pois envolto nos seus pensamentos entrara na sala a mascar a pastilha, ou antes duas pastilhas longas, com sabor a morango e sem açúcar, que mal o deixavam balbuciar as palavras. Vira-se aflito, não queria deitar a pastilha para o chão, como o teria feito na rua antes de entrar na Universidade. Não, aquilo seria um péssimo exemplo e, em termos comportamentais, desqualificava-se, mas onde deveria colocar as pastilhas já bem mastigadas. Ainda pensou, nos seus tempos de jovem não teria problemas, o mais engraçado era colá-las bem na cadeira do professor de maneira que este as levasse depois agarradas ás calças, ou então, na impossibilidade de conseguir tal proeza, colocava-as em qualquer sítio, na parede, no tampo da secretária, no vidro da janela e talvez tentasse atirá-las ao teto para ficarem aí a lembrar que passara por aquela sala de aula. Ainda sorriu um pouco ao pensar nisso enquanto se sentava na secretária frente aos alunos e tirava uns apontamentos da pasta. Por fim, recorreu a um método mais simples, agarrou no lenço e levou-o ao nariz, primeiro, e à boca depois, como se estivesse a assoar e limpar a boca. Disfarçadamente cuspiu as pastilhas para o lenço e enfiou-o rapidamente no bolso das calças de ganga azul, as mais coçadas e rotas do seu parco guarda-roupa.


- Professor! Queres outra pastilha? – Perguntou com ar trocista um dos alunos da primeira fila, um tipo com uma grande cabeleira que lhe tapava a testa e os olhos, as orelhas e o pescoço.


O exegeta e semiólogo aceitava o tratamento por tu pelos alunos, agradecendo só que o não mandassem a algo mal cheiroso, e que se criassem relações de empatia susceptíveis de solidificarem uma amizade entre todos e com a filosofia da linguagem.


- Não, obrigado, pá! - Respondeu-lhe enquanto tentava recordar o nome do aluno, mas nada, ainda estava no começo do ano escolar e não colocara à sua frente a folha com os nomes dos aluno e a respectiva posição na sala. Só tinha uma folha com os nomes por ordem alfabética. O que era pouco e não o deixava resolver o seu maior problema como professor; memorizar o nome dos seus alunos, apesar de fazer um esforço para tal, mas nunca tivera a coragem de pedir fotos aos seus alunos para as colar numa folha com os respectivos nomes, como é hábito no ensino não universitário. Sentia que era uma vergonha para o hermeneuta e exegeta de grande calibre, como se considerava, não fixar imediatamente o nome dos alunos quando ensinava o sentido das palavras, a interpretação dos textos como o deus intérprete grego Hérmes, o hermeneuta. Mas, enfim, filósofo era, mas de fraca memória e naquele dia iria ler mais umas páginas do “Tractatus Logico-Philosophicus” do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein, figura dominante do neo-empirismo do Século passado, nascido em Viena em 1889 e falecido em Cambridge em 1951.


- A aula deveria debater o sentido da “proposição” na obra de Wittgenstein, nomeadamente na continuação dos enunciados do filósofo britânico Bertrand Roussel e grande amigo de Wittgenstein.


A leitura começou a ser feita em inglês, pois da obra não foi feita ainda tradução para o português. O hermeneuta e semiota iniciou a leitura com uma frase crucial de Wittgentstein. “Toda a filosofia é crítica da linguagem”, daí pois ter colocado à discussão outra das frases célebres do austríaco; “A língua coloquial é parte do organismo humano e não é menos complicada que este é” e “é humanamente impossível conhecer a lógica da língua”, continuando: “A língua veste o pensamento, mas de maneira a que da forma exterior do que se veste não se pode inferir a forma do pensamento que é vestido”.


“A frase determina um lugar no espaço lógico” leram os alunos para continuar: “O ponto geométrico e o ponto lógico coincidem com o facto de ambos serem determinantes de uma realidade existente” e “apesar de a frase ou proposição só poder determinar um lugar do espaço lógico, a totalidade do espaço lógico é dada pela mesma frase”.


“... a frase salienta-se como resultado de uma operação que a faz resultar de outras frases (bases da operação)”.


“A operação só pode ocorrer onde uma frase resultar de outra por uma forma logicamente significativa”.


Um dos alunos lia o texto quando o exegeta levantou-se repentinamente da cadeira e elevou os dois braços e perguntou quase aos berros. Que significado têm estes enunciados de Wittgenstein? Quem sabe, quem pode dizer algo?


Os estudantes assustaram-se e ficaram mudos perante a atitude repentista do mestre. Ninguém respondeu e poucos estavam mesmo a ver o significado das palavras de Wittgenstein.


- É natural que ninguém saiba, - respondeu o hermeneuta, continuando, - pois o próprio Ludwig Wittgenstein nunca chegou a vislumbrar o alcance e o significado absoluto dos seus textos e nunca pensou que algum exegeta viesse a descobrir, muito anos depois, o verdadeiro significado das elucubrações do teórico da linguagem.


- E porquê? O seu Tratado foi publicado em 1921 e só muitos anos depois num texto quase escondido iniciou o processo que nos levou ao entendimento da filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein


- Reparem vocês. No Século passado, em 1976, Richard Dawkins publicou a sua obra magistral, sabem qual foi?


- Ana, a inteligentíssima Ana, respondeu logo; foi “O Gene Egoísta” e Dawkins é biólogo, não sei o que tem ele a ver com a Teoria da Linguagem de Wittgenstein?


- Ter, não tem, quer dizer, directamente não há implicação com a obra daquele que poderá ser visto daqui a anos como um novo “Charles Darwin” do Pensamento do Século XX., já que explanou aí a ideia inicial dos chamados Memes do pensamento, permitindo ver o fenómeno cultural como evolucionista também, tal como a vida. De alguma forma, ambos os autores inseriram nos seus textos a ideia de que o pensamento funciona em termos de memes, unidades de conhecimento e raciocínio susceptíveis de habitarem os nossos cérebros e de se replicarem como acontece com os genes materiais do tecido biológico. Só que Dawkins não o fez como tema central da sua obra, mas quase como acessório, dedicando apenas 16 páginas ao tema. Talvez por isso, hoje ainda, a cultura universitária não reconhece devidamente a existência de memes, mas devia fazê-lo, já que uma esmagadora quantidade de textos filosóficos mesmo muito antigos, podem ser lidos à luz da teoria mémica e serem como tal entendidos. Reparem, a “frase” ou “proposição” de Wittgenstein não é mais que um genoma mémico e a operação lógica que o filósofo refere é a replicação dos genes.


- Os genes biológicos são uma extraordinária estrutura molecular que transportam a informação necessária à construção das proteínas que vão edificar o corpo animal ou vegetal de toda a vida na natureza. Com isso, constroem igualmente réplicas para voltar a produzir novos organismos sensivelmente iguais aos anteriores mas susceptíveis de pequenas alterações ou mutações que podem ser aprovadas pelas condições ambientais como de sucesso, logo de evolução.


- Mas que tem isso a ver com o pensamento? Perguntou um tal de Diogo da Cunha sentado na segunda fila.


- Analogia, pázinho, por analogia é que vemos no pensamento um processo de replicação dos genes mentais ou memes. E é assim, reparem na evolução da criança até ao domínio da palavra. O seu cérebro quase vazio absorve memes visuais na forma de objectos e pessoas para depois os identificar pela palavra e, por fim, passar a relacionar o objecto, substantivo, com o verbo e os nomes predicativos para se tornar numa proposição, num meme de memória ou mente e gene. Os memes ocupam o seu espaço vital nos circuitos neuronais do cérebro na mais completa independência de uma necessária realidade material. Eles tornam-se na realidade e determinam a evolução do próprio sistema biológico do homo sapiens. Dão-lhe instrumentos úteis como a linguagem e o intelecto, levam-nos a que o género homo conquiste o planeta e invente máquinas para iniciar a conquista do espaço. Os memes de sucesso replicam-se de tal maneira que deles acabará por ser o espaço interplanetário e galáctico.


- Para Susan Blackmore que escreveu “The Meme Machine”, o cérebro não passa de um biótopo húmido para proporcionar a replicação dos memes. De todos os memes, tanto nas línguas nacionais como estrangeiras. Reparem a facilidade com que adoptamos termos estrangeiros numa significação causal do processo operativo onde os fomos buscar. Fundamentalmente um meme veicula uma ideia relativamente simples que pode ser transmitida de uma mente para outra milhões de vezes. E não se trata sempre de um meme simples, mas de uma espécie de genoma como todo o ensinamento das religiões que de vários modos se desdobram numa multitude de memes que vão originar a fé, ou a crença, termos tautológicos e, como tal, desprovidos de sentido lógico no entender de Wittgenstein. Fé ou crença são tautologias sinonimais de conhecimento, abrangendo o significante de fidelidade e convicção. As tautologias estão fora da lógica na opinião do empirista da Escola de Viena. Efectivamente, se Deus existe sabe-se e se não existe não se sabe, não há que escolher o que é, o que existe ou o universal, por via de uma convicção ou fé, sinónimos parciais de saber ou conhecer. Eu não acredito nem tenho fé, mas sei que Deus existe; disseram-me na catequese, ou, pelo contrário, sei que não existe ou que não há nada que prove a sua existência ou sei que Deus morreu. Nietzsche escreveu isso.


- Pázinhos! O problema existe porque o cérebro nada sabe à partida, mas os memes que o povoam acabam por ser toda a sua sabedoria. Assim, uma pessoa quando diz que acredita em Deus, são os memes que lhe dizem existir Deus. Dizem-lhe também que um jovem nazareno afirmou ser filho de Deus e de uma virgem engravidada pelo Espírito Santo, tal como 570 anos antes dessa “traição” matrimonial, na ilha de Samos, Apolo, o filho de Zeus, desceu à terra para fecundar a bela Pártenes, mulher de Mnesarcos. A bela de Samos gerou assim um deus entre os homens, Pitágoras, o pai da filosofia, o reformador do Orfismo e portador de um novo roteiro espiritual para os homens, enquanto Maria, a mulher do carpinteiro, gerou alguém que quis reformar o judaísmo, acabando por fazer com que os seus discípulos fundassem uma nova religião.


- Reparem aqui, dilectos discípulos e companheiros de aula, - disse o exegeta – os deuses engravidaram mulheres terrenas, ou antes os memes dessas histórias engravidaram durante milénios cérebros humanos que fizeram replicar essas histórias até aos nossos dias e continuarão a fazê-lo por um largo futuro. Os sistemas neuronais acabam por ser umas autênticas “barrigas de aluguer” para as ideias, portanto os memes, os quais reflectindo as condições materiais das sociedades não deixam de ser produto da criatividade original da inteligência humana.


- Sabem, pázinhos! Claude Levi-Strauss escreveu que “não queria mostrar como os homens pensam os mitos, mas como é que os mitos são pensados nos homens, mesmo sem o saberem”. E sem saber da existência dos memes chegou ao estruturalismo, também mémico na sua essência. É disto que se trata, os memes vestem-se de mitos para assim parasitarem os cérebros humanos que são como as células que albergam os vírus parasitas que obrigam a mecânica celular a funcionar para eles. Claro, a relação causal é inversa, os memes existem porque os sistemas neuronais os criaram como tal, independentes do seu criador e permitiram que se replicassem eternamente. Talvez seja uma questão de investimento em criatividade. A verdadeira criação é demasiado consumidora de tempo e energia para que a rede neuronal seja criadora de tudo quanto pensa. Que tipo de civilização poderia existir se cada um de nós tivesse que inventar de novo todos os processos e mecanismos que usa.


- Estamos quase no fim da aula, pázinhos, querem dizer algo ainda.


- Porque não convences o Conselho Administrativo a fundar aqui uma cadeira de “Memética Filosófica”. – perguntou-lhe o Gustavo.


- É boa ideia pázinho, mas talvez não a chamasse filosófica, já que isso é também uma tautologia, pois a “Memética” é, em si mesmo, filosofia, entendida como tendo como função distinguir o pensável do impensável. Pensar o pensável é a tarefa fundamental da filosofia, entendido aqui o pensável como integrante dos sistemas lógico-racionais..


- Professor, pá! Afinal qual o motivo porque disseste no início da aula que “a pastilha eléstica desenvolve a inteligência e não só.”


- Estão a ver, pázinhos! O gajo está a replicar o meu meme. A mastigação quase ruminante da chamada goma de mascar parece que provoca um aumento da irrigação cerebral na zona de Broca onde pululam os memes da fala, provavelmente integrados nos neurónios e saxónios dessa zona. Por estarem mais irrigados funcionam melhor, favorecendo a inteligência já que o modelo codificado da fala é estruturante da própria inteligência. Resolver o problema onde colocar os pés para chegar a certo local é o mesmo que procurar a palavra certa para exprimir a ideia mémica que uma dada percepção faz surgir nos ápices neuronais, trata-se de inteligência ou seja, relações entre memes de distinção, estratégia e associação. Os primeiros identificam por divisão uma dada realidade, os segundos chamam à colação memes susceptíveis de identificar o objectivo ou efeito a alcançar e os últimos associam-se numa espécie de programa global da nossa cultura e inteligência. Para além disso, a pastilha mantêm-nos acordados e aguça a atenção.
- Pázinhos! Não sei se isso é verdade, mas bonito é e os memes não precisam de ter algo a ver com a verdade. Ouvi isso num canal alemão de televisão e nem cheguei a fixar o nome do respectivo autor. Só o meme passou para o meu cérebro através do satélite “Eutelsat” e agora está nas vossas cabecinhas. Adeusinho, até para a semana que vem.



fim



publicado por DD às 18:16
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