Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2016

A Morte de Cristo em Verdun

 

 

 

 

 

A aldeia de Gremilly fica no extremo sul da floresta de Spincourt a poucos quilómetros de Verdun .

O terreno, um pouco inclinado, vai descendo para o sul para encontrar quase de frente a pequena vila de Ornes. Ambas totalmente destruídas pelos furiosos bombardeamentos daqueles dias negros de fumo e pó de Março de 1916.

 

Uma e outra localidade estão separadas por uma planície de uns 3 a 4 quilómetros de largura. Um terreno de morte eriçado de arame farpado e profundas trincheiras em ziguezague.

As linhas alemãs a cargo do 5º Exército sob o comando do príncipe herdeiro do Império Germânico, o Kronprinz Wilhelm und Knobelsdorf , aproximavam-se aí perigosamente da linha francesa guarnecida pelo 2º Exército do Marechal Pétain .

Na madrugada anterior ao dia 5, duas companhias chegaram dos respectivos bivaques. A Gremilly , chegou a Companha 128 do Regimento de Infantaria do Brandenburg , enquanto a Ornes chegou a companhia 197 do RI de Chartres. Descansaram e organizaram-se durante todo o dia.

Na manhã seguinte, ninguém tomou o pequeno almoço, pois foram logo para as missas campais, ainda muito cedo e cheios de frio. A manhã estava muito fresca, mesmo fria, sob um vento que iria anular os efeitos de alguns raios de sol a anunciar a Primavera. Andorinhas e outros pássaros não apareceram ainda a esvoaçar por entre as silvas e as árvores ou os beirais das casas campestres, então quase todas destruídas. Não apareceram e não viriam esse ano, assustadas pelo contínuo ribombar da artilharia pesada a formar um tenebroso ruído de fundo cada vez mais contínuo e cavado já que os estrépitos individuais dos obuses não se distinguiam mais uns dos outros.

 

O capelão Teufelsman rezou com seriedade e quase compungido a missa em latim. Seguiu-se a comunhão, todos comungaram. Não houve cânticos, apenas uma distribuição de crucifixos metálicos e uma bíblia a cada um, uma bíblia de bolso que, segundo o capelão, pode salvar vidas no campo de batalha.

Hans Christoff , um jovem de 19 anos, recebeu o crucifixo e pô-lo logo ao peito e a bíblia que enfiou no bolso superior do dólman . Esperava obter a protecção Divina na batalha que se avizinhava. Durante a missa ouviu com atenção e seriedade a homília que o capelão Teufelsmann pronunciou. Uma homília intensa com uma ampla descrição do pesado fardo que é viver num curto espaço de tempo, salientando que a vida não passa de uma etapa no percurso para o paraíso ou para o inferno.

Falou daquele Além para onde vão as almas boas e disse: -Nós lutamos por Deus e pela Pátria fuer Gott und Vaterland ). Lutamos contra os anticristo , irmãos e camaradas. Eles, os inimigos, são impuros, são uma república. Por isso, são dirigidos por um presidente eleito pela ralé. As prostitutas, os proxenetas, toda a gente da ralé, elege em França um presidente que não pode deixar de ser um anticristo , pois meus filhos, Deus não quer um presidente eleito pelas prostitutas. Deus não sentou lado a lado com os mesmos direitos e deveres um bispo, um cardeal e uma prostituta e o seu proxeneta. Nós somos governados pela sagrada família do nosso Kaiser Wilhem e pela Santa Imperatriz. O Kronprinz , o nosso futuro monarca, comanda o nosso exército. Que maior glória e honra pode um alemão ter do que ser comando pelo Kronprinz em pessoa? Vamos partir hoje para a batalha, a maior de todas as que alguma vez a Humanidade viu e que se desenrola há meses. Aqui vamos mostrar a nossa coragem, vamos correr com os franceses e chegar num ápice a Verdun . Nos nossos peitos sentiremos o bater dos nossos corações exultantes de alegria pela glória que nos espera. Não se esqueçam, temos Deus do nosso lado e Deus oferece a glória eterna a todos os que lutam corajosamente pela Pátria.

O Cristo que vos distribuí é a vossa Salvação, mas reparai, irmãos! O inimigo parece que usa um Cristo igual ao nosso, mas não é verdade. Ao longe parece igual, mas ao perto é um Belzebus a fingir de Cristo, tem cornos na cabeça e língua de fogo. Cuidado pois, se virdes um Cristo no inimigo que isso não vos impeça de executar com toda a celeridade a missão que vos foi ordenado, mesmo que se trata de um ataque à baioneta.

 

A poucos quilómetros dali, o capelão Jean Lucifer rezava umas orações depois de ter dado a comunhão a todos os soldados da companhia. O sacristão militar ajudou-o também a distribuir crucifixos metálicos e umas pequenas bíblias de bolso.

Jean Christophe silencioso recebeu a comunhão e pendurou de seguida o crucifixo que ficou a brilhar ao peito. Ouviu a homília do capelão que disse: - Nós lutamos por Deus e pela Pátria pour Dieu et la Patrie ). - Por Deus lutamos porque o inimigo é o anti-cristo , irmãos. Eles são os hunos das estepes asiáticas, há séculos que procuram destruir a civilizção cristã.

Sim! Já destruíram uma vez a Roma de Cristo depois do Concílio. E agora, os hunos estão na nossa sagrada terra a conspurcá la com o seu sangue. Não conseguirão destruir Cristo. Eles são os filhos de Belzebus , os irmãos do Diabo, parecem loiros, mas são asiáticos e maus, usam ao peito imitações de Cristo na Cruz com cornos e língua de fogo. E não são democratas nem querem a República e, menos ainda, a Democracia.

 

Depois da missa, as duas companhias, distantes uma da outra, tomaram um copioso pequeno-almoço para a seguir ouvirem as ordens dos sargentos. Iam novamente para as trincheiras que todos conheciam, excepto os mais novos agora integrados nas fileiras. E assim foram.

A companhia alemã, sob o comando do capitão Von Dreck , organizou-se com armas e mochilas para se esgueirar por entre os caminhos entrincheirados e acomodar-se na zona da frente anteriormente ocupada pelo que restou de uma companhia que abandonou o local poucas horas antes.

Quando chegaram, os maqueiros acabavam de retirar o que restava de uns corpos trucidados por um morteiro caído no interior da trincheira. Outras companhias foram igualmente ocupar parte do local, já que estava marcado para aquela manhã uma nova ofensiva e não havia sequer a disposição para criar uma certa habituação às companhias que vinham restabelecidas da retaguarda.

 

No Estado Maior alemão circulava mesmo a tese de que as grandes ofensivas deveriam ser feitas com “material humano” fresco enquadrado por alguns oficiais e sargentos com alguma experiência de combate e trincheira.

Do lado francês, a companhia do capitaine ” La Salé esgueirou-se na trincheira sujeita aos bombardeamentos da artilharia pesada alemã que queria à viva força abrir ali um buraco.

 Raramente uma granada caía mesmo no interior das trincheiras, mas quando acontecia, o estrago era enorme, sempre mais de uma dezena de homens sucumbiam aos impactos da explosão. E no dia anterior caíram duas granadas em plena trincheira com grande colheita de almas para todos os infernos.

A artilharia alemã preparava o ataque, enquanto a francesa ripostava. O barulho era ensurdecedor e a claridade da manhã não chegava àquelas trincheiras envoltas em fumo negro salpicado de relâmpagos de cores vivas, geralmente vermelho e amarelo.

 

Na trincheira, o sargento Kurz dava as últimas ordens ao pelotão B . - Não se esqueçam, vamos atacar à baioneta e aqui não há que vacilar, o primeiro a matar é o que sobrevive. Primeiro espetar a baioneta no corpo do inimigo, antes de pensar numa defesa. Não vamos aos abraços a eles, vamos matá-los, ou serão eles a matar-nos.

Nós estamos aqui para que eles cumpram o seu dever de morrer pela pátria e nós de viver por ela na glória de sempre. Isto não é como nos combates de gladiadores na antiga Roma. Não, aqui mata-se no primeiro segundo ou morre-se.

Esta guerra é a suprema invenção da humanidade para se matar a si mesma. É o culminar do nosso inexorável destino, a civilização da morte, da nossa morte total. Matar e morrer.

- Mas! Não será pecado matar assim, perguntou timidamente Hans Christoff .

- Verdamt ”, não me digas uma coisa desta. Pecado aqui é não matar e morrer, respondeu o sargento. - Não sou padre nem sacristão para falar nessas coisas, mas lembrem-se que Cristo veio ao mundo para nos salvar, sim. Mas, salvar de quê? Das doenças e da morte? Não! Das guerras e desastres naturais? Parece-me que ainda menos, a prova é que estamos aqui na carnificina de Verdun . Não, camaradas, Cristo veio ao mundo para nos salvar de nós mesmos, dos nossos pecados, das nossas consciências, sim. Se tiveres dúvidas, vais lá, onde te mandamos, matas os gajos e depois vais à confissão e comungas. Sais limpo, sem ponta de pecado.

 

Quando soar o apito todos para fora, saltamos rapidamente e corremos para a trincheira dos moles, aí lançamos primeiro as granadas de mão e depois vamos a eles de baioneta calada se ainda estiverem vivos.

 

  Kurz era um daqueles quase intelectuais alemães, inteligente e leitor de muitos livros, além de ser ainda um jovem da escrita. Duvidava de tudo, mesmo da existência de Deus. Era um daqueles berlinenses para quem todo o espectáculo do poder não passa de circo e palhaçada, a começar pelo espectáculo religioso. Por isso, nunca podia ter ido para a escola de oficiais milicianos. Mesmo assim, como era mais instruído que os outros soldados, foi para a escola de sargentos. O seu exame do sexto ano liceal valeu-lhe muito. Estava quase a fazer o Abitur ”, o último ano do liceu clássico, quando eclodiu o conflito e foi mobilizado, ainda fez uma exame reduzido, o chamado “not Abitur ”, o exame de urgência que não servia para entrar na Universidade, mas os professores tinham a consciência que isso não seria necessário, já que os seus alunos não iriam entrar em parte alguma e para chegar às campas dos cemitérios não são precisos exames.

O capelão tenente Teufelsmann ouviu algumas palavras do sargento Kurz e quis intervir, mas era já tarde, a ofensiva estava quase a começar.

  Kurz disse ao capelão para acompanhar o pelotão, pois poderia assim dar a extrema-unção aos soldados tombados antes de morrerem.

- Não é preciso, – respondeu o capelão Teufelsmann – eles comungaram todos na missa campal de ontem e até hoje não devem ter pecado.

- Não sei, - disse Kurz – podem ter pecado em pensamento, podem ter pensado em foder a mulher do vizinho ou sei lá quem? Sim, desejar foder , toda a gente deseja, não é verdade?

 - Não diga isso, sargento Kurz , Deus é indulgente e perdoa os pecados dos seus filhos.

- Pode ser, pode. Mas, o melhor é o capelão saltar também para fora da trincheira connosco. Talvez assim, Deus nos protegesse e as balas passassem de lado.

 - És um provocador. Se a ofensiva não estivesse marcada para já, ainda te levava a conselho de guerra, mas, enfim, nunca se sabe o que o destino te reserva nos próximos minutos.

Soaram os apitos, Kurz ordenou:  - raus zum Angriff ”, para fora ao ataque.

A maior parte dos jovens das companhias ali reunidas não tinham participado em qualquer batalha, tinha vindo directamente de casa, ou do quartel de recrutamento e instrução.

Não lhes passava pela cabeça o que ia suceder, nem que cada metro de terreno seria percorrido à custa de milhares de cadáveres. Subiram assim sem preocupação a pequena encosta da trincheira.

As secções dos metralhadores , postados em cima, iniciaram um fogo nutrido contra os ninhos de metralhadoras inimigas, a fim de os fazer calar e proteger os infantes no ataque.

Lá à frente, os pioneiros tinha aberto buracos no arame farpado e fizeram explodir as minas e granadas anti-arame .

Mesmo assim. Os primeiros que galgaram a trincheira, os mais entusiastas e mais novatos, foram todos baleados e tombaram uns por cima dos outros quase sem balbuciarem palavra.

 Os outros conseguiram sair, enquanto os atiradores inimigos refaziam as pontarias ou carregavam as espingardas. Ficaram ali todos à mercê do fogo adverso, mas avançavam, enquanto os metralhadores alemães varriam as trincheiras francesas criando uns momentos de suspensão de fogo.

O sargento Kurz seguido por Hans Christoff corria como louco para a frente, sabia que cada segundo de vida era uma eternidade, uma espécie de dádiva do céu. A confusão era total, o Estado-Maior germânico tinha acumulado ali naquela ofensiva companhias e batalhões e mais batalhões. Nos seus cálculos matemáticos, os oficiais estimaram que ao fim de 50 metros de correria, dez por cento dos atacantes chegariam ao objectivo, assim para enfrentarem com êxito as companhias inimigas tinham de sacrificar 9 companhias por cada uma que chegasse às trincheiras adversas.

 

Kurz não chegou à trincheira francesa, foi baleado a uns dois metros da mesma sem conseguir lançar a granada de mão. Com isso, salvou a vida de Hans Christoff que, protegido pelo corpo vacilante do sargento, avançou mais uns passos e lançou a sua granada, simultaneamente atirou-se ao chão como mandam os regulamento, ouviu a explosão e levantou-se com a baioneta apontada para a frente, pareceu-lhe que estava só no mundo, à sua volta só via fumo.

Avançou e saltou para a elevação da trincheira. De lá saiu um poilus ” francês com algo a brilhar no peito. Hans Christoff não pensou em mais nada espetou-lhe a baioneta em pleno coração. Deve-lhe ter cortado a aorta e um jorro de sangue molhou-o todo ao mesmo tempo que sentiu uma dor tremenda no peito. O seu pulmão acabava de ser trespassado pela lamina francesa empunhada por Jean Christoff . Hans tombou e num momento viu o Cristo na Cruz do inimigo. Viu que não tinha cornos nem língua de fogo, era um Cristo igual ao seu, já a cobrir-se de sangue. O francês ainda viu o Cristo do alemão, mas por segundos apenas, pois estava já a cobrir-se de vermelho com o seu sangue que fez tombar e morrer quase de súbito.

 

Do Autor do Jornal "a Luta" em http :/ /alutablog.blogs.sapo.pt

 

publicado por DD às 23:09
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1 comentário:
De António Costa a 30 de Setembro de 2013 às 14:17
Comentar foi um impulso. Agora fiquei sem palavras. Ou antes, fico com as mesmas palavras com que fico quando leio " o menino de sua mãe ". Como pode haver uma tal diferença de sensibilidades entre seres da mesma espécie? - refiro-me aos humanos, claro. Obrigado Fernando, obrigado Dieter.

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