Sexta-feira, 22 de Julho de 2005

Capítulo IV da Novela de Dieter Dellinger - Anton D. encontra o Espírito de Piotr

Siberia Capela.jpg

Depois do almoço cozinhado por Zida, Anton D. costumava regressar à "Isba", dedicando frequentemente a tarde à pesquisa dos diários do suicida. Queria compreender a razão do tresloucado acto, como também da sentença de desterro que lhe foi aplicada. "O rapaz escrevia bem e com uma letra legível", observou uma vez Anton D. para consigo, "pena é que não tenha deixado isto devidamente organizado por ordem cronológica, só aqui ou acolá é que há umas datas. A mais antiga parece ser a do julgamento e leitura da sentença. Obviamente, Piotr começou a escrever muito cedo, vejo aqui papéis que revelam novelas talvez inacabadas e até peças teatrais. Pelos vistos, deve ter estado em Moscovo, talvez para ver se alguns dos seus escritos seria publicado, mas para entender tenho de dar aqui uma arrumação e, eventualmente, conseguir uma certa ordem cronológica. Há aqui uma descrição do asilo dos intelectuais de Moscovo, o "Khitrovka", onde vivem miseravelmente escritores e poetas sem editor nem ganha-pão. "Dediquei-me durante algumas semanas à actividade de copista de peças teatrais", - escreveu Piotr - "trabalhávamos em grupo, por vezes uma noite inteira por pouco mais de cinquenta copeques por acto. Era sempre urgente e muitos de nós nem roupa decente tínhamos para nos deslocarmos à casa do autor ou empresário que mandava fazer o trabalho. Bati a todas as portas para ver se publicavam a minha novela "Piotr, o Anarquista", mas ninguém aceitou, a maior parte dos editores nem se dava ao trabalho de ler ou abrir mesmo o embrulho com o respectivo manuscrito. E que trabalho aquilo deu. Também não consegui ver publicado "O Suicídio do Sósia". Espero que os meus netos ou bisnetos venham a reescrever as minhas histórias e as publiquem, sei lá onde estiverem; nos infernos, nas Américas, ou nas Africas, em qualquer lugar, menos na Rússia. Por fim, cansado e doente, regressei a Kiev para um curto repouso e recuperação para seguir depois para Odessa, a fim de frequentar um curso técnico".

Os diários de Piotr Ivaneivitch produziram uma profunda admiração e surpresa em Anton D., já que vivendo na Rússia imperial há uns anos, antes mesmo da instalação da "Duma", o parlamento quase democrático, em 1905, Anton D. nunca chegou a perceber o sentir das pessoas, principalmente das que se preocupavam com a política como deveria ser o caso de Piotr. Assim, anotou na sua mente com especial ênfase o seguinte texto do anarquista: "Não fui condenado por ser anarquista, por desejar um povo sem patrões e carrascos a viver numa verdadeira democracia, mas simplesmente por não respeitar o "paizinho", o nosso Czar Nicolau e a sua amantíssima esposa. Ainda tentei expor em tribunal as minhas ideias e a essência da doutrina política de Kropotkine e Fourrier. Mandaram-me calar e só pediram para confirmar as palavras acerca do Czar e da Czarina que eu teria pronunciado num restaurante e ouvidas por um esbirro da Ocrana. Como é possível que aqueles senhores aparentemente tão cultos e educados só se preocupem com o respeito pelo nosso abjecto autocrata. E por isso, pela minha falta de servilismo teórico, já que se tratavam só de palavras nem sequer escritas, fui condenado a sete anos de desterro para esta imensa e desértica Sibéria. Claro, posso ver a pena reduzida, se pedir perdão, se rastejar perante os juízes e jurar que nunca pronunciarei uma palavra indigna da glória do nosso omnipotente "paizinho". Mas, sou eu pessoa para isso?

Pelo menos não fizeram comigo o mesmo que a Dostoievski que, pelos mesmos motivos, foi condenado à morte para receber o indulto quando já estava frente ao pelotão de fuzilamento. Há muito tempo li o "Pobre Gente" do magistral génio da nossa literatura, sem saber que um dia seria também mais um dos muitos seres humanos que fazem parte do imenso rebanho que é a nossa "Pobre Gente". Enfim, fui condenado por falar, demais talvez, mas por falar, como se falar não fosse um atributo inerente ao ser humano para exprimir as ideias do momento com as quais ninguém precisa de estar de acordo. O meu pai bem me dizia, que a falar assim acabaria mal. Fui como que um "artista" da palavra nos cafés e botequins de Kiev; agora tenho de ser "artista" da escrita, pois não há aqui pessoa convivial e sociável com quem falar. O mais engraçado é que não foi em Kiev, mas precisamente em Odessa, que fui preso.

Eu tinha completado o ginásio em Kiev e quis primeiro ser escritor, fazendo publicar umas novelas que já tinha escrito antes. Mas, sem êxito, em Moscovo ninguém se dignou lê-las, quanto mais levá-las à estampa. Para além dos contos e novelas, eu sonhava com os mares e viagens distantes. Resolvi então iniciar uma vida de oficial de marinha, pelo que me dirigi a Odessa para matricular-me na respectiva escola profissional. Para o efeito instalei-me em casa de um tio em Nikolaiev. Assim, por um rublo comprava um bilhete de terceira classe no último vapor que partia já de noite para Odessa, procurava logo instalar-me numa confortável cadeira o mais próximo possível da chaminé, dormindo assim bem aconchegado durante todo o percurso. Muito cedo de manhã desembarcava na "Paris" do Mar Negro para me dedicar às formalidades burocráticas na escola profissional de marinha em que me queria inscrever. Sempre era mais barato gastar os dois rublos no vapor que pagar muito mais por um quarto mofento na casa de uma qualquer "Alena Ivanovna", cuja sovinice faria de mim um "Raskolnikov", de consciência eternamente atormentada, tanto mais que então estava profundamente tocado pela leitura do "Crime e Castigo" de Dostoievsky. De vez em quando, passava algum tempo na biblioteca pública para ler obras sobre navegação e aventuras marítimas. Apesar da minha insistência, fui reprovado no exame médico na tentativa de me inscrever na Escola Técnica de Marinha; acharam que não tinha vista nem a robustez necessária para exercer a profissão de oficial de marinha. Ainda tentei ingressar na escola técnica dos estaleiros navais de Nikolaiev de onde se podia sair engenheiro construtor naval, mas também aí falhei totalmente devido à minha completa falta de habilidade para o desenho, mesmo para as linhas rectas. Fiquei fulo, o meu tio zangou-se comigo, achando que era tudo por culpa minha, por falta de vontade de trabalhar e estudar. Acabei por o abandonar e fui viver em Odessa num quarto miserável alugado a um pobre judeu. Indicaram-me aproximadamente o local e quando lá cheguei ao perguntar na rua pela casa do judeu que alugava quartos ouvi logo a palavra terrível tifo, havia aí tifo. Mas, não me importei, pensei que com uma garrafa de vodka à mão estaria bem protegido do bacilo respectivo, embebedava-o e ele não teria forças para atacar os meus intestinos, até porque o que grassa aqui é mais a febre tifóide que os tifos mais comuns e para a evitar nada melhor que recusar esse líquido insípido que dá pelo nome de água; antes a vodka ou chá fervente. Depois, quando o "prassol" me mostrou o quarto comecei a temer que afinal até poderia mesmo haver tifo por aí, tal a porcaria reinante, mas o que me deixou mais descansado foi ver muitas garrafas vazias de vodka. Ainda perguntei se o hóspede anterior teria morrido de tifo.

- Não, "gaspodin", ele saiu saudável, era um militar, foi transferido para o norte. - Está bem, fico com o quarto, se o limpar todo e olhe, prefiro dormir no chão sobre um tapete limpo que nesse imundo colchão.

- Para isso tem de me pagar mais uns rublos.

- De modo algum, vou é queixar-me ao "stanwoi pristaw" (comissário de polícia) e ele manda aqui alguns "uriadnikis" que lhe selam a casa toda.

Aterrorizado, Lev Cederbaum prometeu limpar tudo e mudar o colchão, até fez um pequeno desconto.

Uma vez instalado, continuou Piotr, nos seus escritos, "passei a ir frequentemente à esplanada frontal à rada de Odessa, ver a esquadra cinzenta que fumega de negro. Depois vagueio pelas grandes avenidas da cidade até à catedral, onde não entro, pois sou mais que ateu, anti-clerical mesmo. Perto da Universidade encontrei um botequim típico que passei a frequentar e rapidamente me relacionei com alguns jovens estudantes, todos mais ou menos anti-czaristas; entretínhamo-nos a dizer mal da autocracia. Levei lá um operário muito culto que conheci na biblioteca, tivemos grandes e interessantes discussões políticas, adquiri mesmo o hábito de quase discursar alto para que todos ouvissem. Foi esse o meu mal, um esbirro da Okrana ouviu os meus discursos e seguiu-me a casa. Depois deverá ter feito com que a polícia lá fosse e me detivesse. Logo após a detenção, vim a saber que todos os frequentadores do velho botequim foram igualmente presos, ou "liquidados" segundo a linguagem típica da polícia secreta. Queríamos é certo estabelecer ali uma organização anarquista, mas não o tínhamos ainda conseguido, já que uns eram socialistas outros simples republicanos, outros ainda defendiam a via revolucionária dos mencheviques. Enfim, acabei por ir parar a um dos calabouços da prisão de Nikolaiev onde esperei três semanas enregelado e, como que sacudido de vez em quando, pelos interrogatórios que foram curtos e formais. Depois transferiram-me de barco para a prisão celular de Odessa. Aí ainda esperei algumas semanas até ser interrogado, quase que só para escrever a minha identidade num papel. A minha pessoa parecia interessar pouco e eu estaria já como que condenado. Perguntaram-me a que organização revolucionária pertencia, mas só como que de passagem e sobre as minhas ofensas ao Czar nada disseram. Como negasse pertencer a alguma organização, um dos oficiais da gendarmeria ainda me elogiou pela minha tenacidade e disse que certamente a minha posição na organização deveria ser deveras importante, já que todos os que passaram pelas suas mãos confessaram tudo. Rapidamente deixaram-se disso e acusaram-me só de ter ofendido o Czar e, por isso, seria castigado, mas só na sala de audiências é que se pronunciaram tão claramente.

Anton D., não sabia que estava ali um émulo de Dostoievki. O grande escritor foi condenado ao degredo siberiano depois de indultado da pena de morte por assistir a reuniões, mas principalmente por não se mostrar suficientemente respeitador do supremo autocrata. O sentido de justiça e de indignação de Anton D. começaram a vir ao de cima com a confissão escrita de Piotr. Aparentemente não tinha reparado que na sociedade russa, pretendidamente liberalizada depois de 1905, se era condenado por falar. "Será que o respeito exigido é só para com o Czar ou abrange a Duma, assembleia representativa das três classes sociais, e o governo, bem como os tribunais? "Não sei e não interessa, se não for assim será de outra maneira e neste imenso país deverá sempre haver qualquer coisa a justificar o poder", concluiu Anton D., para consigo, depois de ler aqueles escritos do anarquista Piotr.

Nos papéis de Piotr, Anton D. queria encontrar a sua morada, custe o que custasse, mas o que descobriu e mais o impressionou foi o drama da solidão do falador eminente que impossibilitado de dialogar com alguém confiava o seu desespero a umas folhas de papel. A dada altura, "Anton D. pôde ler: "Este degredo é o da solidão e desses insectos monstruosos que nos comem a carne em pleno verão. Malditos mosquitos, deram-me uma "Isba" empeçonhada desses miseráveis, são milhões e comem a carne, fui condenado à morte mais horrível de todas, a de ser tragado pelos insectos em pleno verão siberiano. Hoje, fui à aldeia, tentei meter conversa com alguma gente, falei a uma rapariga jovem que sorriu ligeiramente, apaixonei-me logo, mas ela desandou quando viu o pai ou tio, ou seja lá quem for. Estou já todo picado pelos minúsculos mosquitos que nunca consigo apanhar, devo estar horroroso. Não consigo outro trabalho que não seja pescar e apanhar bagas silvestres, pelo menos isso entretêm, pena é que os pescadores sejam tão pouco faladores e se exprimam tão mal, estes siberianos são mesmo duros. Não há na aldeia uma sala para convívio, parece que tudo aqui é uma espécie de prisão aberta ao exterior. Ainda tentei falar com o padre, mas ele julgou que eu vinha confessar os meus pecados, pedir perdão a Deus, quando na verdade só queria trocar uns dedos de conversa e estava disposto a não dizer que sou ateu, só para que o homem não ficasse ofendido. Mas é um boçal o padre, pior que um "mujique", nunca eu vi coisa assim". Escarra para cima das suas gordurosas e sempre sebentas barbas e cheira mal, arrota a qualquer coisa que parece alho, a boca tem o aspecto de uma fossa nauseabunda pelo seu hálito. Percebo bem a razão porque o mandaram para este infecto buraco. E a mulher do Pope é horrível, quase desdentada, mal vestida e com bigode e uns pêlos no queixo; sempre vestida de preto à excepção de um xaile ou lenço colorido, enfim duas pessoas que não atraíram certamente as atenções de algum bispo, a não ser para o pior. Pobres mujiques transformados em padres ortodoxos. Tão pobres de meios e espírito como a maior parte dos siberianos, com excepção dos donos das minas de ouro.

Efectivamente, Anton D. também tinha sentido os mosquitos, só que no fim da época eles já estavam fracos, parece que não tinham mais forças para picar, "estão a deixar aí as suas larvas, para subitamente no fim da primavera atacarem com uma força inaudita. "Foi por isso que a velha Zida me disse que a barraca deveria gelar por dentro durante alguns dias no Inverno para não ter tantos mosquitos no verão e matar as baratas que se acotovelam umas nas outras por todos os cantos deste miserável antro."

"Que não me aconteça a mim o mesmo que ao companheiro político de Dostoievski, o Petrashevski, vitimado pelas baratas e mosquitos numa cabana quente na Sibéria", pôde ler Anton D. noutro dos escritos de Piotr. "O pobre Petrashevski adoeceu e ninguém se importou na aldeia com a sua sorte, as baratas puderam roê-lo à vontade. Foi a enterrar completamente só, acompanhado pelos dois indispensáveis coveiros".

"Piotr é um personagem interessante", comentou certa vez Anton D. para com os seus botões, "ele gostava de literatura, utilizando o muito que lera como referencial quotidiano de toda a sua actividade. Interessante, isso de ver a vida e o mundo pelo prisma literário, interessante mas aborrecido, não há nada como a vida prática e estar entre as coisas e as pessoas, a literatura é só teoria é ver o mundo pelos olhos dos outros, bah!"

"Depois de condenado, fui levado num comboio de gado para aqui. Não sei quantos dias durou a viagem? Sempre naquele vagão fechado, isto em pleno século XX. Como é possível a civilização descer tanto quanto se trata do relacionamento do poder com a "pobre gente" que enche as praças e ruas das grandes cidades, consideradas como o "orgulho" desta mais que falsa civilização"? Escreveu ainda Piotr. Anton D. concordou, lá com os seus botões, pensando já em voz alta: "provavelmente também vou enlouquecer aqui, sem companhia, sem família e quase sem saber o que se passa nesse mundo de loucos, em que milhões de jovens cidadãos se matam cruelmente". Provavelmente, Satanás matou Deus.

"E pior que uma prisão foi o quase abandono, a solidão no frio, nesta miserável aldeia, no "benigno degredo administrativo" sem companheiros de infortúnio. Fui perdendo-os ao longo do trajecto. Quando chegámos éramos só cinco; mesmo assim, ficámos dispersos pelas várias aldeias da região". Não os posso esquecer, valentes ucranianos, nacionalistas, socialistas e anarquistas, todos condenados ao degredo, todos adeptos apaixonados da liberdade do povo ucraniano".

Anton D. percebeu pela primeira vez que a Ucrânia não se sentia como uma simples província do Império, que havia alguns jovens ucranianos dispostos a correr riscos e sacrifícios em prole da independência de uma pátria quase tão grande como a Alemanha. E admirou-se, nunca tinha visto o império russo pelo prisma dos nacionalismos dos seus diferentes povos e territórios, nem sabia que isso poderia existir. Para ele, evidentemente, o nacionalismo passava pela cabeça coroada de um monarca, imperador ou rei, falhando quando encabeçado por um presidente eleito como acontecia com a França. Mal sabia, Anton D., que na oficina da história em que se tinham convertido longos quilómetros de trincheira, a realidade daria uma volta completa. "Mas como pode um indivíduo como esse Piotr escrever coisas destas, a Ucrânia nunca existiu como nunca existiram antes as colónias alemãs ou a imensa Sibéria russa", pensava Anton D.. "Os "Pougatchevs" das Universidades falharam em 1905, ou antes, conseguiram muito pouco, só uma "Duma" quase sem poder", escreveu ainda Piotr, "chegou a hora dos homens de acção, dos que são capazes de conduzir a revolução a partir das massas populares", escreveu ainda Piotr.

"Bah! é um teórico, apesar do seu apelo à acção", comentou Anton D. ao ler as teorias da "Pobre Gente" dostoievskiana. Piotr relatou muito do que ouviu dos seus companheiros de degredo durante a longa viagem no transiberiano, mas ocultava os nomes, dava-lhes números em vez de nomes para não os denunciar, caso os seus papéis fossem apanhados pelos esbirros da "Okrana".

Ainda antes de o Inverno chegar com todo o seu rigor, Anton D. aproveitava os dias mais secos para ir a Krasnoiarsk saber novas da guerra. Oficialmente ia aos serviços policiais declarar a sua presença habitual, depois tentava meter conversa com os oficiais, quase todos velhos reformados que foram obrigados a retomar o serviço para ocupar os postos vagos na retaguarda. Diziam-lhe que a Alemanha estava a perder a guerra, os russos tinham conquistado a Prússia e em breve estariam em Berlim. Acabou por desistir, acreditava no que lhe diziam, não tinha qualquer informação em contrário e não sabia se deveria ficar contente ou infeliz.

Como estrangeiro, a sua noção de pátria estava um pouco ultrapassadas, tanto mais que as duas nações a que estava ligado guerreavam-se mutuamente, reproduzindo-se na sua mente a mesma guerra. Ainda falou nos papéis de Piotr, disseram-lhe para os trazer, mas ficou arrependido, talvez acabe por prejudicar outros e mesmo a família do pobre tresloucado. "Não, não os vou trazer, da próxima vez digo que são papéis sem importância, desenhos mal feitos, cartas inacabadas, etc.. Digo mesmo que os queimei na lareira. De resto, eles ainda estão cada vez mais interessados nos noticiários da guerra do que naquilo que um pobre e inofensivo anarquista poderia ou não escrever e parece que me escondem algo, não falam muito comigo. Contudo, há aqui tão pouca gente decente, a maior parte está na frente e os que ficaram são sempre os mesmos, eles vêem-se todos os dias. Deveria ser mais interessante para estes velhos capitães e majores falar com um estrangeiro. Pois é, mas devem ter recebido ordens de cima para não se abrirem com inimigos, mesmo que seja um pobre cidadão como eu a milhares de verstas da frente.

Mas, o que preocupava mais Anton D. era não receber notícias da família. Um dia deu uma moeda de ouro a um velho tenente para que mandasse em nome dele uma carta à sua mulher Olga. Queria saber como estava ela e os filhos. Claro, os correios não funcionavam bem naqueles tempos conturbados, mas pelas vias militares esperava conseguir um canal de comunicação. Pelo menos, sabia que lá no sul do Império não havia guerra, pois a frente estaria para lá da Polónia. Em plena Alemanha, como lhe tinham dito.

Anton D. nem sempre conseguia que o levassem à aldeia; tinha de ir a pé e estava a ver as suas botas gastarem-se rapidamente, pelo que resolveu confeccionar sandálias com entrecasca tecida de tília que adquirira na aldeia. Um dos aldeões tinha a entrecasca da tília mergulhada em água, depois cortou tiras finas e teceu-as grosseiramente, vendendo-lhe o suficiente para confeccionar mais de uma dúzia de sandálias, já que se gastavam rapidamente. Assim, aprendeu o "ofício" e tornou-se exímio na tarefa. "Pronto, ando calçado como um mujique e guardo as botas para quando estiver mesmo frio". Numa das suas idas à cidade, resolveu comprar estopa para calafetar a "Isba", pois sentia o vento a penetrar no seu interior e logo que o Inverno chegasse ficaria tudo gelado, mesmo com a lareira acesa. Uma vez por outra, frequentava o balneário de Kranoiarsk, onde se reunia quase toda a população da urbe, homens num balneário e mulheres noutro. No meio do vapor intenso, quase não se vislumbravam os corpos dos outros humanos que aí buscavam um pouco de calor, suor e activação circulatória, flagelando-se mutuamente com ramos de arbustos. Anton D. não fazia parte daqueles que depois do banho eram capazes de se rolar na neve fria do exterior ou mergulhar nas águas gélidas do Ienessei. Limpava-se discretamente e saía. Sentia-se mal na pele de degredado administrativo, mas frequentava os banhos com prazer, já que adquirira o hábito de o fazer em Novocherkassk.

Depois das suas actividades venatórias ou de colheita de frutos silvestres ou lenha, Anton D. dedicava-se enfim à tarefa de consultar os papéis de Piotr. A certa altura encontrou um livro misterioso, envolto numa capa branca que dizia: "Cuidado, a curiosidade pode ser mortal. Livro do Doutor Dubane". Lembrava-se vagamente de ter ouvido ou lido aquele nome, mas não recordava bem onde e a que título. Parecia que o nome vinha de longe, provavelmente dos tempos da sua infância.

Apesar do alerta na capa, Anton D. abriu o livro e encontrou lá a seguinte frase: "Para ser lido de ponta à ponta pelo meu assassino, pode encontrar aí a pista para uma mina de ouro. A narrativa é a vida e o seu fim a morte. Oh Rei, podes consultar o livro!"

Anton D. folheou ligeiramente o livro, viu que a seguir havia páginas em branco e as seguintes pareciam estar coladas umas às outras. Foi examinando o livro com cuidado, deu-lhe umas voltas, tentou abrir a partir de trás. Qualquer coisa dizia-lhe que o livro seria perigoso. Deixou-o abrir-se por si próprio sobre a mesa. O livro abriu-se sensivelmente a meio. Aí pôde ler: "Os Contos de As Mil e Uma Noites podem salvar uma vida".

Foi como que uma lâmpada de Aladino para Anton D., subitamente fez-se luz na sua mente. Tratava--se de uma das histórias das Mil e Uma Noites que ele com tanto gosto tinha lido e ouvido na sua infância. Era o livro do doutor Dubane com as páginas envenenadas e ligeiramente coladas para que o leitor fosse salivando os dedos e assim acabaria por colocar na língua uma dose suficientemente mortal de veneno. O doutor Dubane fora mandado matar por um impiedoso rei, como contara Xerazade, mas deixou o seu livro para o rei ler logo após a sua morte. A curiosidade do monarca foi-lhe fatal, acabou por cair morto. "Obviamente, pensou Anton D., Piotr tinha razão ao escrever que as "Mil e Uma Noites" podem salvar uma vida. A sua fora salva precisamente por ter conhecido as fabulosas narrativas de Xerazade. Assim, pôs o livro de parte e pensou: "tudo indica que o Piotr tomou conhecimento do destino infeliz do filho da velha Zida e pensou em arranjar uma maneira de se vingar caso lhe sucedesse o mesmo, ou então fazer com que um provável assassino resolvesse consultar o livro antes de concretizar o seu infausto intento.

Para Anton D., o livro envenenado de Piotr foi um alerta para os perigos que o rodeavam e uma explicação sobre o carácter do anarquista. De algum modo, Piotr fascinava-o, apesar de ser cada vez mais óbvio que a sua vida e a do falecido nada tinham de comum, nem tão pouco as maneiras de ser de ambos. Mas, na situação em que se encontrava, tudo o que estava na cabana interessava e, de algum modo, havia aí muito a suscitar a sua curiosidade. Um novo mundo estava à sua beira, na aparente insignificância de uma humilde barraca siberiana de madeira.

Se no início, só encontrou alguns vagos manuscritos sobre a vida e a condenação de Piotr, depois acabou por decifrar alguns diários dispersos que referiam algo mais sobre a vida de um personagem cada vez mais simpático a Anton D., que mais não seja pela distância que se colocava entre as vidas dos dois homens. De início, a fase mais importante foi a da prisão de Piotr, depois a sua vida e, por fim, a descrição da sua morte. Piotr resolveu, antes de morrer, descrever cuidadosamente no mais ínfimo detalhe a sua morte, explicando a razão porque a vida não tinha sentido naquele degredo russo, acusado de nada ou antes de tudo e nada ter feito. E, com a sua tendência para a ordem, tentou organizar cronologicamente os papéis de Piotr para ter do personagem uma visão plena de sentido, preferindo pôr de lado alguns textos relativamente a pessoas que Piotr conhecera aqui ou acolá, mas que aparentemente pouco ou nada significavam para a história do anarquista oral, como lhe chamava Anton D. em pensamento.

Entretanto, o Inverno chegara com uma rapidez fulgurante. A temperatura desceu subitamente, a floresta cobriu-se de neve e o Ienessei gelou. Os primeiros dias de neve parece que nunca mais acabavam. Anton D. perdeu quase a noção do local em que estava, parte da sua "Isba" ficou soterrada na neve, teve de abrir um caminho com a pá. Aquela primeira neve ainda não era dura, quase não se podia caminhar por cima, tinha de abrir um caminho, fazer um piso, batendo com a pá no chão, mas depois com a descida da temperatura, a neve transformou-se numa espécie de gelo ou vidro muito duro que se quebrava um pouco sob as pesadas patas dos cavalos siberianos, fazendo o barulho de vidros a partirem-se. Essa neve dura tinha de ser quebrada com uma picareta para manter uma saída livre a partir da porta da "Isba".

A lenha que Anton D. tinha juntado, pareceu-lhe muita na altura, mas rapidamente se gastou e aquilo que cortava das matas próximas era já uma madeira muito molhada e fria que ardia com grande dificuldade. O que vale é que havia uma pequena montanha nas proximidades da sua cabana. Lá em cima, ele cortava alguns troncos de árvores menores e fazia-os rolar para baixo sem uma grande esforço. Depois, cortava-os à machadada. Anton D. preferiu procurar troncos de árvores abatidas por temporais ou mortas naturalmente, chegou mesmo a descobrir um gigantesco cedro derrubado por um vendaval, mas o tronco estava coberto de neve e colado ao chão gelado, foi um trabalho monstruoso arrancar alguns pedaços de madeira daquele imenso tronco. Durante semanas, andou desesperado à procura de lenha para manter a sua lareira sempre acesa, enquanto a temperatura no exterior ia descendo cada vez mais até aproximar-se dos trinta graus negativos. A velha Zida explicou-lhe como manter o fogo na lareira durante uma noite inteira. Deveria cortar dois paus longos, afiá-los e ligar as duas pontas entre si pelo fogo que se mantinha até atingir as extremidades opostas, já no início da manhã seguinte.

Por fim, fez a descoberta da sua vida, as raízes de uma árvore muito resinosa que Anton D. depois veio a identificar como um lárix e que deveria ter sido abatido por lenhadores que não aproveitaram aquela parte da árvore. O machado enterrava-se até ao fundo e quase não saía para fora. Anton D. passou a aproveitar aquele material resinoso que ardia como se fosse petróleo, deixando ainda por cima um cheiro quase agradável.

A tarefa de encontrar lenha e manter a velha lareira da "Isba" sempre acesa não deixavam qualquer tempo livre a Anton D. para caçar e, menos ainda, para os escritos de Piotr. Teve mesmo de comprar comida na aldeia e uns abafos siberianos, pois a guerra, tal como o Inverno, pareciam nunca mais acabar e de igual modo o seu degredo e solidão. O fiel empregado nunca chegou a aparecer com o tal passaporte suíço que permitiria a Anton D. regressar a casa. As cartas da família nunca foram recebidas e na cidade os velhos militares estavam cada vez mais agressivos com Anton D., apesar de continuarem a dizer que os exércitos russos avançavam diariamente, mas não tinham chegado a Berlim como profetizaram meses antes. Só depois da descoberta do material resinoso é que Anton D. conseguiu sair para caçar alguma peça que aparecesse nas proximidades da cabana. O frio não o deixava estar muito tempo fora, sentia continuamente a necessidade de regressar para se aquecer, despindo as pesadas botas forradas por dentro com uma série de trapos que ficavam sempre humedecidos.

Aquele Inverno parecia querer expulsar todo o ser animal das proximidades da "Isba" de Anton D., até que, por fim, quase por milagre viu ligeiro um gamo a vaguear ali perto. A caçadeira estava pronta e um tiro certeiro abateu o animal, fazendo-o dar um enorme salto. Era um belo macho com esplêndidos cornos ramificados e espalmados nas extremidades, quase a caírem. A pele cinzenta muito escura deu um excelente tapete de leito, enquanto a carne foi aproveitada até ao último naco e dos chifres fez um cabide.

O gamo marcou como que o fim das privações de Anton D. . Descobriu ainda um local muito frequentado por galos de mato que aí raspavam a neve para comerem as bagas silvestres bem conservadas pelo frio. Assim, quase diariamente Anton D. caçava uma perdiz ou um galo do mato, depois levava sempre uma ou mais peças a Zida Vassielenova que logo cozinhava uma parte para ela e outra para Anton D.. Pedia-lhe mesmo para esperar na sua "Isba", junto ao enorme fogão que a velha viúva tinha naquela casa humilde. Ela gostava de conversar com Anton D, , apesar de que só pouco a pouco é que se foi habituando ao ligeiro sotaque cada vez mais russo de Anton D.. Um dia disse-lhe: -primeiro pensei que o senhor falava uma língua estrangeira, só depois é que reparei que fala a nossa língua de uma maneira um pouco diferente da que se fala aqui na Sibéria. O Piotr também não tinha bem a mesma fala que a nossa. Sabe, nós aqui neste buraco deserto não estamos habituados a lidar com gentes de fora, salvo os deportados que, de vez em quando, mandam para cá. Para aqui vêm poucos deportados, só algumas pessoas importantes, a maior parte vai lá mais para o norte, para o Angorá, para as minas de ouro e para outros trabalhos muito duros. Aqui, só escritores ou filhos de funcionários superiores, mas poucos. Mas, esses falam todos a nossa língua.

- Sabe, Zida Vassielenova, há muitas línguas neste mundo, quase todos os povos têm a sua.

- Sim, os buriates falam uma língua dos diabos que não entendo nada e também os tártaros: por vezes aparecem por aqui. Uns são caçadores, outros comerciantes ou sei lá o quê?

Anton D. gostava de conversar com Zida Vassielenova, principalmente porque a conversa era acompanhada pelo chá que saía do sempre fumegante Samovar e também por se tratar da única e autêntica "siberiaki", siberiana de quatro costados, com quem podia conviver com uma certa intimidade. Zida era uma mulher orgulhosa da sua resistência às inclemências do tempo e bisneta de um russo deportado por toda a vida por um Czar cujo nome já nem recorda mais. Assim, Anton D. circulava entre as histórias escritas de Piotr na sua cabana e os "contos" fantásticos de Zida Vassielenova.

Depois de aparecerem os primeiros frios com os consequentes nevões, a Anton D. foi naturalmente revelado que a viúva siberiana era uma verdadeira especialista do frio. Conhecia todos os meios de defesa contra tão terrível inimigo do ser humano naquela zona situada quase na fronteira entre o planalto serrano do sul da Sibéria e a imensa planície siberiana que se estende a pouca verstas daí para Ocidente até ao Árctico e para o Oriente até ao Mar do Japão e Pacífico. Ela salvou-lhe a vida ao vender-lhe umas "valenki", botas forradas, e umas polainas de lã crua muito forte. Quando começaram os primeiros nevões, Anton D., ficou aterrorizado porque o termómetro desceu subitamente para uma temperatura bem abaixo do zero. Zida Vassielenova disse-lhe que aquilo ainda não era o Inverno: - O Inverno só começa ao terceiro nevão, quando o rio fica duro como pedra e as "troikas" podem andar mais seguras que em terra firme e cuidado porque aqui também faz um frio de três janelas, apesar de que lá para a zona das minas de ouro, junto ao rio Lena, é muito pior. Tem de pôr mais janelas na sua "Isba", o vento que aí vem da planície gela tudo, queima as bochechas e gela os líquidos do nariz.

Pouco tempo depois, já em Dezembro, Anton D. viu confirmada a previsão da velha "siberiaki", quando saiu numa dessas manhãs sopradas pela ventania gelada da sua casa. Sentiu um choque terrível, as lágrimas corriam-lhe copiosamente, solidificando-se rapidamente, enquanto os dedos, dentro das suas luvas habituais, enregelavam-se todos. Retornou subitamente à "Isba" para colocar outras luvas por debaixo das que tinha e cobrir toda a cara com um cachecol de lã. Era um vento traiçoeiro, só trazia frio, silenciosamente, sem um ruído, mas cortante como se fossem nuvens de pequenas facas muito afiadas, o ar parecia mais transparente e a claridade da manhã não era ainda do dia que mal tinha despontado, mas do frio imenso que tornava tudo mais claro, branqueara a neve e fazia descer do telhado da "Isba" longo fios de estalactites de gelo. Antes disso, Anton D. tinha seguido os conselhos de Zida e tapou as suas pequenas janelas com uma camada de madeira e pele. A sua única ligação com o exterior passou a ser a chaminé do fogão e uma minúscula "fortochka", janelinha de vidro, que deixou no canto superior esquerdo de uma das janelas para reconhecer o nascer do dia.

Anton D. era demasiado estrangeiro para ter uma verdadeira ideia do que era viver na Sibéria; julgou que o frio se fazia sentir, mas nunca com aquela intensidade, pois a região estava num paralelo relativamente a sul, só que no interior de uma imensa massa de território continental, uma espécie de geladeira monstruosa, varrida por aquele eterno e quase sempre constante vento gelado. A velha Zida dizia-lhe que em certos dias não se podia sair, morria-se rapidamente com o frio. Seriam dias com algum sol, muito brilhantes com um ar transparente que torna tudo nítido. Saiu num dia desses, queria saber porque razão as árvores siberianas não morrem com tais frios e algumas até conseguem manter umas folhas todas brancas e muito pequenas.

Naquele fim de Dezembro, o dia apresentou-se só com algumas horas de sol e nem uma nuvem. A brancura era total assim como a transparência do ar, Anton D. saiu e desceu até ao rio. Ninguém à vista, tudo era visível com uma nitidez extraordinária, mesmo assim, julgou ver uma sombra e depois uma pessoa, avançava por cima do rio gelado, é o Piotr, pensou, pelo modo que Zida Vassielenova o tinha descrito. Mas não pode ser, o homem morreu e se estivesse vivo não andava por aqui agora, já que o tempo de desterro dele terminou há meses, como foi dito pelo Pope.

 

publicado por DD às 00:24
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