Sexta-feira, 22 de Julho de 2005

Capítulo III da Novela de Dieter Dellinger - A Sibéria

Siberia.jpg

Krasnoiarsk achava-se nas margens do Ienessei, o rio que nasce nas montanhas banhadas de sol da Mongólia e leva ao Ártico o calor e a vida. A cidade vive rodeada de uma espessa floresta de bétulas, cedros e faias. No verão, os habitantes vão à floresta colher as bagas dos cedros e os morangos silvestres, tão abundantes aí. Abrigam-se frequentemente nas enormes "cabanas" formadas pelas raízes de gigantescos cedros abatidos por temporais ocorridos há muito tempo. Aproveitavam também a resina dos cedros que dava um excelente combustível.

Logo que chegou, ainda acompanhado pelo seu empregado e ex-mujique, Igor Igorovitch, além dos dois "leais" cossacos, Anton D. dirigiu-se à casa da autoridade policial, o "ispravnik", comissário de polícia, responsável pelo seu degredo siberiano ordenado pelo Ministério da Guerra. Já lá tinha chegado um telegrama do tenente adjunto do vice-Ataman a recomendar Anton D., pelo que lhe disseram logo que estaria mais ou menos livre, mas deveria habitar nas imediações da cidade. Na primeira aldeia, a poucas verstas de Krasnoiarsk, haveria alguém que lhe alugaria uma cabana de toros de madeira.

Os guardas receberam guia de marcha para o regresso, tal como Igorovitch que não tinha autorização para ficar. Anton D. despediu-se dos companheiros de viagem e numa das ruas da cidade pediu a um camponês que o transportasse para fora no seu carro puxado por duas mulas, ofereceu uns kopeks e foi tratado com amizade. Quando viu o siberiano com o filho, Anton D. ficou na dúvida, os dois vinham vestidos de farrapos, nos pés traziam uma espécie de sapatos envoltos em polainas de casca de árvore nas quais entravam as calças tufadas. Os casacos estavam rotos e cobriam parcialmente as imundas camisas balalaicas. Ambos ostentavam bonés de pala muito amarrotados e umas cordas à cintura terminadas por uns paus pontiagudos. Só quando os viu a manobrar o carro com as mulas é que se atreveu a pedir-lhes transporte. Depois de atravessar as ruas estreitas de Krasnoiarsk, lamacentas até mais não com um estrado de madeira ao centro para os transeuntes, o camponês dirigiu-se à aldeia de Bougutchani, nas margens do Isentasses, a sul de Krasnoiarsk. Era uma aldeia mista de pescadores, garimpeiros de ouro e caçadores. Pouco se semeava naquela zona rodeada de floresta, mas esta proporcionava um certo afluxo de bens, desde a madeira à caça, passando pelos frutos silvestres. O camponês levou-o a casa de uma velha senhora que lhe podia alugar uma pequena "Isba" ali nas redondezas. A senhora fazia chá quando Anton D. bateu à porta. Logo lhe ofereceu um copo do precioso líquido saído directamente do "Samovar" que ali a meio da sala fumegava com energia. Zida Vassielenova, como se chamava a anciã, respondeu lentamente à pergunta de Anton D. quanto à possibilidade de lhe alugar uma pequena barraca de madeira. Primeiro disse que não, depois talvez. Não sabia ao certo.

- Desculpe Zida Vassielenova. A senhora não sabe se a sua casa está vazia ou não?

- Sei que está livre, mas pode também estar ocupada.

- Mas como? Por quem?

- Pelo espírito de Piotr, suponho. Sim, pelo seu espírito, pois os espíritos das pessoas que se matam ficam no local onde cometeram o seu tresloucado acto.

- Ah sim, talvez – respondeu incrédulo Anton D.

- Olhe, Zida Vassielenova, com ou sem espírito, alugue-me a "Isba", eu sei entender-me com os espíritos, já os conheço de há muito. Da minha terra, na Floresta da Boémia.

- Bem, se é assim, alugo-lhe a "Isba", mas com a incumbência de arrumar os papéis e as coisas do Piotr e enviá-las para a casa dos pais em Kiev. Talvez consiga enganar o espírito e expulsá-lo daqui para fora metido no embrulho dos papéis do louco. Mas cuidado, para isso terá de enfrentar o espírito. Olhe, a única coisa que se tirou da casa foi o corpo de Piotr, o sangue ainda lá está, não toquei em nada, nem tive coragem para limpar a casa, nem de avisar as autoridades, já antes não ia lá, aquilo é casa assombrada, o meu filho e a minha nora também lá morreram. Foi só por causa desses papéis que não queimei a "Isba". A meu ver e do Pope, a única maneira de exorcizar o mau espírito que vive lá é queimar tudo. Já lá morreram três pessoas, duas das quais muito queridas para mim.

- Os meus sentimentos, Zida Vassielenova, e não se preocupe, eu limpo e tratarei de tudo, vou mesmo escrever aos pais do Piotr, como diz. Espero encontrar lá o endereço do rapaz. Ele era novo, quantos anos teria?

- Vinte e tal ou trinta.

- Estava no degredo por quê?

- Eu sei lá!

Disseram-me que fora condenado por falar de mais. Aqui, como não tinha com quem dar à língua, andava por aí a falar sozinho, até fazia discursos à noite na praça da aldeia. Parecia um louco. Sempre vestido de preto com um chapéu de pala negra na cabeça. Nem na taberna conseguia falar; aqui ninguém discute política e menos ainda a pessoa do nosso paizinho Czar.

- Já percebi, era um estudante, um intelectual republicano ou anarquista.

- Não sei o que ele era, mas muito bom da cabeça não deveria ser.

-Está bem, tome lá o dinheiro adiantado e dê-me as chaves da "Isba" e explique-me bem onde fica situada.

- No meio das bétulas lá para baixo, junto ao rio, – disse-lhe a velha Zida.

Anton D., nada preocupado com os espíritos, pegou nas chaves e pediu a um rapaz que entrara na casa de Zida para bisbilhotar o novo "convidado" da aldeia que o ajudasse a transportar as suas bagagens. Dirigiram--se ambos à cabana da velha Zida.

Ao entrar, Anton D. ficou um pouco desorientado com a desarrumação e as manchas negras que cobriam parte do soalho. Era uma "Isba" tipicamente siberiana, feita grosseiramente em toros de madeira escura com telhado de tábuas finas cobertas de musgo verde. Tinha um alpendre no minúsculo quintal. As suas pequenas janelas vidradas davam para o lado do rio com caixilhos a evidenciar ainda o que resta de uma antiga pintura azul e violeta. Era constituída por uma única divisão com um nicho que fazia de cozinha e casa de banho. A meio da barraca, encostada à chaminé, jazia, muda e fria, uma imensa lareira russa.

- No Outono, toda a gente vem aqui colher bagas de cedro; antes de Setembro não aparece ninguém, – disse-lhe o rapaz, continuando – mas se descer até à margem do rio e seguir para norte encontrará as "Isba" dos pescadores da aldeia que agora não pescam por já não haver peixe. Se comprar uma espingarda ainda pode caçar pássaros e outros animais, mesmo gamos e galos de mato. No Inverno aparecem por aí alguns ursos. Anton D. despachou o rapaz com algumas moedas, agradecendo as explicações do jovem cicerone. Abriu a porta e procurou instalar-se o melhor possível. Acendeu dois candeeiros a petróleo e observou que havia velas e alguma lenha seca, além de água. Tudo bem, pensou, vamos aquecer água e preparar o chá que trago de casa, vou pôr o "Samovar" a aquecer. Amanhã compro na aldeia alguma coisa para comer ou vejo se há alguém que possa cozinhar para mim. Entretanto, tenho de arrumar e limpar um pouco esta porcaria toda. Olha tanta papelada e diários mesmo. O suicida escrevia diários, está visto. No dia seguinte, Anton D. levantou-se cedo, veio para fora, a manhã estava fresca. Queria observar a paisagem, ver de perto os imensos cedros que o rodeavam. "São árvores extraordinárias", pensou, "de ramos largamente estendidos, eternamente verdes".

Durante a noite, tinha ouvido os esquilos a saltarem de árvore em árvore, enquanto os "quebra-nozes" largavam gritos agudos. Agora de manhã, Anton D. deleitou-se com um bando de piscos de pescoço carmim a voar por cima da copa das árvores. Por entre as bétulas, irrompeu uma legião de pintassilgos. De vez em quando, uma lebre revolteava-se entre os troncos. "Tenho mesmo de comprar uma caçadeira", disse Anton D. para consigo, "há aqui muito para caçar. Não sei se posso? Mas se perguntar dirão logo que a minha condição de deportado não permite a aquisição de uma arma de fogo; se não perguntar, ninguém dirá algo, pelo que será como que legal".

Só passados uns dias, depois de colocar tudo em ordem na sua "Isba" e de a limpar devidamente, além de consertar uma série de coisas desarranjadas e de mandar mesmo pintar o seu interior pelo artesão Savin que fazia de tudo na aldeia, é que Anton D. descansou e começou a tarefa que lhe incumbiram. Deveria encontrar o endereço do seu antecessor na "Isba", arrumar os papéis e outros pertences num grande embrulho e enviar tudo pelo correio para a casa dos pais com a informação sobre a sua morte.

Antes de iniciar o trabalho que se propusera fazer, fizera-se amigo do velho Savin, um homem sábio da aldeia, mas triste e decepcionado com a vida que levava. - Sabe – disse-lhe um dia, – eu não faço como o anterior habitante da Isba, o Piotr, que acusava o Czar de todos os males deste mundo e do outro. Não, o que está mal é esta imunda Sibéria com o seu eterno ciclo, mosquitos-lama-frio. No Verão temos o rio e os mosquitos, no Inverno a neve e o gelo, nada mais. Nunca tive condições para visitar as grandes cidades. Para além de Krasnoiarks, não conheço mais nenhuma cidade.

Uma vez instalado na Isba arrumada e pintada como Anton D. achava que deveria ser, deixou-se levar pela curiosidade e começou a ler os papéis de Piotr Ivaneivitch, interessando-se muito pelos seus diários. Aparentemente eram três os diários que o autor denominava de "diários de bordo", se bem que raramente Anton D. encontrasse lá algo relacionado com navios. Só na descrição de uma viagem a Odessa é que pôde ler as observações de Piotr a respeito do Mar Negro e dos navios que frequentavam aquele porto ucraniano do sul do Império. Mas, nunca conseguiu encontrar um endereço da personagem, só várias referências à rua que habitava, em Kiev, na cidade das cúpulas douradas das margens do Dnieper, na cidade velha junto à colina de Petschersk. Anton D. pensou que seria capaz de encontrar o paradeiro dos pais de Piotr se fosse a Kiev, principalmente porque ele faz uma descrição da urbe, escrevendo: "Mais que uma cidade, Kiev é formada por três cidades diferentes, cada uma com o seu carácter próprio: a cidade moderna atravessada pela grande avenida Kreschatik, a cidade velha sobre a colina de Petscherks e o Podol, a cidade junto à montanha, um bairro pitoresco e comercial nas margens do Dniepr. Eu moro na rua que desce para o Podol, numa casa de primeiro andar com porta directa para a rua e um balcão vidrado por cima, sem que nas traseiras não falte um pequeno jardim, sempre coberto de neve no Inverno, mas é uma casa velha e decrépita, os meus pais não são ricos, não podem arcar com as despesas de reparação".

"Mas quando poderei lá ir? Só depois de a guerra acabar e, mesmo assim, sei lá quem vai ganhar e o que vai acontecer ainda", pensou Anton D. " Que estupidez a minha ter-me deixado apanhar assim sem mais nem menos. Porque emigrei, porque não liguei a vários escritos que anunciavam uma guerra entre todas as nações militaristas? Está bem, emigrei e estou agora aqui a pagar o abandono da pátria e dos pais, mas vivi muito bem. Na minha aldeia nunca seria nada na vida, não havia lá espaço físico e social para os novos, aquilo é tudo dos velhos ricos e nobres. Mas, na Rússia é outra coisa, há espaço físico, faltando só as pessoas inovadoras e optimistas, como eu, que também são desprevenidas, como é evidente. Desprevenido? Não, não tanto, estrangeiro, sim estrangeiro, um cidadão que não percebe bem o que se passa à sua volta" - desculpou-se Anton D. consigo mesmo, acrescentando: "Há qualquer coisa em cada país que só é acessível aos naturais, que mais não seja pelas amizades de infância e pelo conhecimento de pormenores comportamentais que a um estrangeiro passam despercebidos, mesmo quando consegue adquirir um pouco do espírito da língua como acontece comigo."

Já com a sua "Isba" em ordem e depois de ter conseguido acender a lareira, Anton D. aproveitou uma manhã solarenga para ir ao local em que trabalhavam os pescadores. Adquiriu-lhes uma rede de rio e iniciou a sua faina piscatória que iria durar até que o rio se transformasse numa imensa camada de gelo. Olharam para ele com um olhar desconfiado e aparentemente cheio de dúvidas, adivinhava-se-lhes no olhar que ali estaria outra vítima do sortilégio da casa da velha Zida. A época era má para apanhar seja o que for, só no começo da primavera, quando os "taimen" da família das trutas sobem o rio, todos vermelhos e carregados de ovas, é que a pesca se torna extremamente compensadora, disseram-lhe os pescadores.

Dias depois, conseguiu comprar à sua senhoria a caçadeira do falecido filho com cinquenta cartuchos, prometendo-lhe um abastecimento constante em caça do mato. A velha viúva cozinharia depois o que Anton D. iria caçar ou pescar, e ele cuidaria sempre que ela ficasse com mais do que ele próprio comia. Logo no primeiro dia que foi comer à casa de Zida, esta cozinhou uma excelente "shi", sopa de couves amargas, e ofereceu-lhe um pouco de "kacha", farinha de trigo torrada. Do grande "Samovar", a velha Zida tirava continuamente água fervente para o chá. Ficou assim a conhecer a trágica história do filho e da nora de Zida, os primeiros habitantes da "Isba". Constou na aldeia que tinham descoberto um mina de ouro e num dia negro de Inverno alguém entrou na "Isba" e matou o casal, não sem primeiro os torturar terrivelmente, no intuito evidente de conseguir a localização da mina. Pouco tempo depois, um comerciante aburguesado registou junto das autoridades uma mina de ouro. Para Zida Vassielenova, o burguês foi evidentemente o mandante ou o próprio autor do crime, mas as suas relações com as autoridades judiciais e policiais de Krasnoiarsk eram excelentes, pelo que não resultaria a sua denúncia.

 

publicado por DD às 00:44
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