Sexta-feira, 5 de Março de 2004

Uma Noite em Vila Nova

A estação de Vila Nova de Cacela é mais um apeadeiro que outra coisa; um velho edifício típico das estações dos anos vinte ou trinta com o relógio dos caminhos-de-ferro, modelo Estação de Zurique 1900, e o alpendre para abrigar os passageiros da chuva.

Um café esplanada foi instalado numa zona exterior do edifício, mas nem sempre está ocupado por servidores ou clientes. Só no verão é que alguém aceita a concessão para a dar como concluída logo às primeiras brisas frescas e aos chuviscos do Outono. De resto, as composições que passam por Vila Nova a caminho do fim da viagem, ali perto em Vila Real, raramente largam ou tomam passageiros, nem mesmo quando seguem no sentido contrário para a capital provincial.

A população permanente ou veraneante raramente utiliza aquele meio de transporte. Prefere, sei lá, o automóvel ou o autocarro. Mas já nem os carros passam pela antiga passagem de linha, hoje fechada ao trânsito, pois a uns cem ou mais metros foi construído um viaduto sobre o caminho-de-ferro.

A estação tornou-se pois um local ameno, quase aprazível, bom para que alguém por lá pernoite. Kurt Lang considerou num único relance essa possibilidade quando a pé tencionava chegar a um parque de campismo situado para o interior da província, na terra seca dos xistos e vegetação rasteira a mostrar um solo paupérrimo, a uns dois ou três quilómetros da estação.

Olhou, viu o alpendre da estação, os bancos polidos por milhares de calças e saias de pessoas que se sentaram, e logo pensou que talvez fosse melhor passar aí a noite, reparou nos muros baixos que circundam os pequenos jardins das casas da vizinhança, quase todos com figueiras e outras tantas árvores de fruta. - Sempre seria mais barato passar aqui a noite”, pensou, e, além disso, estaria na vila e mais perto das praias-.

Vinha a pé, cansado, desde a estrada, um pouco mais abaixo, onde a um quilómetro da vila foi largado por um condutor que lhe dera uma boleia desde Lepe.

Andava à boleia para gastar pouco, Lang procurava palavras, conhecimentos linguísticos, queria traduzir para o alemão literatura portuguesa e espanhola. Imaginara poder aprender as duas línguas em simultâneo. Já tinha percebido que tal é impossível a um estrangeiro, mas acreditava numa certa aproximação. De resto, conhecia já razoavelmente a língua espanhola e estudava com afinco a portuguesa.

Estivera numa aldeia da Estremadura espanhola a estudar o castelhano falado e a ler Miguel Delibes. Agora queria ler Saramago e Pessoa rodeado de sons portugueses.

Perto da estação situa-se a loja de todos os alimentos do velho João Costa, aí Kurt Lang aboletou-se por alguns momentos, pediu uma cerveja e escolheu umas empadas que estavam num prato cobertas por uma espécie de guardanapo de tecido branco. Depois mandou fazer uma sandes de queijo e entabulou uma longa e difícil conversa com o patrão, o velho Costa, na qual se meteram todos as figuras que na loja passavam a maior parte do seu tempo, todos reformados.

Kurt falou no seu misto de espanhol e português rudimentar de onde vinha, de Munique e da sua vida e os outros referiram os conhecimentos que tinham daquelas bandas, dado que muita gente emigrou da zona ao longo dos anos. Um dos presentes, o Rui Roberto, falou da sua estadia de três anos no país de Kurt Lang a trabalhar na construção em Berlim, na grande praça que nunca mais estava pronta, a Potsdamer Platz. Quando saiu de lá, ainda a praça e as zonas limítrofes não estavam concluídas.

- É verdade -  disse-lhe Kurt - a praça ainda está em construção, mas já lá tem os edifícios que representam o capitalismo máximo da Alemanha e de outros países como o Japão, por exemplo.

Com o sol já desaparecido para Oeste e tapado pelos montes, Lang preparou-se para assentar o seu arraial num dos bancos da estação. Não sabe porquê, mas escolheu o mais polido. Desdobrou o seu saco-cama, foi fazer uma mija numa zona lateral junto a um vagão ali abandonado. Olhou para céu enquanto sacudia longamente os últimos pingos para não sujar as cuecas. O céu continua límpido como há bocado, nem uma nuvem, pensou, e contemplou aqueles raios vermelhos que o sol deixara ainda e que se preparava para desaparecer.

Raios, disse ainda para si mesmo, este ar é tão puro como o de uma alta montanha sem ter a leveza que dificulta a respiração e provoca o cansaço muito rápido, Verdammt, nunca vi ar tão puro, céu tão azul e sol tão brilhante. A noite aqui deve ser linda de ver todas as estrelas do Universo.

Assim a pensar e a falar com os seus botões, desapertou os seus jeans de dia, já na escuridão do alpendre, e sacou da mochila os seus chamados jeans de dormir, o meu pijama, como costumava dizer, umas calças muito rotas que serviam apenas para dormir enquanto as outras descansavam.

Enquanto mudava de calças, Lang contemplou o sossego que o rodeava. Apenas umas vozes, aparentemente de crianças, vindas de alguma casa do outro lado da linha. Então Kurt Lang recordou uma frase do terceiro livro da trilogia Amazonas de Döblin e recitou para si. Neste Mundo nada acontece, tudo move-se apenas.

 É isso, a mim não acontece nada, só movimento. Com esses elevados pensamentos, Kurt Lang meteu-se no saco-cama e adormeceu quase de repente. O dia tinha sido cansativo e chato, apenas movimento e ao raiar da manhã seguinte, novamente movimento e nada a acontecer.

Já perto da madrugada, Kurt foi acordado por uns ruídos que não percebeu o que eram. Assustou-se um bocado e abriu o saco-cama de repente, saltando para fora para não ser apanhado por algum assaltante sem se poder defender. Mas, depois ficou imóvel para perceber de onde vinham os ruídos e o que eram. Kurt ouviu uns passos e depois algo que lhe pareceu um soluçar lento e baixo. Olhou para todos os lados e avançou para ver o que se passava junto ao vagão velho.

Aí, com grande espanto seu, viu uma mulher descalça com sapatos na mão e de cócoras como que a esconder-se de alguém. Kurt avançou lentamente com as palmas das mãos abertas e um pouco levantadas a sinalizar que não pretendia nada de mal e perguntou se a senhora precisava de ajuda. Ela não percebeu e enxugava as lágrimas a dizer-  como? Como?  Ajuda, ayuda foi repetindo Kurt. Por fim a percebeu e disse.

 -Obrigado, o meu marido quis espancar-me, pelo que fugi de casa, nunca mais lá volto. Ele deve andar por aí à minha procura para me bater.

Kurt não entendeu logo o sentido da palavra espancar, mas percebeu que a senhora escondia-se do marido. Voltou a oferecer os seus préstimos e disse-lhe que debaixo do telhado da gare estaria mais protegida daquela humidade de Março. Ao mesmo tempo foi reparando que a senhora era ainda jovem, talvez com menos de 30 anos e razoavelmente bonita e bem feitinha.

Ela pediu-lhe o favor de dar uma volta em torno da gare e ver se estará por lá algum homem, o que foi feito por Kurt que inspeccionou toda a área ali à volta sem ver viva alma.

 

publicado por DD às 23:28
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