Sábado, 19 de Novembro de 2011

Conto da Palma da Mão: Ela

 

 

António entrou no Senhor Roubado, já vinha um pouco atrasado e o Metro perto das nove enche-se logo ali. Na Ameixoeira entrou mais gente e muito mais no Lumiar. António ficou de pé numa plataforma de porta e, de repente, ficou espantado, viu-a na outra plataforma. Não podia deixar de a reconhecer imediatamente e olhou com os olhos muito abertos para ela que se colocou de pé virada para ele. Não desviou a cara e fitou-o com interesse; António fez um aceno com a cabeça e queria sorrir, mas não conseguiu, a tristeza apoderou-se dele. Ela acenou timidamente e não desprendeu os olhos dele.

António pensou para consigo: a Armanda está na mesma, bonita como sempre, não engordou e mantém aquela saia negra. Ela parecia compreender o que ele pensava e soergueu as sobrancelhas como que para ver melhor. O semblante de António deveria mostrar uma profunda tristeza e dizia-lhe em pensamento: que pena ter-te perdido por tão pouco. Fomos casados cinco anos e por quase nada separámo-nos e divorciámo-nos, não deixámos nada um para o outro, nem uma criança. Será que ela tem alguém? É muito possível, a Armanda é demasiado mulher para não ter homem. Eu é que nunca mais arranjei alguém como ela. Vou tentar falar-lhe, mas isto está mais que cheio. Talvez no Campo Grande saia muita gente e então aproximo-me; ela quer falar comigo pois não desviou por um segundo a cara de mim. Podíamos reatar a nossa ligação; passaram-se anos, mas como? Estou prestes a perder o emprego, a direção da Companhia Marítima já disse que ia dispensar metade do pessoal, logo que fosse publicada a nova legislação do trabalho. E para que serve um desempregado a uma mulher como a Armanda, ela vem bem vestida, mas não mudou de hábitos desde há mais de cinco anos, trás um belo anorak vermelho.

No Campo Grande saiu muita gente e a Armanda também. António viu-a atravessar o cais e dirigir-se para a outra linha do Metro. Para onde irá? Perguntou a si mesmo e porque razão nunca a vi nesta linha em que viajo há tanto tempo duas vezes por dia.

 

publicado por DD às 19:29
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Junho 2017

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30

.posts recentes

. O verdadeiro crime é vive...

. Dieter Dellinger Comenta:...

. Um Nobel Esquisito Este A...

. As Contradições do Mundo ...

. A Morte de Cristo em Verd...

. O Homem em Declínio da Fi...

. A NOVA ERA DO HOMEM INÚTI...

. O Meu Pai na Alemanha da ...

. O Fim da Guerra para o me...

. O Suicídio do Sósia

. Dieter Dellinger: Dívidas...

. O Cristo Apunhalado

. Dieter Dellinger: O Padre...

. Camus nasceu há 100 anos

. Merkel imita António Cost...

.arquivos

. Junho 2017

. Outubro 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Maio 2015

. Janeiro 2015

. Junho 2014

. Fevereiro 2014

. Novembro 2013

. Junho 2013

. Dezembro 2012

. Novembro 2012

. Agosto 2012

. Junho 2012

. Maio 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Novembro 2011

. Maio 2011

. Setembro 2010

. Junho 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Abril 2009

. Junho 2008

. Maio 2008

. Agosto 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Março 2006

. Janeiro 2006

. Julho 2005

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

.tags

. todas as tags

.links

Contador de visita
Contador de visita
Hospedagem de Sites
Contador de visitas grátis

.Online

web counter
blogs SAPO

.subscrever feeds