Sexta-feira, 22 de Julho de 2005

I. Capítulo da Novela de Dieter Dellinger - A Rússia

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Anton D. conviveu ao longo de um frio e penoso Inverno com o anarquista Piotr Ivaneivitch no degredo siberiano; foi um íntimo do seu espírito até se apropriar dele numa pequena e humilde barraca de toros de madeira, nas cercanias de Krasnoiarsk.

Desterraram-no para aí no verão de 1914 por ser um inadvertido e incauto cidadão de uma Alemanha que acabara de entrar em guerra com o enorme Império Russo.

De Kropotkine ou Furrier, o estrangeiro Anton D. nunca tinha ouvido falar, nem se preocupava com questões de natureza política. Vivia no Sul da Rússia, em Novocherkassk, a capital dos cossacos do Don, quase no Mar de Azov, essa pequena antecâmara de um mar maior, o Negro, mas bem pequeno quando comparado com os imensos e bravos oceanos do Planeta. Nasceu numa pequena aldeia de casas de madeira na Boémia alemã e emigrou para Moscovo depois de ter aprendido o ofício de mecânico-montador na Saxónia, numa fábrica de máquinas de moer cereais, onde fez com muito esforço o difícil exame de oficial da profissão. Trabalhou na fábrica durante algum tempo até lhe dizerem que na Rússia o respectivo representante necessitava de um técnico para orientar os trabalhos de montagem das máquinas.

- Aqui tu és só um operário, – disse-lhe o seu velho mestre, – mas com a tua idade podes ir para lá, mudas logo de categoria, passas a ser um técnico, quase um engenheiro, mais que um simples burguês, um nobre mesmo, sim um barão, eles dão esse título aos estrangeiros. Na Rússia, os engenheiros são praticamente nobres e tu, se fores bem vestido e deixares esses modos de proletário, entras na categoria alta, que mais não seja por seres um estrangeiro elegante e distinto. Olha, eles lá têm os mujiques analfabetos e umas grandes cabeças pensantes: filósofos, cientistas e escritores, mas entre uns e outros não há ninguém. Não têm gente com o nosso sentido do prático e da especialidade, que pouco sabe, mas bem. Tu és um rapaz esperto, até usas a régua de cálculo e sabes o que são os logaritmos, estudaste na Escola Superior Popular.

- Vai, o teu futuro está aí, no grande Império Russo.

Dito e feito, Anton D. aceitou a proposta do milionário moscovita, representante da sua fábrica para todas as Rússia, e depois das longas formalidades legais junto da embaixada russa em Berlim, tomou o comboio para Moscovo, a segunda cidade daquele imenso império, com a última edição do "Baedeker" para a Rússia debaixo do braço e um livro para aprender as primeiras palavras da língua e decifrar o complicado alfabeto eslavo. Anton D., apesar de ter sempre gostado de ler e completado a longa escola primária alemã, além de frequentar depois a Escola Superior Popular enquanto aprendiz na fábrica, mal imaginava que existiam outros alfabetos que não o latino e o gótico. Antes de partir, comprou dois bons fatos novos, um às riscas cinzentas e outro escuro aos quadrados, muito parisienses, como disse o vendedor, casacos assertoados e coletes bem cheios. Também adquiriu um espesso sobretudo com a ideia de que poderia mesmo assim não agasalhar o suficiente no frio Inverno moscovita. As duas gravatas de seda eram muito discretas e ficavam bem com o alfinete de pérolas e as camisas também de seda persa e com os dois chapéus de coco. Anton D. conseguiu ainda adquirir numa loja da especialidade uma vistosa bengala com cascão de prata e não esqueceu a metade do fio de ouro que o avô lhe deixara, a outra metade foi para o irmão. Gastou quase todas as suas economias e uns dinheiros que o irmão mais velho lhe emprestou.

Os pais de Anton D. eram extremamente pobres, pequenos agricultores quase sem terras. Tinham sido obrigados a vender parte das suas courelas por causa de uma grave doença de rins que afligiu em tempos o pai de Anton D..

Deixaram pois de ser pequenos proprietários com o suficiente para viver para serem quase que os párias da aldeia, obrigados a ceder a sua força de trabalho a quem pagasse. A mãe chegou a trabalhar na cozinha de um comerciante local, enquanto o pai tinha de negociar a paga diária com os nobres que lhe compraram as suas terras. Não fosse a nova escola primária instalada na sua aldeia e Anton D. nunca teria tido a oportunidade de entrar como aprendiz na grande fábrica de máquinas de moagem da Alta Saxónia e tornar-se um especialista.

Depois de chegar a Moscovo, Anton D. iniciou o seu trabalho na empresa de Alexandre Vassiliévitch, um riquíssimo comerciante, quase enobrecido com o título de "cidadão notável hereditário". Este não se deslocou à estação para receber o "proletário" da Boémia, mandou simplesmente o seu cocheiro privado, um homem "monossilábico" de cabelo muito grisalho; só dizia "da", sim, e "niet", não, além de "gaspadin", senhor, de vez em quando.

Quando Alexandre Vassiliévitch viu Anton D. elegantemente vestido com a régua de cálculo no bolso superior do casaco ficou deveras impressionado. Ainda por cima, o mecânico tinha boa presença, sem ser demasiado alto, não era baixo, magro com cabelos quase louros e uns bigodes recurvados muito ao estilo "fim de século". O russo deverá ter dito para o seus botões, eis um estrangeiro que ainda pode vir a ser barão, já que dão este título aos de fora e connosco limitam-se ao pouco esclarecedor "cidadão notável".

Anton D. começou logo por colocar os seus dotes de liderança ao serviço da empresa do milionário, comprometendo-se a treinar um grupo de montadores e afinadores das máquinas enviadas da Alemanha para equipar as novas fábricas de moagem que se estavam a construir um pouco por toda a parte. Depois das suas poses de grande técnico, Anton D. reparou que impressionava ainda mais os russos, o facto de ele ser capaz também de despir o casaco, arregaçar as mangas e vestir uma bata para mexer nas peças oleosas, apertar por ele mesmo as rodas dentadas, verificar a tolerância e afinar tudo. Para além de ser essa a sua tarefa natural e as poses não o fazerem esquecer a sua condição de operário, Anton D. fazia isso porque, por um lado, não acreditava que os auxiliares fossem capazes de o fazer e, por outro, achava que talvez não fosse boa política ensinar demasiado, poderia sair prejudicado.

Viajou muito por toda a Rússia, Anton D.; nos seus caminhos de ferro eternamente em linha recta, quase sem parar nas pequenas e médias cidades. Sentiu assim o incómodo dos longos trajectos em caleche por caminhos abertos ao acaso entre as estações e as cidades nas estepes lamacentas na primavera e poeirentas no verão. Isso levou-o a considerar indispensável abrir uma sucursal no Sul do Império, perto de Rostov, que abrangesse as grandes planícies seareiras entre os rios Dnieper, Don e Volga. Depois de um período de vários meses no Sul em que esteve a instalar algumas moagens novas, regressou com a proposta de instalar aí uma nova sociedade paritária com o milionário. Vassiliévitch, um homem cada vez mais ocupado com a multitude dos seus negócios, aceitou a proposta, tanto mais que na sua opinião já não seriam instaladas tantas novas fábricas de moagem como foram até à data na zona de Moscovo.

Anton D, estudou a fundo a língua russa e algumas das suas variantes dialectais, principalmente a ucraniana, dado deslocar-se com frequência às regiões entre Kiev e Odessa, muito ricas de trigo e, por isso, a necessitarem de fábricas de moagem. O seu primeiro professor foi mesmo um ucraniano, judeu de religião, o professor Moissei, um homem extremamente dotado para línguas, daí ser conhecido por professor. Ensinava então inglês e alemão em Moscovo, além do francês, hebraico e russo para estrangeiros. Queria amealhar algum dinheiro para emigrar para os Estados Unidos da América, fugido dos "progroms" que no sul do Império mataram o pai e afectaram os negócios da família. Moissei era um fanático da fonética, ensinou Anton D. a pronunciar tão bem os sons russos e ucranianos que o alemão chegava quase a passar por um natural, principalmente quando a conversação se limitava a poucas palavras. Depois, claro, vinham as dificuldades, mas com o tempo Anton D. adquiriu uma verdadeira mestria do russo, além de algo de ucraniano e um pouco das falas caucasianas. Ele gostava mesmo da língua russa e, por fim, pensava e até sonhava em russo, ou julgava que o fazia e acreditava na teoria de Moissei que dizia que uma língua aprende-se com o ouvido e que os seus ossículos se alteram com as variações do campo magnético terrestre, daí existirem dialectos e pronúncias diferentes conforme as coordenadas geográficas do lugar em causa.

Dois anos depois de chegar a Moscovo, Anton D. tornava-se sócio da filial da empresa de Vassiliévitch no sul da Rússia. O seu antigo patrão e agora sócio moveu rapidamente as influências necessárias para que se inscrevesse na primeira guilda dos comerciantes e na "tsekh" dos que trabalhavam com o estrangeiro. Anton D. subia enfim na vida; de humilde membro das classes urbanas por via da condição de artífice passou logo para a primeira guilda que lhe proporcionava mais consideração social, o que compensava o pesado imposto que foi obrigado a pagar. No fundo, a questão da consideração social era só consigo mesmo, já que a sua qualidade de estrangeiro levava a que ninguém à sua volta se preocupasse com a posição de Anton D. naquela invisível mas real escala de valores determinantes das classes sociais. Sob o ponto de vista social, o Império não era mais do que uma terra de ninguém para estrangeiros vindos do ocidente europeu. Ou antes, ser estrangeiro era já uma posição social em função do respectivo país de origem; no topo estavam os franceses, ingleses e alemães, estes já um pouco distanciados, dado existirem muitos cidadãos de origem germânica a exercer profissões humildes como a de camponês nos colonatos fundados por Catarina a Grande ou padeiro em S. Petersburgo. Talvez os alemães estivessem mesmo abaixo dos italianos, isto porque estes eram só conhecidos pelos arquitectos e artistas que apareciam ao serviço da corte imperial. Depois vinham os restantes europeus e em último lugar os turcos e afins, inimigos ou súbditos, mas sempre desconsiderados.

- Isto de condição social, nobrezas, burguesias ou proletariado são questões reais, mas despidas de verdade, disse-lhe um dia o milionário. - Mais não são que poses, assunção de papéis, por isso nunca me interessei verdadeiramente em tornar-me nobre. Prefiro ser o que sou e até contribuo bastante para os cadetes, os homens do nosso Partido Constitucional-Democrata que lutam por uma Rússia democrática sem nobres e de vez em quando dou uns rublos aos sociais-democratas.

Olha, Anton D., lá em baixo em Novocherkassk, aconselho-te a arranjares uma espécie de guarda da oficina e armazém e indico-te um nome adequado. Trata-se de um bandido, um misto de assaltante e político, trabalhou para a minha família em tempos, por isso estávamos a salvo. Os seus companheiros ou camaradas ou sei lá o quê, assaltam os outros e respeitam aqueles que lhes pagam mensalmente. De resto, vê bem, qual a diferença entre um bandido e um homem dito sério e proprietário de muitos negócios ou um nobre do aparelho do Estado? Nenhuma, nós é que somos todos assaltantes.

O milionário Vassielévitch era na verdade uma figura peculiar daqueles anos do princípio do Século na terra dos Romanov. Veio do nada, como se poderá dizer, o pai foi um bufarinheiro, um mercador ambulante "korobeinik" que andava de aldeia em aldeia a vender um pouco de tudo; sempre fugido às dívidas deixadas pelo avô de Vassielévitch. No esplendor do seu belo apartamento da Rua Tverskaia, a dos grandes estabelecimentos e prósperos comerciantes que desemboca na Praça Vermelha, Vassielévitch contou a Anton D. a sua história num dia em que o convidou para um lauto jantar, regado com o melhor "Bordéus", antecipado por um generoso vinho da Crimeia.

Fê-lo com o indisfarçável orgulho do homem que se fez a si mesmo e com o desprezo que sempre teve pelas nobrezas e classes sociais ligadas ao Estado com as quais nada tinha a ver. Limitava-se a comprar funcionários corruptos sempre que fosse necessário. Até tinha dinheiro para comprar nobres, o que lhe dava um infinito prazer e aumentava o seu desprezo profundo por todas as aristocracias.

- Se o meu pai era um mercador de caixa ambulante, a "korob" como lhe chamamos, não imagina, Anton D., o que foi o meu avô! Um escravo doméstico, um "dvorovié", propriedade de um nobre dos arredores de Moscovo, um criado, cocheiro, porteiro e sei lá o que mais? Quando veio a libertação dos servos, o meu avô não teve condições para deixar de ser o que era. De resto, o único ganha-pão dos servos, os da gleba, era a terra, mas tinham de a pagar por quase toda a vida; mantiveram assim a velha servidão, paga como que a prestações até à hora da morte. O meu pai não quis seguir essa vida, foi trabalhar para um talhante, dono de um pequeno talho em Roslavl, onde naturalmente roubava o que podia, tanto aos clientes como ao patrão sempre que este se ausentava para comprar gado. Depois de amealhar assim um pequeno pecúlio que serviu de capital inicial, pôs-se a caminho, percorreu caminhos intermináveis com o seu cavalo e um carro atrelado cheio de mercadoria. O meu pai quase sempre caminhava ao lado para não sobrecarregar o rodado. Sei lá o que ele vendia? Parece que de tudo, desde as chitas aos ícones mais sagrados e benzidos por todos os santos bispos. Sabe, nós na religião ortodoxa temos mais santos que todas as religiões do mundo juntas, provavelmente quase um cento por cada dia do calendário - dizia Vassielévitch, rindo-se muito. Mais ainda que as outras confissões cristãs, a ortodoxa é uma religião de bonecos e bonecas, acrescentou.

- Então e o Vassielévitch como é que começou a sua vida de trabalho? Perguntou a dada altura Anton D.

- Comecei aqui mesmo em Moscovo, o meu pai tinha-se cansado das andanças e instalou uma pequena tenda no campo Dévitchi, uma barraca que vendia um pouco de tudo em matéria alimentar e, em certas épocas do ano, quando do Carnaval moscovita, ia instalar outra tenda nos cais do Moscova. Enfim, não andava de terra em terra ao longo de centenas ou milhares de verstas, mas circulava com a sua tenda de uma zona da cidade para outra, conforme a ocasião. Eu, nunca gostei dessa vida, apesar de ser obrigado a ajudar o meu pai quase desde que nasci, suponho. Nem me lembro, obviamente, quando comecei. Mas, o meu pai morreu relativamente cedo e eu empreguei-me numa loja de fazendas. Praticamente não fui à escola, tinha aprendido primeiro a ler com a minha mãe e depois com uma ou outra pessoa que de vez em quando arranjavam para me ensinar, e mais nada. Mesmo assim, chegou para medir os tecidos e calcular os preços. Apesar de toda aquela vida miserável, o meu pai ainda deixou uma quantidade apreciável de ouro, não muito para os dias de hoje, mas bastante naquela época em que eram ainda poucos os comerciantes endinheirados. Com esse capital fiz-me sócio de um importador de máquinas e ferramentas inglesas, belgas, francesas e alemãs.

Anton D., que tinha a consciência de ser um actor ou mimo de um papel que escolheu interpretar naquilo que denominavam de sociedade, sentiu-se de algum modo justificado. Afinal, não era sempre necessário ser o que não se é, também se pode ser um proletário ou um bandido, conforme o lugar a que se chegou ou, simplesmente, um intérprete bem sucedido num papel previamente estudado.

publicado por DD às 01:19
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1 comentário:
De Anónimo a 22 de Julho de 2005 às 11:25
Boas.
O primeiro já o li, agora o 2º capítulo vou deixar para mais tarde.
Um abraço de amilamil
</a>
(mailto:mai_ato@sapo.pt)

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