Domingo, 15 de Junho de 2008

Que tenho a ver com o dr. Sousa Martins?

 

                        Acordei pelas quatro da madrugada, fiquei deitado a tentar colher algum ruído que me indicasse que algo se passava à minha volta; não ouvi nada, a vizinha do lado foi-se deitar, sem dúvida, pensei para comigo. Já não se ouve a música que enche quase todo o imóvel de oito andares. Também não ouço o carro do lixo: já passou, com certeza. Ainda pensei, às vezes parece-me que durmo mal, mas afinal nunca ouço o carro do lixo. E bem ruidosa é aquela viatura com os seus braços automáticos para descarregar os contentores do lixo no seu bojo.

Depois pensei no que se tinha passado umas horas antes, não que me preocupasse o assunto em discussão na reunião dos condóminos. Tinha feito a minha obrigação e pronto, nada mais havia para pensar, apesar de ter tomado a posição da minha mulher que propôs algo com outras vizinhas que não foi do agrado de parte da vizinhança. De qualquer maneira, não é nada de importante para mim e quem não gostou que assumisse o encargo em vez de se refugiar no criticismo. Fomos a votos e perderam, eles, frente a elas. Mas não, o importante não foi aquilo, não vale a pena de pensar, nem ficar contente ou descontente.

            Não, o que me desagradou foi ver aqueles velhos todos a refilarem, uns mais reformados que outros, todos terrivelmente envelhecidos, papudos, decrépitos. Todos, quase como eu, não inteiramente mas quase e poucos anos devem faltar para isso, calculo. Sim, como eu, e isso sim é que chateia. Já tinha reparado que me vejo nas outras pessoas quase sempre ao espelho. Situo-me nos outros, invento uma história para cada um.

            O meu prédio está velho e assim estão muitos dos seus habitantes, por isso não querem renovar as fachadas nem pintar os interiores. Talvez tenham medo que o prédio venha a ter um aspecto mais jovem que eles, ou que fiquem em desvantagem, assim velhos num prédio com ar de novo. Talvez, talvez, mas que estupidez. De qualquer modo, o prédio é mais novo que a maioria de nós. Quando os reformados de hoje nasceram, aquilo ainda não era a cidade, não passava de hortas e jardins de algumas casas apalaçadas. O pessoal vinha da cidade velha refrescar-se nas zonas sombreadas depois de percorrer as velhas e sonolentas azinhagas que não perderam ainda o nome mas foram transformadas em ruas de trânsito buliçoso.

            Lembrei-me subitamente do meu vizinho Mesquita do andar de baixo. Teria sonhado ou ele contou-me mesmo que foi à consulta do doutor Sousa Martins, defunto desde o início do Século XX.

            Como assim? Tinha perguntado.

- Sabe – terá ele dito -, levei muito tempo a conseguir a consulta, aquilo tem uma fila de espera tremenda, o doutor está sempre disponível, mas o problema é o médium. Ali só havia um, por isso levei muito tempo a ser atendido, sim, esperei cinco semanas.

            Marcaram-me para as três horas. Ainda esperei uma hora e, pelas conversas que ouvi, havia ali gente que veio da província à consulta e lamentavam-se que o Serviço Nacional de Saúde não participe no preço das consultas. Um senhor disse-me que lá fora havia uma comparticipação para este tipo de consultas, aqui não, nem a ADSE dá algum. “Somo mesmo um país rasca”, disse um senhor todo engravatado.

            Recordo que me mostrei céptico, o que ofendeu o Mesquita. Muito sério disse que aquilo não era brincadeira nenhuma e que os resultados são muitos mesmo. Ele sofre de uma dor incerta no peito. O Doutor Sousa Martins receitou umas compressas de água quente e uma infusão de umas folhas que eles lá vendem, além de outros medicamentos.

- A Sala do consultório é muito simples, a uma mesa lisa está sentado o médium com um ar absorto, mal cumprimenta com o cabelo todo penteado com brilhantina. Faz-me sentar e pede para entrar em comunicação. Digo o que sinto, enquanto ele contempla o tecto como que a perguntar se o defunto o ouve.

Depois, passado um longo silêncio em que terá ouvido o conselho do doutor, diz-me o que devo fazer, fazendo de imediato sinal para a porta.

Era um rapaz novo o médium. Dizem que numa das últimas encarnações trabalhou com o doutor Sousa Martins.

Será que o doutor Sousa Martins pode tratar de casos de obesidade crónica como o da nossa vizinha do sexto? Perguntei ao Mesquita.

-         Porque não? Diga-lhe que marque uma consulta.

Na verdade, entre os diferentes tipos psico-sociais de indivíduos que habitam o prédio, a extrema obesidade da Francisca provocava uma profunda impressão nos meus circuitos emocionais, apesar de não ser um tipo demasiado emotivo e preocupado com a linha das pessoas, inclusive de mim mesmo. É que há exageros, e a senhora vive como que profundamente dominada por um único evento, o acto de comer, o que não cessa de se agravar, tanto mais que foi reformada do ensino.

Não há meio de amanhecer para me levantar, não consigo dormir a esta hora adiantada da madrugada, reparo que estou destapado e tenho frio nos pés. Volto-me e desligo os pensamentos. Fico novamente a sonhar acordado.

Recordo depois o sonho da morte. Penso; um tipo está vivo, um gajo magro e curvado para a frente, sabe línguas, leu muitos livros, andou anos na escola e na universidade, trabalhou durante mais de quatro décadas e, de repente, apagaram-se os neurónios, desapareceu tudo, fica massa cinzenta de lixo para ser comida por milhões de bactérias da putrefacção. Horas antes, o desconhecimento da hora da morte dava-lhe a ideia de uma certa eternidade. Depois pronto, acabou.

A vida limitou-se a um instante na história do desconhecido.

Parece que adormeci de novo a pensar em coisas tristes; horas depois regresso aos pensamentos anteriores, mas é tarde, levanto-me que o dia é de trabalho. Vou para a cozinha comer qualquer coisa e vem à minha mente os 130 quilos da vizinha do lado.

Não, não quero ser assim, nem posso ser, claro, estou muito longe disso, mas o melhor é tomar o café sem açúcar e comer uma torrada com rodelas de maçã e deve chegar até ao almoço, a meia dose mais a sobremesa.

O dia é para ser igual aos outros, não muito longe da estátua do Sousa Martins.

Ao passar por lá penso no Mesquita. Então o gajo culto e não sei o quê mais acredita no defunto?

Sim! E não é só ele, aquilo dá origem a um negócio de velas e de placas de agradecimento por curas milagrosas. O gajo, o Sousa Martins, deve ser um santo laico. Existe isso? Claro, no espírito ou mente das pessoas existe tudo, até um santo que se suicidou. As pessoas acreditam em tudo como os leitores do Código da Vinci de Dan Brown que vão Paris e Londres encontrar os lugares descritos pelo autor. Por sinal, todos trocados, mas não faz mal.

Porra, digo para mim, será que os putos acreditam que o Harry Potter existe?

Bem, que eu me lembre, nunca coloquei a mim mesmo a questão de saber se o Sandokan e o Gastão dos livros do Emílio Salgari existiam ou não, quando os lia com doze a treza anos. Foram os meus heróis e o que interessava verdadeiramente era aquela Ásia insular capaz de receber todos os aventureiros europeus.

Mas, afinal, o que tenho a ver com o dr. Sousa Martins? Nada, absolutamente nada, o defunto é já só esqueleto.

 

Texto de Dieter Dellinger

            

 

publicado por DD às 09:17
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2 comentários:
De almerinda oliiveira a 3 de Abril de 2017 às 01:18
muito triste comentar de vivos quanto mais de mortos cuidado com a lei do retorno --acaso acredita que foi criado por quem?era a pergunta que gostaria que me responde se ----confesso que num pais de liberdade aceito o seu texto mas fiquei agoniada com a maneira como se é humilde nao?DEUS proteja
De DD a 25 de Junho de 2017 às 23:37
É capaz de ter razão, mas uma pessoa deixa-se embalar pela escrita e acaba por pensar em várias asneiras.
Talvez a asneira seja necessária para o avanço do pensamento e da civilização. Não sei! Mas pode ser.

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