Segunda-feira, 1 de Janeiro de 2007

O Milionário

 

               

        O milionário esticou bem as pernas, levantou os braços e esfuziante de alegria espreguiçou-se completamente na luxuosa cadeira de pele, modelo “capitains chair”. “É para arejar as almofadas da coluna”, explicou aos companheiros de viagem. Vinha vestido com simplicidade; uns jeans com cinto preto elástico, uns mocassins ligeiros de camurça com sola de pitons de borracha, sem meias e uma camisa branca às riscas azuis. O seu jacto privado, um Citation X, acabava de levantar voo de S. Maria nos Açores e elevava-se até aos 50 mil pés de altitude rumo às Bermudas. Aí, mais uma vez, o milionário iria controlar o giro imparável dos negócios nacionais e internacionais no seu privadíssimo Triângulo das Bermudas, centrado no seu banco offshore a que deu o nome pertinente The 5th Column Bank, uma ideia muito malandra de um dos seus colaboradores para os negócios internacionais.

         A aeronave era pequena, apenas para uns sete a oito passageiros e dois pilotos, mas luxuosamente instalados. No centro de cabine quatro cadeiras de pele frente a frente, atrás outras duas e mais à frente, uma espécie de strapontin, um divã de dois lugares frente a um bar em material brilhante lacado com um centro de onde saíam garrafas de cristal Atlantis com whisky e licores. Nada de champanhes por causa da baixa pressão da cabina.

         Nos quatro lugares centrais de frente com pequenas mesas à frente para trabalho com os computadores portáteis estavam sentados o milionário com o Ted Lund à sua direita, o homem dos bancos invisíveis das Bermudas e da Ilha Guitar, my offshore man, como dizia o milionário e em frente deles, o gestor internacional do grupo do milionário, o Bob Silva e a seu lado o adjunto e economista Carlos Meneses. Atrás seguia o advogado internacional Lemos Allen, um gibraltino misto de português, inglês, espanhol e mais algumas nacionalidades como convém a todo o bom gibraltino e Heidi Martinez, a secretária pessoal do milionário.

 

O Manuel, o guarda-costas, encarregado no voo de encher os copos e distribuir as bebidas, seguia no strapontin.

         A ascensão do jacto particular parecia ser eterna. Nunca mais chegava aos 50 mil pés, uma altitude incrível para qualquer avião, em particular para os business jets; pequenos, mas caríssimos. O milionário costumava pedir ao seu comandante de avião para o elevar aquela altitude, pois sentia-se mais seguro, não iria temer uma colisão com algum Jumbo. Apesar do comandante Miguel lhe asseverar que naquela rota entre os Açores e as Bermudas não há tráfego aéreo normal e em baixo também não são numerosos os navios. - Parece que todos temem o famigerado triângulo das Bermudas, - disse-lhe um dia.

         Mas, talvez não fosse medo, seria apenas uma explicação. O milionário era um homem radical, gostava sempre do máximo em tudo, maior altitude, maior velocidade e maior risco. E havia algum risco, já que o Citation X é um bimotor pequeno, mas de grande alcance, que não deixa de apresentar algum risco numa travessia dorsal do atlântico de norte para sul-oeste, longe de quaisquer pistas de apoio com o mar imenso por baixo.

         O guarda-costas foi servindo as bebidas e o milionário preparava-se para iniciar a discussão sobre o futuro das suas empresas mundiais.

         O economista Dr. Meneses e o jurista Dr. Lemos Allen foram convidados para esta viagem com a missão de discutirem um plano de reorganização das empresas internacionais do milionário, as quais além de dispersas por muitas áreas geográficas não formam um conjunto coeso. O milionário tem interesses na venda de automóveis, nos seguros, na banca nacional e offshore e em muitas outras actividades, incluindo, naquilo que ele teima em dar pelo nome de logística, uma pequena empresa que se dedica a colocar papéis nas caixas do correio.

         - Até aterrarmos na Guitar Island depois do reabastecimento nas Bermudas temos de ter discutido a reorganização do meu projecto global ou antes de globalização, - disse o milionário com a sua boa disposição, acrescentando: - Vocês vão ver-se aflitos quando aterrarmos em Guitar Island, aquilo é tão pequeno que a pista de aviação cruza a ilha de costa a costa. Pegamos na pista em plena praia logo a seguir à rebentação das ondas e paramos na outra praia a ver as ondas a salpicarem a nossa carlinga. Mas é assim, além da pista a ilha tem um edifício com muitas caixas de correio e umas secretárias que as abrem e atendem aos e.mails que lhes são enviados. Registam aí uns números e transferem-nos depois para Nova Iorque, para o Mannhatan Bank, por exemplo.

         - Mas, vamos ao essencial, Dr. Meneses, por onde acha que devemos começar para chegarmos a um bom projecto de reorganização de todas as nossas empresas? Perguntou o milionário.

         - Bem, - respondeu Meneses, - o principal é sabermos concretamente qual o nosso verdadeiro objectivo estratégico, por mais trivial que seja, é esse o objectivo que escolheremos como target, alvo, a atingir com todas as setas no centro. Qual é pois o seu verdadeiro objectivo no que respeita aos seus investimentos fora de portas, chamemos-lhes assim.

         - Para mim, - respondeu o milionário, - a questão não é propriamente entre fora ou dentro de portas e por portas entendo a fronteira do meu País. Não, a questão é trivial, mas tem algo de complicado ao mesmo tempo.

         - Meus amigos, a riqueza tem regras, é genética no seu carácter replicante e não procura encerrar-se no espaço estreito de quaisquer fronteiras nacionais, mesmo que sejam as dos Estados Unidos da América, por exemplo, quanto mais de um país minúsculo como Portugal. E não esqueçamos que riqueza e pobreza andam lado a lado, basta a queda a pique das cotações bolsistas associada à insolvência daí resultante para passarmos da riqueza para a pobreza. Bem, mas não é isso que me preocupa. O que pretendo é reorganizar todo o meu Império, dar-lhe uma lógica, uma coesão e uma maior transparência em termos de controlo, mas simultaneamente fazer com que de fora não se vislumbre a sua dimensão e, menos ainda, a sua coesão e transparência. Esta é só para dentro. De fora deve reinar a opacidade absoluta.

         Número Um? Perguntou Meneses, diga-me o primeiro objectivo, o número um, é esse que devemos discutir e trabalhar. Depois virá o número dois.

         Ora, meu amigo, número um é a dispersão da fortuna, a sua desnacionalização, repare que a verdadeira propriedade privada só o é quando desnacionalizada. Sim, não é por acaso que chamaram nacionalizações às expropriações. E não é uma questão de falta de patriotismo, até dei dinheiro para se fazer a Associação Patriótica de Aljubarrota para recordar o heroísmo dos portugueses de então quando estamos a vender tudo aos espanhóis.

         A riqueza não é patriótica, os cemitérios dos soldados mortos estão cheios de pobres, eles é que fizeram as pátrias. Talvez para gozo dos ricos e poderosos, ou o contrário, talvez para que dos seus investimentos e trabalho saia uma mais-valia suficiente para ser delapidada em guerras e mortos, acrescentou ainda o milionário, continuando: Olhe, nos tempos do meu avô, ser rico era ter um apartamento em Paris e um chalé na Suíça e umas empresas em Portugal, Brasil ou nas colónias. O meu avô vivia assim, geria uma fortuna sempre em viagem, mas foi o meu bisavô que fez fortuna no Brasil.

         - Percebi bem o seu ponto de vista, o seu número um, - retorquiu o Dr. Meneses, - e até li isso em teoria filosófica. Sabe, nada melhor que um filósofo de esquerda para interpretar a essência do capitalismo como significante de usufruto de riqueza.

         - Claro, ninguém como Karl Marx percebeu o que é verdadeiramente o capitalismo. Por isso é que os comunismos se converteram tão bem ao capitalismo e ultrapassaram aí tudo o que seria imaginável em termos de riqueza. Veja só o Abramovitch e os outros oligarcas, russos, chineses e sei lá que mais. Uns gajos ou gajas até conseguem comprar cadeiras presidenciais para se sentarem como presidentes de países que até há pouco se diziam de si mesmo como ditaduras do proletariado.

         - Não, não me referi a esse gigante do pensamento. Nem sei bem se era um filósofo de esquerda, - acrescentou Meneses. – Era sim um professor de filosofia, um francês de origem russa, Alexandre Koyré, que escreveu A Quinta Coluna.

         - Ah, então foi aí que você foi buscar o nome do meu banco, não é verdade?

         - Em parte sim, - respondeu o economista – mas o essencial do pensamento de Koyré foram as previsões escritas há mais de meio Século. Ele referia-se à riqueza ou aos ricos com posições de comando de grandes grupos multinacionais e que, por isso mesmo, se desligaram das obrigações que permitem a existência de dos Estados Nações e querem sempre menos Estado como forma de reduzir a sua parte nos custos da existência das próprias pátrias.

         - Homem, você deu para nacional-socialista ou o quê? – Perguntou o milionário.

         - Não, eu acredito que, por enquanto, o número de pobres e de membros das insignificantes classes médias é suficientemente grande para manter vivas as pátrias e paralelamente as grandes fortunas apátridas que carecem de mão-de-obra barata e afluência da parte dos clientes. Hoje, – continuou o Meneses – a função essencial dos ricos é manter a riqueza privada, mesmo que seja à custa da chamada felicidade das pátrias e dos povos.

         - Bem, apesar de tudo, acho o seu raciocínio correcto. A nação é sempre inimiga das fortunas, o poder, principalmente o democrático, pretende sempre apoderar-se do que é nosso, seja com impostos, seja com licenças ou até expropriações ou nacionalizações. Por isso, temos de nos defender. E o que propõe em concreto, caro doutor?

         - Muito simplesmente, transferir os seus bens imóveis para uma holding sedeada nas Ilha Guitar e fazer das suas empresas apenas inquilinas. Você ficará com a situação garantida de senhorio e as empresas serão inquilinas com os seus dinheiros e acções.

         Apesar de não ter gostado muito da referência que o economista fez ao filósofo Koyré, o milionário sorriu. As palavras do Meneses foram como que uma lâmpada de Aladino para ele. Mas, perguntou: - E os accionistas como vão reagir?

         - Para o fazermos temos de ir conquistando maiorias absolutas naquelas empresas em que não somos já maioritários, nem que seja por um curto espaço de tempo e na base de participações cruzadas e empréstimos bancários e depois transferimos o património imobiliário para a nossa holding portuguesa. Por fim, o nosso 5th Column Bank da Guitar Island compra a participação maioritária da holding que emitiu mais acções por via do património adquirido. Sim, a nossa intervenção no nosso próprio holding vai provocar uma subida das nossas acções na bolsa como aconteceu com as da Sonae. Limitamo-nos a fazer o que fez o nosso amigo Belmiro.

         - Genial, Dr. Meneses, você é um mestre das engenharias financeiras. E depois nem importa que as acções desçam para um valor inferior ao de uma bica como aconteceu com as do Azevedo. Antes disso, fizemos bom dinheiro com as vendas e depois compramo-las ao preço de uva mijona. Os lucros não irão mais para o Estado nem para os accionistas, ficarão na Guitar Island, pagamos apenas umas gorjetas para Mr. Finance Minister. Estou desejoso de lá chegar e tomar um banho naquelas águas quentes das Caraíbas.

         - Você, Doutor Allen, comece já a prepararas questões jurídicas para ver se antes do fim do ano temos as transferências realizadas.

         O Dr. Meneses ainda acrescentou: - Segundo os meus cálculos você vai ter um lucro extra de mais uns oitenta milhões de euros. Só em impostos poupa uns vinte e cinco milhões e outro tanto em dividendos que não pagará aos accionistas. Com os lucros das rendas e honorários das suas presidências, meu caro, você é mesmo um homem de sorte, vai ficar com mais de cem milhões de euros, sim, vinte milhões dos antigos contos.

         Subitamente ouviu-se um estrondo. O milionário olhou para o lado pela janela e viu o reactor de bombordo em chamas. O Citation X perdia altura com rapidez, a força da gravidade reduzia-se e todos se sentiram menos pesados.

         - O que se passa? – Gritou o milionário. Manuel! Pergunta ao piloto o que está a acontecer.

         O guarda-costas foi ao cockpit e viu os pilotos muito aflitos e ocupados. Fizeram-lhe um sinal para se afastar. O avião perdia altura com cada vez mais rapidez. O milionário empalideceu subitamente e perguntou ainda: - mas para onde vou com os meus cem milhões anuais?

         Ninguém respondeu, o mar aproximava-se rapidamente e a inclinação da aeronave colocava todos em posições muito incómodas, apesar de já terem os cintos de segurança apertados. O Dr. Meneses tombava sobre o milionário que nem queria olhar pela janela. Os copos e garrafas de cristal voavam por todos os lados.

         De repente ouviram outro estrondo medonho; o avião chocava com as águas revoltas do Atlântico; uma das asas quebrou-se e a carlinga mergulhava rapidamente com a frente desfeita.. O milionário tinha colocado a máscara de oxigénio e, por isso, viveu mais uns segundos mergulhado na água com tudo desfeito à sua volta. A pressão acabou por os sufocar a todos. Não chegaram à Ilha Guitar, assim denominada por ter a forma de uma guitarra.

 

 

publicado por DD às 23:52
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3 comentários:
De GMaciel a 26 de Fevereiro de 2007 às 12:46
É impressionante como ainda nos consegue surpreender com a sua narrativa, amigo Dsotto. Para além da aprendizagem sobre assuntos que nunca percebi, confesso, o crescendo final antes do acidente manteve-me suspensa de um desfecho inequívoco.
Excelente, como em tudo o que lhe leio.
abraço
De DD a 26 de Fevereiro de 2007 às 22:11
Obrigado pelas suas simpáticas palavras.

Um Abração
DD
De DD a 26 de Fevereiro de 2007 às 22:11
Obrigado pelas suas simpáticas palavras.

Um Abração
DD

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