Sexta-feira, 15 de Dezembro de 2006

O Aborto

 

 

 

A Maria de Jesus Anjos dos Santos é uma avó extremosa. Cuida dos netos como se fosse mãe deles e adora o Ruizinho e a mana Madalena, filhas da sua Fátima Maria. Deu-lhe o nome assim ao contrário para a distinguir das muitas Marias de Fátima que andam por aí, pois a sua seria sempre muito especial desde o dia em que nasceu há uns trinta e seis anos atrás. O seu grande objectivo na vida foi sempre fazer da filha e do filho Pedro bons católicos praticantes no que falhou em parte, mas agora quer recompensar o Céu com a dádiva das almas dos seus netos. A Madalena, ainda muito novita nos seus doze anos de idade, acompanha a avó à missa, mas o Ruizinho recusa-se e diz que tem que ir com os amigos e amigas jogar futebol ou fazer surf na Caparica.

 

            Na missa, a Maria de Jesus reza prolongadamente pelos seus e em nome deles. Costuma dizer para as contas do seu rosário: Meu Deus! Agora rezo em nome do Ruizinho e cuida bem dele para que não vá por maus caminhos pois, como sabes, há tanta droga e malandragem por aí e a pobre da minha filha a trabalhar desalmadamente como escriturária do Tribunal de Instrução Criminal para sustentar a família desde que o meu genro Alberto a deixou. Que tristeza, confessa a Maria de Jesus ao rosário, deixando cair umas lágrimas sobre as pedritas rosadas.

 

            O Ruizinho e a Madaleninha vivem com a mãe num pequeno apartamento de três divisões em Queluz e a avó vive em Benfica, mas os netos passavam largos fins-de-semana e muitos outros dias com a avó Jesus, o que representou uma grande ajuda para a Fátima Maria que, assim, só sustentava uma parte da vida dos filhos.

 

            De vez em quando iam a Fátima orar, mas raramente o faziam nos dias 13, pois temiam os grandes engarrafamentos. Deslocavam-se no Fiat da Fátima Maria e toda a família ia contente por passear e a avó por poder levar os seus entes queridos à Casa de Deus, ou antes da Nossa Senhora de Fátima. A avó Jesus repetia sempre as histórias das aparições e dos pastorinhos, o que deixava a pequena Madalena espantada e interessada, mas nos últimos tempos, a sua paixão intelectual deslocou-se para o Harry Potter, devorando avidamente todos os livros da Rowling.

 

            A avó Maria de Jesus foi professora primária e depois do primeiro ciclo até à reforma, o que aconteceu há pouco mais de um ano, dedicando-se agora a dar umas explicações e a tentar ensinar alguma coisa aos seus netos, filhos da sua única filha. O marido faleceu repentinamente há três anos atrás de um ataque de coração, o que a não deixou demasiado triste pois já estava farta do homem e não tinha paciência para o aturar. A sua vida era dedicada aos netos e a Deus; o resto já não interessava muito.

 

            Como é natural, a avó Jesus era toda contra o aborto, tal como a sua filha que lhe garantiu nunca ter praticado tão nefasto e pecaminoso acto, apesar de a Fatinha ter tido alguns amantes desde que o marido a deixou, mas deverá ter tido sempre muito cuidado ou o que fez a ninguém confessa.

 

            Quando do referendo contra o aborto, a avó Jesus militou, a mando do pároco da Freguesia, contra a despenalização do aborto. Andou a distribuir papelinhos de propaganda e participou em várias sessões dos “Não ao Aborto” contra os partidos abortistas, só que havia sempre muita dificuldade em explicar como é que um dos partidos era abortista e o seu líder e primeiro-ministro era contra o aborto e outro era anti-abortista, mas deixava à consciência de cada um decidir. Enfim, coisas de políticos chatos e repetitivos até à exaustão. Sempre a dizerem mal uns dos outros. Ali nas casas da Fatinha e da avó Jesus ninguém já tinha paciência para ouvir politiquices.

 

            Um dia, rebentou a bomba nas duas casas, a da avó e a da filha. O Ruizinho apareceu em casa a dizer à mãe que engravidou a Guidinha, a sua namorada e colega do 10º ano e de tanto ouvir condenar o aborto disse que estava desesperado, pois não tinha idade nem condições para ser pai. E ainda por cima, a Guidinha é filha de uma das professoras de português da escola.

 

            Fátima Maria ficou sem orientação e foi pessoalmente à casa da mãe para se aconselhar sobre o que devia fazer, mas primeiro ainda disse que com certeza não tinha sido o Rui a engravidar a rapariga: talvez tivesse sido outro.

 

            - Não, mãe, a Guidinha só andou comigo e não a posso deixar abandonada à sua sorte. Eu sou o culpado e tenho de arranjar uma solução.

            - Mas ela o que diz? Quer a criança ou quer fazer aquela coisa feia e a mãe da Guidinha já sabe?

            - Não, não sabe de nada, ainda só devem ter passado umas oito ou nove semanas.

            - O quê, tanto tempo sem saber que estava grávida?

            - Sabes, mãe, ela só tem 16 anos como eu; foi um “de repente” que aconteceu e não sabíamos o qual o resultado.

            - Malandro, malandro, saíste-me um malandro e estúpido. Essas coisas não se fazem sem preservativos.

            - Mas, o que devo fazer agora? Casar com ela e ter a criança ou convencê-la a abortar.

            - Ai filho! Duas coisas impossíveis. Não ganho o suficiente para sustentar uma outra família e tu ainda não tens idade nem preparação para trabalhares convenientemente. Pelos vistos só tens idade para a asneira. Não sei o que fazer contigo. Se não conhecesse a Guidinha e a mãe, dizia para te desligares dela, mas assim e toda a escola sabe que vocês namoravam. Se ela aparecer com barriga grande, toda a gente vai saber que foste tu, o malandro.

 

            A Guidinha ia lá muitas vezes a casa e até já fora à casa da avó Jesus.

 

            - Mas, afinal, como soubeste que ela estava grávida e o que é que ela te disse?

            - Ora mãe, ela disse-me há dois dias que não tinha menstruação há uns dois meses e aconselhei-a a comprar um teste na farmácia para verificar e talvez ir à médica de família do Centro de Saúde. Mas, ela não quis ir comprar, pois estava envergonhada e acabei por ser eu a comprar o referido teste.

            - E então?

            - Então, deu positivo.

            - E perguntaste-lhe o que ela quer fazer. Certamente não vais casar com aquela galdéria que se deixa ir assim com tanta facilidade.

            - Mãe, não digas isso, eu gosto muito dela.

\           - Mas o que é que ela disse e o que quer fazer.

            - Sabes, dei-lhe a entender que se podia fazer alguma coisa para evitar o nascimento da criança, pois não sou tão fundamentalista como a avó Jesus.

            - E ela, o que respondeu.

            - Limitou-se a dizer com um ar triste de quem não sabe para onde ir, em inglês, “hills like white elephants”.

            - Mas o que é que isso quer dizer, não percebo patavina de inglês.

            - Quer dizer: Montes como elefantes brancos.

            - Ainda fiquei a perceber menos. Com raio, mesmo em português, o que é que isso quer dizer e que tem a ver com o vosso, não, com o problema dela. Deves é deixá-la. Ela que faça o que entender com a mãe e o pai.

            - Não mãe, não posso deixar assim a Guidinha e ela tem medo dos pais, eles são muito rigorosos. Nem parecem ser pais modernos. Só confia na avó que parece mais evoluída.

            - Eu também não sei o que fazer e vou falar com a tua avó para saber o que nos aconselha.

            Efectivamente, a Fatinha e o Ruizinho  foram ter com a mãe e avó e contaram-lhe tudo.

 

            A avó Jesus depois de a ouvir levou as mãos à cabeça e disse: que horror, serem pai e mãe aos dezasseis anos de idade

 

            - Não, o Ruizinho não faria uma coisa dessas. Foi outro, sim, algum dos muitos malandros que andam na escola. 

            - O Ruizinho, mãe, garante-me que foi ele e que a Guidinha nunca andou com outro qualquer. Pelos vistos foi o primeiro.

            - Pode ter sido o primeiro, mas também não ter sido ele que a engravidou.

            - Não, toda a gente na escola sabe que o Ruizinho namora a Guidinha que é filha da professora de português.

            - Então e a mãe da miúda já sabe e já resolveu alguma coisa?

            - Não, não sabe, ela tem medo dos pais.

            - E, não me digas que somos nós a resolver o problema. Assim não! O Ruizinho não pode estragar a vida por causa de um momento de prazer e estupidez também, valha-me a Santa Virgem. Mas, agora a Virgem não é para aqui chamada. Vamos falar com a miúda e convencê-la.

            - A quê, avó Jesus?

            - A ir a Badajoz, então que outro remédio há?

            - Não posso acreditar no que ouço, avó. Mãe, ouviste isto?

- Eras tão contra e, afinal? 

            - Eu sou contra que aquilo se faça em Portugal, mas em Espanha é outra coisa. Não leste as Intermitências da Morte do Saramago. As pessoas levavam os entes queridos para o outro lado da fronteira porque aqui não se morria. Acho que em Portugal não se devem fazer coisas dessas, mas lá fora é outra coisa.

            - Ah, então é uma questão de fronteiras.

            - Não Fatinha e Ruizinho! É sermos práticas e decididas. Chama a rapariga para falar comigo que eu a convenço.

 

            Assim foi, a Fatinha disse ao Ruizinho para se reunirem com a Guidinha e a avó Jesus para ver se encontram uma solução.

 

            No dia seguinte reuniram-se todos, ao fim da tarde, na casa da avó Jesus.

 

            Esta começou por dizer que já sabia de tudo, mas não comentava.

 

            - Quero é saber o que é melhor para ti. Queres um chá, um café ou uma cerveja.

            - Talvez uma cerveja D. Maria de Jesus.

            - Está bem. Fatinha traz da cozinha as três garrafas de cerveja que estão aí e abre-as. Bebemos todos para aclarar as mentes.

 

            Enquanto bebiam, a avó Jesus perguntou: - O que será melhor para ti? Diz-me?

 

            - Hills like white elephants – respondeu a Guidinha.

            - Não percebo, o que quer dizer isso. 

            - Montes como elefantes brancos. É o título de um conto de Ernest Hemigway.

            - De quem?

            - De Ernest Hemingway; não conhece? Diz-se Ernst.

            - Eu não, nunca li nada de um escritor chamado como? Ernesto?

            - Vejam só o que aprende a nossa juventude nas escolas. Em vez de Ernesto diz Ernst. Por isso é que o país está como está.

            - Mas o que significa isso?

            - Quer dizer que os montes para além do vale do Ebro eram compridos e brancos.

            - Estás a mangar connosco. Preciso é de beber um anis que isto já não vai com cerveja – respondeu a avó Jesus.

 

            E foi buscar uma garrafa de Anis del Toro e perguntou se queriam provar.

 

            - A continuar assim fico bêbeda.

            - Mas, a gente não veio aqui falar de literatura, a tua mãe é que sabe disso. Mas, não sabe do resto, não?

            - São lindos, aqueles montes – disse a Guidinha.

            - Pára-me com isso Guidinha,-  ripostou o Ruizinho.

            - Vamos é fazer o que é melhor para ti e depois ficamos bem, tudo como dantes. Tu não disseste que eras a favor disso e que se tivesses idade para votar, terias votado no sim.

            - O que é que te leva a pensar que depois ficamos bem?

            - Não sei? Mas, acho que sim. Ficamos felizes.

            - E se eu fizer, tu ficas feliz e as coisas voltam a ser como dantes?

            - Sabes bem que te amo.

            - Menino e menina – disse a avó Jesus – não estamos aqui com conversas de namorados, queremos é ser práticas. Vais a Badajoz ou não?

            - Mas olha, - acrescentou o Ruizinho – eu não quero que faças, se não quiseres.

            - Parece que tiraste as frases do conto de Hemigway, são tal e qual e o personagem feminino sou eu..

            - Não percebo, Guidinha, o que tem isto a ver com o escritor norte-americano.

            - É que não quero falar nisso.

            - Sabes! Há uma clínica em Badajoz, chama-se Virgen del Pilar. São muito profissionais e fazem isso num instante. Nós pagamos tudo. Nem precisas de dizer aos teus pais. Dizes que vais passar um fim-de-semana em casa de uma amiga. Aquela do Algarve que uma vez te convidou e passaste onde? Na Manta Rota, não foi? Combinas com ela.

 

Em vez disso, vamos a Badajoz  de carro e no dia seguinte estás fina, tudo arreglado, como dizem os espanhóis. E se não aceitarem, inventa-se outra coisa. Olha, desapareces e depois dizes que foste raptada.

 

            - Que estupidez Ruizinho, afirmou a avó Jesus. Isso depois metia polícia e tu como namorado eras logo um presunto implicado, como dizem os espanhóis.

            - E sabes como é a preventiva aqui, acrescentou a Fatinha. Entra-se mas nunca se sabe quando se sai. Podes lá ficar três anos só porque o juiz acha que o caso não é importante e não deve ser visto ainda.

 

            De repente a Guidinha levantou-se, vestiu o blusão e disse: não vos posso ouvir mais e saiu.

 

            Ainda disse: Olhem! Vou ler o conto de Ernest Hemingway Hills Like Withe Elephants.

publicado por DD às 00:12
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4 comentários:
De Anónimo a 18 de Dezembro de 2006 às 20:36
Excelente!
Convido-o(a) a passar por:
http://jsdistritalleiria.blogspot.com
De António Anónimo daSilva a 24 de Dezembro de 2006 às 11:04
Notável conto que espelha bem o que é a sociedade portuguesa.
Parabéns
De DD a 26 de Dezembro de 2006 às 10:23
É resposta adequada hipocrisia da Igreja e dos bispos.
Eles, mais que ninguém, sabem que as católicas praticam também o aborto quando lhes convém e não venham com preservativos e outras coisas pois as coisas acontecem como está descrito no conto.
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É resposta adequada hipocrisia da Igreja e dos bispos. <BR>Eles, mais que ninguém, sabem que as católicas praticam também o aborto quando lhes convém e não venham com preservativos e outras coisas pois as coisas acontecem como está descrito no conto. <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Luisa</A> Mendes
De gmaciel@netvisao.pt a 7 de Fevereiro de 2007 às 16:29
É tão verdadeiro que arrepia!
Este conto merece um destaque maior, não lhe parece, Dieter?
beijos e um abraço corisco

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