Terça-feira, 3 de Outubro de 2006

Ali Aziz, O Vergastado

 

            Ali Aziz vivia em Carachi, antes de emigrar para a Arábia Saudita, onde foi à procura de fortuna no comércio do país que era para ele o paraíso dos petrodólares.

           

           Na capital industrial e comercial do seu país, Aziz era um Sahab, um senhor, pois apresentava alguns sinais exteriores de riqueza como sandálias, uma camisa quase sempre lavada e umas calças de tecido leve e fresco à europeia, tudo engomado, e gostava de andar de cabelo curto e barbeado, mas com um bigode negro. Por vezes, principalmente quando punha uma gravata na camisa, era criticado por isso, diziam, que se que queria dar ares de europeu ou pior, indiano, outras vezes julgavam-no um militar em gozo de férias, já que não lhe faltava um ar um pouco marcial e jovem.

 

 

 

 

 

            Não! Aziz era um pequeno contabilista muçulmano com dois empregos. Era aquilo que na sua terra de nascimento, Carachi, designavam por moonlighthers, os que trabalham de lua a lua. Saia de casa quando o sol ainda não tinha nascido e a lua iluminava um pouco do seu pobre bairro e chegava quando já o satélite despontava no alto. Com 38 anos de idade, uma esposa purdah dedicada ao costumeiro trabalho doméstico e três filhas, tinha mesmo de trabalhar muito para conseguir as quase mil rupias mensais para sustentar a família e dar um mínimo de estudos às filhas pois envergonhava-se se ficassem analfabetas. Também tinha de manter um aspecto decente e civilizado. Antes de chegar a casa ainda passava pelo mercado para fazer as compras diárias, já que uma purdah muito muçulmana não saia de casa sem acompanhamento.

 

 

 

 

 

A família de Aziz pertencia pois à pequeníssima classe média paquistanesa; estava muito acima dos miseráveis que viviam nas barracas de bambu em torno da cidade e muito, muito abaixo das poucas famílias riquíssimas do Paquistão que dominavam tudo; desde a política à indústria, passando pelas Forças Armadas e, principalmente, possuíam as melhores terras do país.

 

 

 

 

O emprego diurno de Ali Aziz era no escritório de contabilidade e sede da Industrial Sports Mirza & Company, Inc. , uma empresa com várias fábricas nos arredores e bastante fora de Carachi.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Aziz raramente ia às fábricas, onde trabalhavam centenas de crianças e adolescentes dos 12 aos 18 anos. Aziz não pagava salários a cada uma das crianças que nas fábricas Mirza confeccionavam bolas de futebol para as multinacionais dos artigos desportivos que as vendiam a toda a gente, sendo mesmo jogadas pelos craques europeus. Além disso, fabricavam raquetes de ténis e outros artigos desportivos para exportação.

 

 

Todos os meses, o sahab Wazir ia ao escritório levantar um cheque que se destinava oficialmente a pagar os salários. Na verdade, toda a gente sabia, mas ninguém dizia, os petizes não passavam de escravos raptados pelo bando de Wazir às famílias dos habitantes dos imensos bairros de barracas de Carachi e outras cidades e postos a trabalhar nas mais diversas fábricas a troco de uma alimentação frugal e aboletados em imundos barracões.

 

 

As autoridades sabiam disso, mas, como toda gente, fingiam que era tudo mentira pois interessava a exportação de artigos de desporto a preços competitivos e nisto de economias modernas de mercado, há que ser competitivo, custe o que custar. Eram guardados à vista por dois patanes ao serviço de Wazir e aos 18 anos de idade ou pouco mais eram libertados ou entravam no serviço do Wazir.

 

 

Para evitar problemas com as autoridades e denúncias, Wazir costumava mandar matar um dos que deveriam ser libertados para os outros saberem a sorte que lhes espera se forem queixar-se à polícia, apesar de que em princípio daí não viria mal a Wazir, mas nunca se sabe.

 

 

 

 

 

Depois de sair do escritório da Mirza, Ali Aziz ia ainda trabalhar no jornal em língua inglesa Daily People num extenuante trabalho de correcção de provas e, claro, nunca se atreveu a propor um artigo sobre a escravatura infantil no Paquistão.

 

 

 

 

Já tarde, Aziz regressava à sua pequena casa, quase infecta, abandonada por um hindu quando da divisão do Hindustão em duas nações. A mulher andava neurasténica por causa da miserável casa  que habitavam. Por isso, Aziz trabalhava para juntar umas rupias para conseguir uma habitação mais condigna, mas pensava sempre que não era possível no Paquistão; ainda não tinha mais que umas 28 mil numa conta bancária que não dava para nada.

 

 

 

 

 

A pequena casa tinha duas divisões, o que valia a Aziz era ter três raparigas apenas que podiam dormir num só quarto; ele dormia com a esposa noutro e a cozinha fazia de sala de estar, de refeições e cozinha propriamente dita. Praticamente não tinham móveis.

 

 

As roupas eram arrumadas em malas ou caixotes ou penduradas nuns cabides muito simples e na cozinha não havia mesa, já que se comia no chão sempre muito bem limpo com uma lâmpada de 40 watts pendurada do tecto.

 

 

 

                           

 

 

A casa tinha uma pequena varanda coberta e fechada por uma balaustrada sobre a qual assentava um rendilhado de madeira que permitia à mulher ver a rua sem ser vista. De manhã punham-se os colchões e edredões a arejar e depois eram enrolados ao canto, pois não havia camas.

 

 

As janelas da varanda costumavam estar tapadas por uma espécie de cortinados de verga que protegiam um pouco dos calores tórridos da época mais quente do ano.

 

 

As filhas estudavam no chão de pernas cruzadas, à boa maneira de todos os habitantes daquele grande subcontinente. A cozinha não tinha água corrente e não havia casa de banho na casa. Esta estava no exterior, nas traseiras da casa, onde havia um casinhoto para o duche e outros para as necessidades fisiológicas. A água era trazida para a cozinha e aí com um fogareiro a petróleo era confeccionada a comida. Para além do fogareiro e do ferro de engomar, a única máquina moderna da casa era o rádio, pelo qual Aziz ouvia sempre o noticiário pois interessava-se por tudo o que acontecia no seu País e no Mundo, mas nunca se inscreveu num partido político pois achava que isso seria só para os poderosos e ricos que durante os muitos períodos de ditadura podiam refugiar-se no estrangeiro.

 

 

 

Enfim, era uma habitação de primeiro andar com uma escadinha interior muito estreita que dava para uns degraus muito altos e sem porta. De algum modo, aquilo era quase um apartamento de luxo, pois estava ao abrigo das grandes chuvadas das monções que frequentemente provocavam inundações de um a três metros de altura naquela rua sempre nauseabunda por causa dos restos de comida lançados à rua e nem sempre tragados pelos cães famélicos que passavam por ali.

 

 

A casa pertencia ao Estado, já que fazia parte dos bens abandonados e foi alugado por uma módica quantia a Aziz, graças à influência do patrão sahab Mirza junto das autoridades locais. Foi na época do ditador Ahyub Kahn e este militar dava-se muito bem com os industriais e ricos em geral e Mirza tinha um prestígio muito especial em Carachi,  talvez porque tivesse o mesmo apelido que o ex-presidente general Iskander Mirza que nomeou Ahyub Kahn administrador-geral do Paquistão, antes de ceder o seu lugar ao próprio Ahyub e partir para os estrangeiros, mas, na verdade, o industrial não era familiar do militar político.

 

 

 

O sonho de Aziz era comprar um terreno e construir aí a sua casa, mas cada vez sentia que não podia, as suas mil rupias não davam para isso. Pensava em emigrar para a Arábia Saudita e instalar lá um pequeno comércio, tanto mais que o avô, um professor de uma Madrassa, lhe ensinara algum árabe e agora Aziz voltava a estudar o árabe por sua conta. Conseguiu do pai ainda vivo, que foi guarda de um banco e depois empregado num escritório comercial, a cedência de vários livros de árabe, incluindo uma gramática, um dicionário e o Alcorão. Mas, para o conseguir necessitava de ter alguém na Arábia que lhe abrisse a porta e facilitasse um visto. Eles só queriam uma mão-de-obra muito barata asiática para fazer os trabalhos mais sujos e alguns europeus e americanos para manter os serviços técnicos civis e militares a funcionar.

 

 

 

 

A sorte bateu à porta de Aziz; o capitão Balmik, um seu primo, partiu para a Arábia Saudita com um regimento que ia defender aquele país, ou antes, a monarquia saudita de qualquer tentativa de sublevação do seu próprio exército. Claro, um militar naquele país, mesmo capitão, é uma chave para todas as portas e de imediato Ali Aziz arranjou o visto e com o seu pequeno capital e algumas cunhas do primo esperava abrir o seu comércio no sonhado eldorado do Mundo Muçulmano, no país das mesquitas de mármore e ouro e dos palácios encantados dos seus milhares de príncipes que chegam a andar em carros com carroçarias todas feitas de prata.

           

             Em criança, Ali Aziz conheceu muita pobreza misérias e o pai chegou a Carachi na maior das misérias e contavam-lhe como tinham escapado da sua terra de origem, Ahmedabad no Estado de Gujarat. Apanharam um comboio apinhado de pessoas até ao tecto. Na passagem pela fronteira, o comboio foi obrigado a parar e aí uns guardas indianos começaram a chacinar os passageiros das primeiras carruagens; umas vezes a tiro e outras com baionetas espetadas nas gargantas ou nos corações. Não chegaram às carruagens do meio e do fim porque se cansaram e o comboio pôs-se subitamente em movimento e chegou a Carachi envolto no cheiro nauseabundo dos cadáveres e do sangue que tingiu de vermelho escuro as primeiras carruagens. Foi uma viagem de horror que só a política e a ânsia de poder aliada ao fanatismo religioso podem provocar.

 

 

 

 

            O avô de Aziz chorou, durante toda a vida, a sua Índia perdida, pois nunca se considerou mais que um indiano de confissão muçulmana; o pai tornou-se rapidamente paquistanês pois chegou a Carachi ainda criança e Ali Aziz nunca viu na Índia mais que o inimigo de sempre dos muçulmanos e dos paquistaneses em particular.

 

 

 

 

            Aziz costumava dizer aos europeus que iam ao escritório da Mirza & Co., que ser muçulmano não é o mesmo que pertencer a uma religião, é uma maneira de estar na vida e, por isso, nunca poderia haver co-habitação com a maioria hindu nem com qualquer outra etnia ou povo que professe outra religião, a não ser que sejam os islâmicos a mandarem.

 

 

 

            - No fundo – disse um dia Aziz – ser muçulmano é como ser europeu, é ter um estilo particular de viver, pois o Islão não é uma religião, não tem um papa e bispos, é uma nação de províncias independentes, tal como a Europa que tende cada vez mais a ser a Nação Unida que nunca deveria ter deixado de ser.

 

 

 

 

            Antes de obter o visto, Aziz teve de assinar no Consulado da Arábia Saudita a Carta da Morte, um documento em que declara saber e ter a consciência que o tráfego e posse de droga, bebidas alcoólicas e material pornográfico é passível de condenação à pena de morte. Aziz assinou, pois não tencionava dedicar-se a nenhuma dessas actividades e, mesmo bebidas alcoólicas era algo que dispensava, apesar de nunca ter recusado uma cerveja ou um gim tónico, mas apenas em ocasiões especiais e por convite, nunca por iniciativa própria.

 

 

 

            Com o visto no passaporte, Ali Aziz conseguiu trocar as suas economias por dólares com militares vindos da Arábia Saudita, às quais juntou a venda da chave da sua casa a um casal conhecido que assim passaria a ocupar aquele espaço em seu nome e se viesse um inspector camarário, facilmente o problema se resolveria com algumas centenas de rupias. Depois apanhou um avião da PIA para Riad e foi ter com uns paquistaneses amigos do primo que lhe indicaram um pequeno apartamento para viver.

 

 

 

 

            Ainda sob a influência do capitão Balmik, Aziz entabulou conversações com o saudita Ahmed Walid que não exigiu muito para ser sócio de Aziz, já que na Arábia Saudita toda e qualquer empresa tem de ter um sócio local que, mais não faz, que receber uns dinheiros pela sua condição de saudita de origem, descendente directo das tribos nómadas do deserto. Walid dava muita importância às relações com militares, mesmo que fossem paquistaneses.

 

 

   

            Riyadh é a capital do Reino. Aí quase não vivem os infiéis europeus, apenas sauditas, estrangeiros muçulmanos e pessoal de serventia como criadas filipinas. Aziz conseguiu alugar uma loja num novo outlet para artigos baratos que não o eram pelos padrões paquistaneses. Pensara primeiro instalar-se no Balad, o centro comercial de Riad, mas aí qualquer espaço custava uma fortuna, pelo que foi para fora, para um outlet à europeia, já quase no deserto, mas muito frequentado.

 

 

            Os sauditas adoram o deserto e o seu passatempo preferido é ir de carro pelo deserto fora, o mais longe possível e fazer um piquenique como se fossem ainda beduínos. Talvez pensem que um dia o petróleo acaba e voltarão a ser o que foram os pais e avós, nómadas beduínos.

 

 

 

 

As margens de lucro praticadas naquele comércio eram elevadas e nem nos períodos festivos se faziam descontos e, menos ainda, saldos. Aziz já tinha contactado fornecedores paquistaneses de roupas femininas, pois tencionava colocar as duas filhas mais velhas a vender roupa e ele iria trabalhar como contabilista, além de gerir o negócio. Importar a mercadoria do Paquistão depois de previamente seleccionados modelos, tamanhos, etc. e, talvez, vender também a outros retalhistas.

 

 

 

 

 

 

 

           

 

 

 

 

               Enfim, tudo parecia a caminhar no bom sentido. As roupas paquistanesas acabaram por chegar e também uns manequins de plástico para serem vestidos e colocados na montra para atrair a clientela feminina. Aí só expunha hijabs (véus para cobrir a cabeça) e os niqbas, vestes que cobriam as senhoras da cabeça aos pés, quase sempre de cor preta e as indispensáveis abayas brancas ou negras que todas as mulheres tinham de envergar quando saíam à rua. Nada disso era confeccionado no país, dado não haver mão-de-obra para tal. À sua loja deu-lhe o nome de Hum-Bint-Akht que quer dizer mãe, filha e irmã. Com o seu faro comercial pretendia dizer que loja servia para as pessoas do sexo feminino de todas as idades. No interior e na cave, eram vendidas roupas mais charmosas para trazer por casa, portanto Haram, proibidas pelo Islão. Também vendia sandálias enfeitadas igualmente vindas do Paquistão.

           

              Em Riad, Ali Aziz tornou-se mesmo muito piedoso e frequentador da mesquita próxima da sua casa e nunca se esquecia de dizer Alaihi Salaam , a Paz esteja com ele, quando se referia aos profetas e personagens do Alcorão que vão de Adão a Maomé, passando por Abraão, Jesus, Eva, Hajar, mulher de Abraão, Asiya, uma das mulheres do Faraó que acompanhou Moisés, Maria, mãe de Jesus, Khadija, mulher de Maomé e Fátima, a filha mais nova do profeta. Aziz habituara-se no Paquistão a dizer aos europeus que o Islão é também a religião de todas as religiões monoteístas, pelo que haveria sempre toda a conveniência em que os europeus tivessem negócios com os paquistaneses. Mas, na Arábia Saudita percebeu que essas partes do alcorão, ou Suras que referem outros profetas não eram tidas muito em conta e não seria muito aconselhável discutir isso seja com quem for. De resto, os árabes não discutem religião, ao contrário de alguns paquistaneses, limitam-se a praticá-la. As cinco orações diárias eram praticadas com fervor e faziam-nos interromper qualquer tarefa que tivesse em mãos, mesmo quando circulavam na rua.

 

 

 

 

            O negócio até começou a prosperar, pois Aziz instruiu bem as duas filhas mais velhas, uma de dezassete e outra de dezoito anos, a tratarem bem os clientes e dizerem sempre as frases mais recomendáveis, todas de cariz religioso.

 

 

 

             A esposa de Ali Aziz também costumava ir para a loja vender, o que lhe agradava tanto que se curou da profunda neurastenia que sofria no lúgubre apartamento de Carachi. Elas aprenderam a vender bem as Hijabs, roupa de acordo com o código islâmico e a tal outra dos fundos e da cave. Mas, toda e qualquer venda só podia ser feita se não estivesse um homem na loja. Aziz já tinha uma filipina a ser treinada na loja, pois a comunidade paquistanesa alvoroçava-se por haver aí um dos seus com três jovens filhas ainda não casadas. Muitos pais e tios contactavam Aziz para casarem os seus filhos com três jovens chegadas da Pátria muito amada, o Paquistão, e que nunca estiveram no Ocidente ou noutro país qualquer, excepto agora a Arábia Saudita, o que era valorizado excepcionalmente.

 

 

 

            A família de Aziz foi considerada por todos os compatriotas que conheceu como uma família às direitas, pois a mulher e as filhas nunca eram vistas sem as longas Abayas, mas pelos olhos e pelo encanto dos pés exibidos em vistosas sandálias adivinhavam que as filhas seriam bastante bonitas e eram de facto, mas ali só Aziz e a esposa é que sabiam.

 

 

 

            Em Riad viviam num pequeno apartamento com um soalho envernizado e muito brilhante e uma bela casa de banho e uma excelente cozinha. Um encanto para a esposa.

  

            Ali Aziz só ia à loja no fim do dia, já quase noite, para contar o dinheiro, ver qual a mercadoria mais vendida e, eventualmente, preparar novas encomendas ou traze-las da alfândega. Durante o dia, contactava outros comerciantes para vender a roupa que importava ou angariava mesmo encomendas directas das fábricas paquistanesas para os maiores comerciantes. Mas, tinha dificuldades por causa da concorrência chinesa. Aziz tentava então explicar que a China não é muçulmana e que as esposas e filhas dos sauditas não devem andar com roupa confeccionada por Kafires, infiéis que, ainda por cima, são simultaneamente capitalistas e comunistas. Algumas vezes, essa argumentação produzia algum efeito, mas nem sempre.

 

           Um dia, surgiu a desgraça; acabou-se a felicidade.

 

 

 

 

            Ali Aziz foi à Alfândega do Aeroporto buscar um contentor de avião com um carregamento de roupas vindas de Carachi.

 

 

 

 

            Ainda dia, chegou à loja e começou a descarregar as caixas do contentor para o interior. Com a azáfama, as poucas clientes que estavam na loja saíram discretamente e Aziz levou tudo para a cave e disse às filhas para tirarem as alabayas, niqabs e hijabs dos manequins para levar para cima novas roupas. Os manequins ficaram assim nus no seu plástico rosado.

 

 

 

 

            Quanta Aziz e filhas tiravam dos sacos de plásticos as novas alabayas e niqabs que queriam expor, começaram a ouvir ruídos de fortes batidas na montra, subiram para acima e assustaram-se. Viram uma pequena multidão em frente à loja, quase só homens, furibundos a tentar quebrar o vidro da montra, vociferando com fúria. Partiram por fim a montra e começaram a retirar os manequins. Aziz subiu rapidamente as escadas, abriu a porta da loja e começou a perguntar o que estavam a fazer. Choveram logo muitos impropérios; Haram, proibido, ouviu Aziz, e Iblis, desleal a Alah e iníquo, Jinn, Jinn, gritou a turbamulta, o que queria dizer demónio, e Aaamar, pessoa demoníaca, e Shaitan, inimigo dos humanos porque traz objectos impróprios.

 

 

 

 

            Por fim surgiu a polícia e entrou logo na loja, apontando para Aziz a perguntar: -És o dono da loja? – Sou sim, respondeu Aziz. Então estás preso e agarraram-no pelo braço para o levarem para o carro. Cá fora, Aziz ainda viu os seus manequins de plástico a arder e a multidão a aplaudir.

 

 

 

            Passou a noite num calaboiço da Qism alShurtah, esquadra de polícia. Na manhã seguinte foi levado a um juiz que devia aplicar a Sharia.

 

 

 

            O juiz disse-lhe logo que podia ser condenado à morte por exibir objectos pornográficos na sua loja e, principalmente, na montra.

 

 

 

            - Não sabe o que diz o Sagrado Alcorão, escrito pelo profeta Maomé, que a Paz e a Bênção de Alá estejam sobre ele.

 

 

 

 

            - Mas, não eram objectos pornográficos, retorquiu Aziz, eram apenas manequins de montra, uma espécie de cabides para ser vestidos e exibir a roupa e nenhum apresentava qualquer reprodução ou imagem de órgãos genitais.

 

 

 

 

            - Para já, aplico-te a sentença de dez vergastadas por negares a própria evidência. Tenho o relatório dos polícias e os restos meio ardidos daquilo que dizes serem manequins.

 

 

 

 

            De seguida o juiz ordenou que trouxessem os objectos à sua presença, enquanto Aziz pensava se não deveria pedir a presença de um advogado, contactar a embaixada do Paquistão ou seu primo capitão Barik. Aquilo desenrolava-se à porta fechada com um juiz, um escrivão e dois guardas. Aziz não compreendia um tribunal assim para julgar algo que não lhe pareceu merecedor da mais pequena importância. Mas, cogitando bem e olhando de frente para o juiz, pensou que talvez o enfurecesse ainda mais se pedisse um advogado de defesa e já sabia que não abundava esses profissionais na Arábia Saudita. Resolveu mudar de táctica.

 

 

 

 

            - Assalamu alaikum, a Paz esteja consigo. Peço mil vezes perdão, acredite-me sinceramente, nunca julguei que isso tinha um carácter pornográfico e estava a escolher as Alabayas que vieram de Carachi para as minhas filhas cobrirem os manequins. Tinha-as trazido naquele momento da alfândega. Sabe, as minhas filhas não podiam ir lá levantar a mercadoria e eu nunca vou à loja, só a minha esposa e as nossas filhas é que lá trabalham com uma empregada filipina. De resto tinha trazido a mercadoria num carro guiado por mim. Du a, suplico-lhe que me entenda e não me veja como um bandido. Sou um pai de família com mulher e três filhas, primo do capitão Balmik que está no batalhão de blindados.

 

 

 

            O juiz acalmou-se; tirou um cigarro, acendeu-o e começou a falar baixo com o escrivão. Subitamente olhou para o relógio e mostrou-se apreensivo.

 

 

 

 

            - Bem, eu devia condenar-te à morte, mas nós aqui na Arábia Saudita não condenamos à morte pelo primeiro crime, apenas pela reincidência e sendo tu um pai de família não te vou condenar a uma pena de prisão pois as tuas filhas e esposa ficavam sem apoio. Condeno-te a levares 70 vergastadas pelo crime de exibição de objectos quase pornográficos mais as dez que já te condenei por não seres respeitoso. O que te salvou foi assumires o teu erro e pedires desculpa com respeito.

 

 

 

 

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publicado por DD às 22:30
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