Domingo, 16 de Outubro de 2016

Um Nobel Esquisito Este Ano

 

O premio Nobel concedido a Bob Dylan deixou-me boquiaberto. Não que o cantautor não escreva excelentes estrofes com boa rima e refrões bem colocados. A voz dele é que não me agrada, mas acho um exagero o Nobel por tão poucas estórias.

Há escritores notáveis no Mundo, para não falar apenas de Lobo Antunes.

Sempre julguei que o escritor nipónico Haruki Murakami viesse a ser galardoado com o Nobel ou a notável e furtiva italiana Eklena Ferrant (pseudónimo) também recebesse o prémio que merece.

Murakami tem já 15 livros traduzidos em português e vendeu milhões em todo o Mundo e, principalmente, no Japão. Devido às suas muitas leituras conhece todos os maneirismos da língua japonesa que não é complicada por ser uma língua como o inglês com pouca gramática, verbos com presente e passado e usa poucos artigos. A escrita é difícil para quem não se iniciou em criança, mas a fala é fácil. Se utilizassem o nosso alfabeto poderia ser um língua mundial.

Curiosamente, Harukji Murakami para fazer uso da simplicidade começou a escrever os seus primeiros livros em inglês devido ao seu limitado conhecimento da riqueza substantiva dessa língua para os traduzir em japonês que saía assim menos entrelaçado, mantendo sempre um ritmo que resultou da sua paixão pela música que não cultivou por falta de talento suficiente para tocar algum instrumentos, mas foi proprietário de um Clube da Jaz durante os primeiros três anos de exercício da escrita. Depois dedicou-se inteiramente à criação literária com a sua extraordinária arte para contar histórias que, diz ele, partem sempre de algum sonho.

Murakami foi beber em Garcia Marques e Saramago uns tragos daquela mistura de realismo e imaginação quimérica que tiveram algo a ver com Alfred Döblin na sua trilogia “Amazonas”. O realismo estava nos detalhes como em Garcia e o imaginário na riqueza de uma construção literária em vários estilos, um para cada grande romance com um limitado stock de palavras, frases claras sem efeitos especiais. Os textos de Murakami são facilmente traduzíveis, permitindo transpor para outras línguas a beleza da sua inspiração literária e são uma espécie de música por subirem e descerem em tons diversos.

Para se tornar um grande autor, Murakami não se esforçou em demasia; escreveu o livro traduzido para português com o título “Ouve a Canção do Vento e Flipper (Editora Casa das Letras) e enviou-o a uma editora que logo o publicou em num instante vendeu 100 mil exemplares sem grande publicidade. A partir daí nunca mais deixou de escrever um a dois romances por ano.

Seguiram-se muitos livros, entre os quais os três volumes com o título exótico ou outra coisa qualquer “IQ84” que nos revela as relações truculentas de dois personagens aparentemente normais, uma professora de artes marciais e um professor de matemática. As duas atividades não conjugavam muito bem, mas deram três volumes com peripécias extremamente reais e imaginativas, sempre com os detalhes realistas e funambulismo do sonho ou realidade fantástica.

Um dos seus livros intitula-se mesmo “Sono” e outros são “O Elefante Evapora-se”, “A Peregrinação do Rapaz sem Cor”, o “Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo” e “Crónica do Pássaro de Corda”.

O autor começa sempre com uma história realista e detalhada para entrar, por vezes, num mundo fantástico que pode ou não ter sido sonhado. Murakami diz que tem a qualidade fabulosa de voltar a agarrar os seus sonhos depois de acordar e de os ter esquecido mas que reaparecem perante uma folha de papel.

O livro que foge à regra habitual de Murakami foi o “Guerra Subversiva” que é praticamente uma longa reportagem sobre o atentado com gás sarin cometido no metro de Tóquio por fanáticos da seita Aum em 1995. Aí Murakami estudou a fundo os motivos e os personagens do crime, sim personagens como se transformaram no seu livro em que escreveu depois todas as fases do julgamento e a prisão dos operacionais.

Numa entrevista, Murakami disse que este livro o transformou noutra pessoa e o terrorismo nunca mais deixou de o ocupar em cada momento, mais para a sua maneira de ser do que para escrever.

Apesar do seu êxito na Europa e nos EUA, Murakami diz que escreve para os asiáticos que acham natural o fantástico, salientando que os europeus querem ver em cada frase uma mensagem quando ele apenas escreve uma história, o que para ele não significa ser melhor ou pior leitor.

Como muitos escritores, Murakami espera que as histórias lhe apareçam e não as agarra todas. Um autor pega em algo muito singular para ele. Pode escrever-se uma longa lista de ideias de histórias, mas por qualquer razão só uma serve a dado momento e ninguém sabe dizer porquê.

 

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