Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
O Último Trabalhador

 

 

 

- Engenheiro! Mas por que razão os trabalhadores artificiais aparecem sempre vestidos de amarelo, como se fossem operários da construção de estradas. É uma questão histórica que nada tem de especial. Há anos, os empreiteiros de estradas passaram a utilizar uns bonecos vestidos com o fato de segurança dos respectivos operários e que faziam um trabalho de sinalização, poupando um trabalhador humano nessa tarefa repetitiva e nada criativa. Depois ficou por tradição, os nossos amarelos de hoje nada têm a ver com os do passado, já nem podemos descrever as múltiplas tarefas que fazem.

- Praticamente executam todos os trabalhos feitos antes pelos trabalhadores humanos. Tudo, menos a tarefa fundamental de pensar e decidir.

- Claro, amigo Diogo, cada um faz a sua tarefa, o que ajuda a manter a disciplina, se bem que não seja muito fácil reprogramar para outras tarefas, mas lá chegaremos.

- Também, engenheiro, pelo preço que ficam, bem podem manter alguns dos amarelos sintéticos desempregados, não é verdade?

- Não, nunca, eles não são trabalhadores de carne e osso, não são capital móvel, como eram classificados antigamente pelos marxistas, são capital fixo e, portanto, produto do investimento capitalista, logo destinados à reprodução com juros e lucros do mesmo capital.

- Mas é notável o desenvolvimento e a aplicação da técnica dos computadores aos robots quase humanos, engenheiro. Eu não me canso de admirar tal feito da Humanidade que pôs de lado, a própria invenção da máquina a vapor, cuja patente foi registada por Watt em 1769, e o fabrico iniciado em conjunto com o industrial Bolton em 1775. É fantástico, pouco depois do terramoto de Lisboa e dos subsequentes autos de fé, já havia quem se entretinha a construir as primeiras máquinas a vapor.

- Você, Diogo, é economista e por isso sabe de datas e causas económicas e sociais. Eu não, dedico-me só aos mecanismos inanimados que agora são quase tão animados como os homens. E com a grande vantagem de o serem só para executar trabalho útil e, desde que, os telecomandos globais para o grupo estejam ligados. Repare que não necessitam de nada para os manter a funcionar, à excepção de um pouco de corrente eléctrica. E que tarefas executam, conduzem os tractores no campo, lavrando parcelas delimitadas por magnetismos próprios, adubam, semeiam e fazem os tratamento com herbicidas e pesticidas e depois realizam todos os trabalhos de colheita. Na indústria, montam automóveis e todas as máquinas, incluindo eles próprios. Sim, montam-se a si mesmo. E nos serviços, preparam a comida, servem-na à mesa dos restaurantes, lavam a loiça, etc., sem estarem programados para ouvir queixas dos clientes.

- Na verdade, engenheiro, assistimos ontem aqui na cidade à inauguração do último restaurante robotizado. Praticamente foram despedidos os únicos trabalhadores que ainda faziam alguma coisa, depois daquela malta do registo civil, das finanças e da Câmara, toda substituída pelos robôs que a sua empresa importa da China. Os gajos fazem mesmo tudo, porra. Certidões de nascimento, é pedir, coloca-se lá o cartão chip e pronto, o sacana vai lá buscar ao computador e já está. Que maravilha! A nossa civilização é bestial. Eu, como economista, sou o único trabalhador da cidade ainda a receber ordenado. Sim, só os políticos é que fingem fazer alguma coisa e, como tal, têm como que um emprego.

- Você é o único, porque não aceitou aquilo que eles queriam. Vender por bom dinheiro os textos gravados das suas aulas para serem depois repetidas pelo robot professor de economia. Mas vai aceitar. Temos todos de aceitar o que nos mandam, é a globalização robótica.

- Não, engenheiro, eu gosto do trabalho, de estar perante os alunos e ensinar, entrar em diálogo com eles, mesmo sabendo que nunca vão empregar os meus ensinamentos, mas, pelo menos, estamos todos entretidos durante algum tempo nesse simulacro de preparação para o futuro. E a vida é tão curta, depois dos estudos, são trintas e tal de desemprego e, por fim, a reforma. Repare que há indivíduos hoje que estudam toda a vida, passam de um curso para outro até chegarem à idade da reforma, assim não contam para a estatística do desemprego. Eu não, sou teimoso, nem que seja o único a exercer uma actividade laboral. Com a minha teimosia, talvez ainda possa ganhar um lugar de político, os gajos metem o meu nome na lista para estar calado e, assim, ainda vou ter alguma coisa que fazer. Assisto às reunião da Assembleia Municipal ou da Câmara se for vereador e assino a Acta que o robot apresenta logo ao fim da reunião prontinha com tudo o que foi dito. Até os porras que alguém diga vêm na Acta. Você, engenheiro, devia programar aquilo para distinguir um porra dito por algum circunstante de um apoiado.

- O robô não pensa, doutor, nem quer saber se o porra é um termo para a acta ou não. Foi dito e, pronto, fica escarrapachado no documento. Até está bem, a malta da política que modere o seu vocabulário. Também há os robôs que pensam, engenheiro, veja os do controle policial, não estão sempre a ver-nos e não nos comunicam automaticamente para o telerelógio logo que nos vêem fazer algo de errado, mesmo que seja atravessar a rua fora da passadeira? Os gajos sabem tudo o que fazemos, sim e controlam as nossas contas e não só.

- Mas não é a mesma coisa, há aí um automatismo, uma reacção automática a algo de errado, no fundo sem haver um verdadeiro pensamento. Nós, os engenheiros e arquitectos das máquinas e da política, é que pensamos, dizemos aos robôs para programarem todos os chips conforme o que decidimos e pronto, por isso somos os únicos que trabalham, o resto do pessoal vive no lazer perpétuo, quase proibido de exercer uma profissão ou actividade laboral, excepto para os casos de contingência resultante de qualquer imprevisto acidental. Para isso temos os voluntários treinados para várias tarefas que poderão nunca ter de as exercer ao longo da vida, excepto em exercícios periódicos. Veja, doutor, a praça cheia dos nossos robôs, todos a trabalhar, a acabar a nova praça, enquanto os seus utentes esperam que as barreiras sejam levantadas pelos últimos trabalhadores robotizados desta obra. Ficam aqui com bancos, esplanadas, um pequeno anfiteatro de pedra, acessos ajardinados a todos os meios de comunicação e as máquinas de venda de comidas e tudo o mais. E veja o carácter prático desta sociedade, o pessoal recebe nas suas contas o salário de vida sem necessitar de executar qualquer tarefa e depois paga electronicamente todas as suas despesas através do relógio teletudo. O pessoal pertence todo à mesma classe social, a média sem pretensões, é asim como eu a classifico. Oficialmente é só a classe Alfa 01. Todos iguais, todos felizes, sem trabalhar, não é verdade?

- Não engenheiro, acho que não, prefiro os tempos antigos em que as pessoas trabalhavam, produziam qualquer coisa, orientavam a sua vida como podiam e queriam. Alguns estavam desempregados, é certo, mas a esmagadora maioria da população trabalhava. Hoje não. Andamos por aí, estudamos, passamos por cursos e treinos para depois só uns poucos é que vão para o trabalho de pensamento e neste pequeno país esse trabalho é reduzido a quase zero, só os gajos da política e isto porque não se quis robotizar a política como querem os partidos da oposição. Veja que o PAEIOU quer um parlamento reduzido a um só deputado humano por cada partido e uns tantos robots em função dos votos dados a cada partido. Assim, o debate é robotizado, competindo aos líderes tomarem algumas decisões quanto aos assuntos a debater e fazer aprovar. Os robôs elaboram tecnicamente as leis e decisões e os líderes dizem sim ou não.

- Em última instância, doutor, vamos ter um poder político inteiramente robotizado e o pessoal a votar semanalmente aquilo que quer ver aprovado, seria como a democracia da Grécia antiga, o povo em assembleia permanente e os escravos robôs a fazerem o trabalho.

- Formidável, pá, nem o Sócrates e o Platão poderiam imaginar melhor. Palmas pelo Terceiro Milénio, viva o Século XXI, pá.

 

Publicado na Revista Literária Sol XXI

Dieter Dellinger Copywright



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